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Manuel Alegre, João Soares e Artur Anselmo na Academia das Ciências
Manuel Alegre, João Soares e Artur Anselmo na Academia das Ciências
Manuel Alegre na homenagem na Academia de Ciências:
“Eu tinha vinte e poucos anos e acreditava na força da palavra poética”
15-01-2016

“É sempre difícil a um autor falar do seu livro, sobretudo se, como pretendeu um escritor meu amigo, o livro já não lhe pertence. Ou se o eu que nele se expressa deve ser entendido como um “eu coletivo”, assim o disse Mário Sacramento, numa das primeiras recensões críticas sobre Praça da Canção.

O que não deixa de ser um tanto excessivo” afirmou Manuel Alegre na homenagem ontem celebrada na Academia das Ciências pelo 50º aniversário de “Praça da Canção”. “É certo que eu estava convencido”, disse ainda, “que falava em nome de um povo e de um país. Acreditava na força da palavra poética e que, por ela, como queria Rimbaud, podia mudar a vida. Não é menos certo que muitos anos antes de Abril cantei o país de Abril, o que parece confirmar a vidência que o grande poeta francês associava à poesia. Mas eu tinha vinte e poucos anos. Talvez nessa inocência resida o segredo do sucesso de Praça da Canção.”

Uma conspiração organizada
“Esta sessão deve-se a uma conspiração organizada pelo meu velho amigo Artur Anselmo, com a cumplicidade de José Carlos de Vasconcelos e de José Manuel Mendes, outros queridos amigos. O José Carlos está doente. Conluiaram-se os três para me deixarem emocionado e embaraçado”, confessou Manuel Alegre logo no início da sua intervenção.” "Quem havia de dizer”, interrogou-se, “quando andávamos a representar Gil Vicente e o teatro grego, sob a batuta do Paulo Quintela, quem havia de dizer que um dia estaríamos aqui nesta augusta Instituição, tu como seu Presidente e eu como autor de um livro em tempos proibido?”.

Numa sessão em que se viam grandes figuras do meio académico e da cultura, desde o Ministro João Soares a Adriano Moreira, Teresa Rita Lopes, Maria Alzira Seixo ou Paulo Sucena, Alegre agradeceu com emoção a Artur Anselmo pela iniciativa e a José Manuel Mendes “pela sua sempre sábia leitura de um livro que ele conhece de cor e ajudou a divulgar”, tendo depois evocado as “outras vozes” que divulgaram os seus poemas, “como a de Maria Barroso, José Carlos de Vasconcelos, Paulo Sucena, Mário Viegas e outros, juntamente com as daqueles que musicaram e cantaram muitos destes poemas, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, António Portugal, José Niza, Manuel Freire, Luís Cília, António Bernardino, Alain Oulman e Amália Rodrigues.”

Uma visão poética de Portugal
Manuel Alegre desenvolveu em seguida a sua visão de Portugal: “A minha visão de Portugal é uma visão poética, uma visão integradora, em que se misturam poemas, batalhas, revoluções”. Percorrendo a história de Portugal, dos momentos decisivos e dos escritores que o marcaram, Alegre concluiu: “Cada língua – como escreveu George Steiner – ‘é um acto de liberdade que permite a sobrevivência do homem’. É certo que hoje os novos oráculos não estão em Delfos. Estão nas bolsas e nos mercados. Mas a fonte de Castália não secou. A escrita poética preserva o sagrado e é uma forma de resistência contra o grande mercado do mundo e a degradação da vida. Hoje, como sempre, poesia é liberdade.”