Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado.
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Manuel Alegre na guerra, em Angola, e em foto da PIDE na cadeia de Luanda, onde escreveu alguns dos poemas de Praça da Canção, cuja primeira edição, do Cancioneiro Vértice, é de 1965
Manuel Alegre na guerra, em Angola, e em foto da PIDE na cadeia de Luanda, onde escreveu alguns dos poemas de Praça da Canção, cuja primeira edição, do Cancioneiro Vértice, é de 1965
Testemunhos da génese e do impacto de um livro de poemas com 50 anos:
"Somos filhos da Praça da Canção"
17-03-2015 Maria Leonor Nunes, JL, 21 de janeiro a 3 de fevereiro de 2015
Em dossier especial do JL

Praça da Canção, um livro de poemas escrito por um homem que esteve na guerra, na cadeia e no exílio, faz 50 anos e continua ‘vivo’, com sucessivas reedições. Nunca em Portugal, logo que saiu, em vida do seu autor, um livro de versos terá sido tão lido, tão cantado e tão marcante. Histórias da sua génese, destino e repercussão e testemunhos do impacto dessa obra, bandeira da luta contra a ditadura e revelação de um escritor cuja obra com o tempo se alargou e aprofundou, são apresentados num dossier especial do nº 1151 do Jornal de Letras, que aqui retomamos.

Poesia e resistência

Pela calada da ‘longa noite fascista’, com um “cúmplice”, ia “fora de horas” para os serviços administrativos da base, em Monsanto, onde cumpria serviço militar. Manuel Freire ditava-lhe os poemas e o furriel, seu amigo, que escrevia bem à máquina, batia-os em stencil, uma forma de fazer cópias na altura: “Depois, arranjámos umas folhas A4, que dobrámos ao meio e imprimimos tudo de noite e às escondidas”. Fizeram cem exemplares, conjuntos de folhas sobrepostas, nem sequer agrafadas, metidas em capas verdes de papel vegetal. “Foi uma edição da Praça da Canção, com o apoio do aparelho técnico da Força Aérea, que forneceu os materiais...”, ironiza o cantor.

Já depois do 25 de Abril, numa sessão de homenagem na Sociedade Portuguesa de Autores, Manuel Freire deu um dos últimos exemplares dessa “edição pirata” a Manuel Alegre (MA), que só então conheceu. Isto já depois de muito ter cantado os seus poemas, a começar por Trova, a que se seguiram Trova do Emigrante e outros, em concertos, muitos com a Pide à porta, outros com os censores a subir ao palco, e em discos que foram censurados e proibidos. “Foi o início de uma amizade, até hoje, com o pagamento de uma dívida que tinha para com ele e a assunção pública de um pecado feito contra os direitos de autor”, graceja.

Às mãos de Manuel Freire, a Praça da Canção (PdaC) chegou já numa cópia clandestina, mas cartonada. “Uma epifania”, diz. “Nunca tinha encontrado uma poesia de combate com aquela qualidade poética - e na minha língua. Achei que era preciso que muita gente lesse aqueles poemas”. E se bem o pensou, melhor o fez.

Não foi um caso isolado. Poucos livros terão sido tão difundidos em vida de um autor. A Praça da Canção foi proibido e apreendido pela Pide, pouco depois da sua publicação, em janeiro de 1965, mas já era lido em recitais e cantados os seus poemas, trovas que continuam a emocionar onde quer que sejam entoadas. Passou mesmo de mão em mão, em fotocópias, em manuscritos, os versos copiados e decorados, como nenhum outro. “Circulava livremente entre os estudantes de Coimbra”, como diz António Nunes Diogo, cardiologista, lembrando que a Associação Académica, apesar de estar proibido, policopiou várias ‘reedições’. Quando primeiro leu esses poemas, o médico, que já tinha uma forte consciência política (uma herança familiar: uma das primeiras memórias que tem é de uma visita à prisão do Aljube, para ver o pai, Armando) e conhecia MA, nomeadamente do TEUC, onde ambos faziam teatro, teve a sensação de ter encontrado “uma voz poética, épica, que encarnava os ideais” que lhe tinham sido transmitidos pelo pai e pela mãe. “A PdaC foi uma bandeira”, um instrumento na luta pela liberdade, contra a ditadura”.

