Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado.
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Cecília Andrade, editora, Manuel Alegre e Maria Teresa Horta
Cecília Andrade, editora, Manuel Alegre e Maria Teresa Horta
Maria Teresa Horta sobre o livro “Tudo É e não É”:
“Livro revolucionário de um poeta que é da condição da liberdade”
29-04-2013 Fotografia de Gustavo Bom

“Já não sei se estou aqui, porque o Manuel Alegre me deixou no patíbulo”, afirmou Maria Teresa Horta na apresentação de “Tudo É e não É”, o último romance de Manuel Alegre, explicando: é que o sonhador, António Valadares, descobre a certa altura que “a marquesa que está para ser decapitada, Leonor de Távora, minha sétima avó, afinal sou eu. E ele muda de sonho, mas eu fico lá em cima”. Manuel Alegre acudiu prontamente à sua “irmã da escrita e da vida”: “Pedi-te para vires aqui apresentar o livro para te tirar do patíbulo.”

Este diálogo único entre dois grandes poetas podia ser mais um dos episódios delirantes do “romance veloz, ágil, voraz”, que, segundo Teresa Horta, nos deixa numa “compulsiva vontade de desenrolar os enigmas perigosos” com que Manuel Alegre, “como Sherazade, vai enrolando os leitores nas suas mil e uma histórias”. “Os poetas são da condição do sonho ou, segundo Rilke, da condição dos anjos”, disse ainda, considerando que este “livro revolucionário” é escrito por um poeta que é “da condição da liberdade”. Livro que é um “golpe de asa”, de leitura “sobressaltada e imprevisível”, em que “a partir de certa altura não se está certo de nada, nem mesmo se somos nós que sonhamos”.

Nas aventuras em que o protagonista, António Valadares, nos mergulha, “multiplicam-se numa infinita galeria”, descreve a escritora, “figuras que fazem parte do nosso imaginário”, mas também os heróis e os mitos. Assim, podemos “morar num livro ou nas montanhas da Venezuela, com Felipe, o guerrilheiro”, ou podemos ainda, concluiu perturbada, “encontrar-nos no patíbulo com Leonor, marquesa de Távora, que afinal sou eu”.

O sentido está escondido

Na resposta a Maria Teresa Horta, depois de cavalheirescamente a tirar do patíbulo, Manuel Alegre contou que após a escrita deste romance leu um ensaio sobre os sonhos, de Walter Benjamin, segundo o qual “a língua no sonho não está nas palavras mas debaixo delas. O sentido está escondido”. Assim compreendeu melhor o dilema de António Valadares – não se trata de falta de inspiração, “mas de ter perdido o fio à meada”. “Compreendi que o sentido está escondido, mas não é só no sonho”, é nas palavras deste tempo em que “ninguém comunica com ninguém”.

“Pertenço a uma geração em que acreditávamos que a História tinha um sentido” e em que “os ditadores temiam os poetas, os romancistas, os ensaístas”. “Eram censurados mas a sua voz era ouvida”, recorda. “Hoje a vida pública está dominada pelos mercados” que se sobrepõem a tudo e contaminam a língua e a linguagem. Talvez por isso, disse, “eu tenha ido procurar na escrita dos sonhos uma outra língua por baixo das palavras”. John Le Carré, citou, afirmou em recente entrevista: “Não consigo encontrar a esperança”. “Também eu não”, confessou Manuel Alegre, concluindo: “Se calhar foi por isso que pedi a António Valadares que a procurasse. Talvez a esperança afinal esteja naquilo que cada um é capaz de fazer.”

Assistiram ao lançamento do livro muitos leitores e amigos de Manuel Alegre, bem como camaradas da escrita - Lídia Jorge, Mário Carvalho, Nuno Júdice, José Manuel Mendes, entre outros - e das lutas políticas – como Alberto Martins, Francisco Louçã, António Costa, Maria de Belém, Luís Moita, Teresa Rita Lopes, Henrique de Melo ou Paulo Sucena. Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura em Lisboa, foi a anfitriã, na biblioteca municipal das Galveias, espaço repleto de memórias da escrita e de escritores.