Durante a viagem presidencial de Mário Soares ao Chile, proporcionaram-nos um passeio pelo Estreito de Magalhães num barco de guerra. Estava um frio suportável e a certa altura Maria de Jesus começou a ler os poemas de Maremoto, um livro de Pablo Neruda consagrado às coisas do mar. Pediu-me para a acompanhar. Líamos em castelhano, primeiro quase em surdina. A pouco e pouco entusiasmámo-nos e subimos o tom. Líamos para nós próprios.
- Só ligam à política, disse ela, olhando de soslaio para Mário Soares e os jornalistas que o rodeavam.
Mas às tantas começaram a ser contagiados pela beleza dos versos e pelo arrebatamento de Maria de Jesus. Até Mário Soares se aproximou.
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