Um “símbolo de resistência”, como lhe chama Paulo Sucena, professor e ex-presidente da Fenprof, que também viveu intensamente esses meados dos anos 60: “É um livro singular. Desde logo por ser possivelmente o mais lido de sempre da poesia portuguesa, e pela sua qualidade poética. Um luzeiro, um hino de amor à ‘pátria por achar’, o ‘país de Abril”. A seguir ao 25 de Abril, teve sucessivas edições a que agora se junta mais uma, celebrativa de meio século de existência (D. Quixote), com prefácio de José Carlos de Vasconcelos.

Um megafone na luta

Manuel Alegre não esconde o espanto: “Nunca esperei ver os 50 anos da PdaC. Sempre vivi de uma forma arriscada”, diz ao JL (ver entrevista AQUI)_. É, aliás, de uma “geração condenada ao risco”. Os seus poemas romperam um tempo em que a palavra liberdade era “incendiária” e era “perigoso” falar da Guerra Colonial, do país que vivia em ditadura. Daí o seu significado maior. “Somos filhos da _PdaC, que deu consistência artística, a mais valiosa, à ânsia de liberdade da minha geração, como só a arte pode fazer, porque perdura”, sublinha João Rodrigues, editor da Sextante, que era estudante em Coimbra quando o livro saiu.

Também um “jovem estudante antifascista”, a “despertar para a consciência política”, mas no Porto, Zeferino Coelho espantou-se com o “extraordinário” aparecimento da PdaC… “Pensei que o país se ia levantar em peso, quando ouvisse aqueles versos”, afirma. E a imagem que ocorre ao editor da Caminho, e de tantos grandes escritores portugueses (como Saramago) é a de um “megafone”, aparelho que muito o espantaria mais tarde, quando numa reunião estudantil viu surgir Alberto Costa (futuro ministro da Justiça) com essa coisa que nunca tinha visto. “Achei fantástico que falasse e toda a gente o pudesse ouvir e não pode haver melhor comparação para expressar a força que teve a PdaC num jovem como eu”, acrescenta, rindo. “Como se o poeta estivesse a falar ao princípio da rua e o povo se levantasse todo contra a censura, a ditadura, tão expressiva achei aquela poesia militante e cantabile”.

O alvoroço da “Trova”

E a verdade é que mesmo antes de ser livro, a Praça foi canção. Diz quem viu e ouviu que foi um “momento único” aquela noite em que assistiram nascer Trova do Vento que Passa, em casa de António Portugal, guitarrista e compositor, casado com Teresa, irmã de Alegre. “O Adriano tocava umas notas, e o Manuel recitava os versos, tinham já feito um esboço da canção, numa conversa que tinham tido. O Portugal deu então um contributo decisivo”, recorda Rui Pato, músico que acompanhou à viola Adriano e Zeca Afonso, tal como Portugal, e fazia parte do círculo familiar do poeta. “Não suspeitava da importância que esses versos iriam ter, mas desde logo eram para nós o primeiro exemplo de uma poesia feita canção, trova, balada. Havia uma musicalidade em cada verso”, diz.

Trova do Vento que Passa seria tocada pela primeira vez ao vivo pouco tempo depois, numa reunião de estudantes na Faculdade de Medicina de Lisboa. Alegre veio participar nela, apesar de estar impedido pela Pide de viajar, com residência fixa em Coimbra, depois de ter voltado da prisão em Angola. O editor Manuel Alberto Valente lembra como o poeta foi recebido, sobretudo pelo público feminino, quase como hoje o é uma “estrela pop”. “Um alvoroço”, garante. E MA guarda essa memória: “Os aplausos rebentaram, logo que Adriano cantou, depois juntou-se o Zeca e as pessoas saíram logo a cantar os versos, uma loucura”. Rui Pato confirma essa excitação. “Foi estrondoso. Vimos logo ali a importância da Trova, assim como percebemos que toda a poesia do Manel vinha já com música. Por isso o Adriano gravou alguns poemas, tal como o Zeca, e tocámos por todo o lado”.

