"É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra"
Manuel Alegre
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Passado presente
18-03-2010 Sílvia Souto Cunha, Visão
A “escrita em ziguezague” do escritor candidato à Presidência da República

É um livro fininho, uma centena de páginas a flutuar no espaço, uma respiração de prosa poética, quase um fôlego de ensaio curtinho sobre as questões do tempo, da identidade, da memória, da literatura. Depois dos romances Cão como Nós _(2002) e _Rafael (2004), e depois da luxuosa caixa vermelha _Poesia - Vols I e II _(2009), Manuel Alegre tem novo livro(com lançamento previsto para dia 26). Chama-se _O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua _(D. Quixote, 111 págs.) e autodefine-se como uma novela.

Nela, há capítulos breves, há elipses e saltos, há interpelação directa ao leitor. É uma "escita em ziguezague", como se lê algures. Confessionalismo e revisitação do passado, ainda que não haja cronologia de diário – sabendo-se que o passado está constantemente a ser reescrito pelo presente. Está lá a Águeda natal do escritor, e a Anadia da casa da tia-avó Maria do Carmo: "Quero entrar nesta casa e ficar nela para sempre, sentir o cheiro a alfazema distribuída pelos móveis em pequenos saquinhos, ouvir a música do relógio de parede no corredor, sentar-me com a Tia, uma tarde de Verão à porta da sala de estar, e ouvi-la ler versos de António Nobre e falar-me outra vez de D. Sebastião." Estão também presentes os jogos com o pai, que ora lhe lia os versos completos ora omitia propositadamente palavras – a ver se o miúdo que "gosta de armar ao pingarelho" mas que, diz a mãe, "tem ouvido", se "fica". E lê-se que o "miúdo" à beira de fazer uma angioplastia pede aos médicos que o deixem acabar o livro: "O amigo julga que ele se refere ao romance que anda a escrever, mas quando fala no livro o miúdo que caçava narcejas está a falar, talvez sem disso ter consciência, da terra que tremia dentro dele e agora já não treme, o livro da vida, digamos assim, o pulsar do mundo a bater no coração de um homem, é isso a escrita, nada mais, apenas isso, que é tudo, a terra a tremer no sangue que passa e neste momento não passa numa artéria bloqueada."

Dilui-se o género, abriu-se o coração. Biografia disfarçada, carta a netos e leitores, quiçá se confundam. "Tal como a primeira leitura de Mário de Sá-Carneiro ainda hoje se confunde com a paulada na cabeça que lhe deu o professor António Cobeira."

Manuel Alegre vai, agora, regressar à estrada das campanhas políticas. É pena, no que diz respeito à vida literária. Quem sabe que outros romances estas memórias poderiam produzir…