"País de Abril, uma antologia" reúne 29 poemas sobre Portugal, alguns escritos ainda antes da Revolução e num registo "quase premonitório" do que viria a suceder em Lisboa a 25 de Abril de 1974, conta Cecília Andrade, da editora D. Quixote.
"Não deixa de ser intrigante que, tantos anos antes, o autor tenha escrito sobre o País de Abril, Maio e os cravos vermelhos. Como se explica? Mistérios da poesia", lê-se na nota de edição que introduz os poemas.
Como em "Poemarma", de 1964, em que Manuel Alegre parece antecipar, dez anos antes, a madrugada de abril:
"Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal". Ou em "Lisboa perto e longe" (1967):
"Lisboa tem um cravo em cada mão/ tem camisas que Abril desabotoa/ mas em Maio Lisboa é uma canção/ onde há versos que são cravos vermelhos/Lisboa que ninguém verá de joelhos". A antologia reúne poemas originalmente publicados em "A Praça da canção" (1964), "O Canto e As Armas" (1967) - livros que a censura proibiu mas que "circularam de mão em mão em cópias manuscritas e dactilografadas" -, "Atlântico" (1981), "Chegar Aqui" (1984) e "Livro do Português Errante" (2001). Compreende ainda um poema a Salgueiro Maia, quase inédito - só fora publicado uma única vez, no "Jornal de Letras", em 1992.
Muitos destes poemas, recorda a editora, "foram musicados e recitados em múltiplas sessões pelo país". Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Francisco Fanhais, Manuel Freire, António Bernardino e outros "levaram os poemas dos livros até às pessoas, mesmo aos que não sabiam ler".
À venda a partir de hoje, "País de Abril" será lançado a 9 de abril, em Lisboa e uns dias mais tarde em Coimbra. Esta primeira edição tem uma tiragem excecional de 10.000 exemplares e será posta à venda pelo preço, quase simbólico, de cinco euros. "Entendemos que era uma boa forma de comemorar os 40 anos do 25 de Abril", remata Cecília Andrade.