Também o cantor e compositor Luís Cília seria irresistivelmente tocado por essa musicalidade poética em Paris, onde MA tinha acabado de chegar, na primeira escala do seu exílio, e foi dos primeiros a musicar os poemas de PdaC. Encontraram-se no Café Select Latin, na confluência do boulevard Saint Michel e da Rue des Écoles, onde iam muitos portugueses recém-chegados à capital francesa, sobretudo ligados ao Partido Comunista, como era o caso deles. “Julgo que foi mesmo no dia em que chegou. Pouco depois, juntávamo-nos no meu quarto, ele dizia os poemas e eu musicava-os ao mesmo tempo. Uma espontaneidade que não voltei a ter como compositor”, revela. Uma urgência criativa que Alegre igualmente recorda ao JL: “Mal acabava o verso e o Cília pegava na viola e tocava. Às vezes, nem chegava a acabar e ele já estava a compor”, diz rindo.

Foram bons os frutos dessas verdadeiras ‘jam sessions’, canções “espontâneas" de que o músico não se arrepende. Porque Cília, que chegou a ser ‘barbeiro’ de Alegre, nesses dias de “míngua” em Paris, cortou o cabelo ao poeta, mas ao contrário do caso de Sansão, só daria mais força às suas palavras.

Uma praça, uma estátua

Por força do livro, muitos passaram a denominar MA de poeta da Praça da Canção, apesar de ter uma vasta obra poética e ficcional, onde se destacam títulos como O Canto e as Armas, _Atlântico,_ Senhora das Tempestades, _Jornada de África_ ou Tudo É e não É. A importância de PdaC é tão assinalável que até já figura na toponímia de Coimbra, caso certamente raro de um livro que dá nome a um local: a Praça da Canção, particularmente vocacionada para a realização de iniciativas culturais, em especial no domínio da música, fazendo jus ao nome e à própria história da obra que evoca, fica no “coração da cidade”, na zona ribeirinha, junto ao Mondego e ao Parque Verde. Onde justamente, se ergue uma estátua de Manuel Alegre, porventura o único poeta vivo já com um monumento. E foi por unanimidade que o município de Coimbra decidiu pôr a Praça da Canção no mapa da cidade, assinalando os 25 anos do livro, e depois erigir aquele monumento. Era então presidente da Câmara Municipal Manuel Machado (PS), atualmente de novo na presidência da autarquia e da Associação Nacional de Municípios.

“A PdaC foi um grito de alma em defesa da luta pela liberdade”, afirma ao JL. “O espírito que nos animou neste gesto simbólico e julgo que único foi o de homenagear essa obra e a sua mensagem, e o poeta que é um ilustre conimbricense”. A estátua, prevista no projeto inicial, seria inaugurada já em 2005, pelo então presidente do município, Carlos Encarnação (PSD). “Haverá quem possa estar nessa praça a ler um livro ou a ouvir música e nem saiba a que se refere o seu nome, que a memória coletiva por vezes fraqueja, mas pretendemos exatamente fazer perdurar um tempo da nossa história comum, em que houve pessoas que pela pena, outras pelas armas, ajudaram a reconquistar a liberdade; a PdaC foi um dos referenciais literários que nos permitiu sonhar na longa noite da ditadura, um livro que trouxe alento para muitos que depois tiveram a felicidade de ver o 25 de Abril”, sublinha Machado. Coimbra irá assinalar os 50 anos da PdaC com um programa ainda em preparação, porque “em tempo de angústias e de constrangimento à liberdade, é preciso uma reflexão permanente sobre a democracia, porque vale a pena lutar pelo aperfeiçoamento da vida coletiva, para uma Humanidade melhor”, sustenta ainda, sublinhando nesse sentido o carácter “inestimável” do contributo dos poetas. O convite é pois para “passear” na e pela Praça da Canção.

Edição em segredo

De capa branca, com letras a vermelho pálido, a Praça da Canção saiu na coleção “Cancioneiro Vértice”, a revista na prática dirigida por Joaquim Namorado, onde já tinham saído dois livros que ao tempo marcaram, Cuidar dos Vivos, de Fernando Assis Pacheco, e Corpo de Esperança, de José Carlos de Vasconcelos. Os três tinham entrado para a redação da revista no mesmo dia, em 1962, só que os dois primeiros estiveram nela pouco tempo porque foram chamados para a “tropa”.

Quando PdaC foi publicado, MA já estava no exílio. Ivo Cortesão, da redação da revista, organizaria a edição, acrescentando-lhe de resto o primeiro texto, sobre as ‘rosas’ que sua mãe, Maria Manuela, ritualmente lhe oferecia em cada aniversário. Esse texto, a ela dedicado, escreveu-o o poeta já escondido na casa de Rui Feijó, antes de sair clandestinamente do país. Juntou-o aos originais de PdaC, mas não o tinha imaginado no livro. Só quando, em Paris, teve nas mãos um seu exemplar, verificou que tinha sido incluído, como disse ao JL.

Esse texto tornar-se-ia, aliás, uma marca. Sucena explica que “ia direito ao coração de toda a gente” e o padre Fanhais confessa que perdeu a conta às vezes que o leu em público, por toda a parte, e certa vez que foi cantar a Coimbra levou uma rosa para a mãe de Alegre. Foi ela, a D. Manuela, como era conhecida, uma senhora muito corajosa e ativa (a que Assis dedicou, aquando da sua morte, um poema publicado aqui no JL), que entregou o original de PdaC a Ivo Cortesão - e organizaria depois, meticulosamente, um caderno com todas as notícias e críticas relativas ao livro, que MA encontrou agora num armário na casa de Águeda, tal como o manuscrito original de Trova do Vento que Passa.

Em “segredo” e com o mais atento “cuidado”, Ivo Cortesão acompanhou todas as fases de produção do livro, como faz notar a filha, Judite, que guarda ainda as suas provas tipográficas. A lápis, na folha de rosto, assinalava-se que a impressão tinha começado na tarde do dia 14 e terminara às 10 do dia 17, e a brochura na manhã do dia 19. “As provas têm muitas notas e correções, porque o meu pai era professor do liceu D. João III, um purista da língua, pelo que pôs todo o empenho na revisão”, explica. “Tal como acompanhou a composição e impressão e ele próprio ajudou a enviar o livro para os assinantes da Vértice pelo correio, chegando a ir entregar alguns em mão, com receio que pelo correio fossem apanhados pela Pide”.

A génese da PdaC carreava a sua futura “lenda”, segundo o próprio MA. O livro começou a circular ainda em 1964, embora a data de edição seja janeiro de 1965. Paulo Sucena, amigo do poeta e seu conterrâneo de Águeda, pode comprová-lo: “O meu exemplar, que o meu pai assinou com o seu nome, Hélio Sucena, tem mesmo escrito “Águeda, dezembro de 64”. Foi a prenda de Natal que ele tinha pedido: “O próprio livro furtava-se assim à ‘caça’ que Ivo Cortesão percebeu que a Pide iria fazer”, adianta.

Alípio Miranda, um amigo da escola primária de Alegre, foi um dos que o pôs a circular. E foi assim que quando a Pide chegou às livrarias para apreendê-lo, encontrou poucos exemplares. O livro já tinha seguido o seu caminho de resistência. “Há nele um sopro épico que pretende denunciar a opressão dos tiranos, diria mesmo, do ponto de vista atual, dos que se vergam perante interesses estranhos a Portugal e dos que se vendem por 30 dinheiros”, diz Sucena. O seu impacto foi intensificado pela guerra colonial, contra a qual se lutava na oposição clandestina, destaca por seu lado Nunes Diogo: “A certa altura, o dilema que se punha era a deserção ou a continuação da luta, dentro das estruturas do Exército. O Manel foi preso em Angola precisamente por estar envolvido numa tentativa de revolução dentro dessas estruturas”, lembra.

Escrever na memória

A sua atividade política tinha, de resto, feito com que fosse enviado rapidamente para a linha da frente. MA recorda como, já no serviço militar, participou, na cantina da universidade, num encontro nacional de estudantes, que tinha sido proibido, onde ‘discursaram’ Jorge Sampaio e José Carlos de Vasconcelos: “Eu não podia falar por estar na tropa, mas a assistência começou a chamar o meu nome e acabei por subir para uma mesa e fiz o meu primeiro discurso sobre a Guerra Colonial. Três dias depois enviaram-me para os Açores”. Lá escreveu o seu ‘visionário’ “País de Abril”, um poema que dedicou a Melo Antunes - o primeiro a quem o revelou -, aí colocado como capitão, de quem foi amigo e com quem conspirou. Quase todos os poemas de PdaC tinham dedicatórias em epígrafe, que no entanto foram retiradas da primeira edição, para não comprometerem os dedicatários. “País de Abril” foi, aliás, o primeiro título que, premonitoriamente, Alegre pensou para o livro, logo abandonado por se poder confundir com o turístico “Avril au Portugal” então em voga. “Ganharia em dimensão poética”, como assevera.

Dos Açores, MA seria enviado para Angola, para uma das mais violentas frentes de combate. Alguns poemas de PdaC foram criados quando MA estava na prisão de Luanda. O poeta confessa que tinha uma “boa memória” e esses poemas, entre os quais “Nambuangongo, meu amor”, foram de facto criados mentalmente: “Quando fui preso, no início nem tinha lápis e papel. Só posteriormente me foram autorizados. Por isso, criei-os na minha cabeça e só depois os escrevi. Descobri mais tarde que Camilo Pessanha também fazia os seus poemas inteiros na memória”.

Quem acabou por “safar” esses poemas foi outro escritor que se tornaria famoso, Luandino Vieira, então preso na mesma cadeia, numa cela próxima da de Alegre, pelo seu anticolonialismo. É discretamente que lembra ao JL o episódio. “A certa altura, soubemos na prisão que ia chegar um alferes do Exército colonial, que tinha sido preso. Praticamente no dia em que chegou percebemos quem era. A nossa rede de solidariedade na prisão funcionava como um apoio para muitas coisas que não tinham a ver com a Literatura, mas no caso também com a Literatura. E foi através dela que fizemos sair alguns poemas do Alegre. A certa altura, ele pediu-me se os podia fazer chegar à mulher. Assim foi feito. Só muito mais tarde conheci o livro. O MA entretanto saiu da prisão e nós ficámos. E só depois do 25 de Abril, mesmo da Independência, o voltei a encontrar”.

A voz do bardo

Antes da PdaC, Alegre já tinha publicado poemas em revistas, nomeadamente na Briosa, que dirigiu, e na Via Latina, semanário da Associação Académica de Coimbra, de que era chefe de redação José Carlos de Vasconcelos, e do qual foi redator o moçambicano (futuro ministro, com Samora Machel) Óscar Monteiro. “Esses poemas eram verdadeiros manifestos à Academia. Recordo o frémito de emoção que perpassou a Academia quando saíram os cinco poemas de Manuel Alegre”, lembra num seu recente livro de memórias. “Aos redatores caloiros cabia a tarefa de negociar com o capitão, operação que tinha lugar pelas nove horas da noite. Gostaria de ter a certeza que negociei a publicação dos cinco poemas de Manuel Alegre mas não estou certo. O que sei é que o capitão censor já nessa época estava atento aos poemas. Perguntava-nos a cada passo: o que quer dizer isto? Nós íamos dizendo, senhor capitão, não é nada, isso é uma expressão poética, até que à terceira, ele explode: vocês dizem-me sempre isso, mas depois eu é que sou repreendido pelos meus chefes por ter deixado passar... E de frustração cortava o verso seguinte, se calhar inocente”.

Manuel era colega de faculdade de Óscar. Cursavam Direito. “No terceiro ano e numa faculdade civilística por excelência, a cadeira mais dura era Obrigações, dado segundo o manual de Manuel de Andrade, ultraconceptual e de uma limpidez proclamada, mas só acessível a iniciados”, escreve ainda no referido texto. “Estudávamos todas as noites a partir das nove. Pelas dez e meia, a mãe vinha trazer-nos chá frio num bule de prata. Pela meia-noite, em certos dias, Manel começava a ficar absorto, já respondia só com monossílabos quando eu fazia um comentário sobre a decifração do texto. Sacava então de umas folhas grandes quadriculadas ou listadas, que mais tarde venho a encontrar em França e começava a escrever. Eu ao lado, a ver nascer um poema”. Um dos mais “belos momentos” da sua vida, como hoje reconhece: “E lia-o para mim em voz alta com a sua voz que fazia troar o silêncio. Depois de escrever, disse-me, é preciso ‘viajar’ o poema. E que viagem é essa? Não é uma viagem para fora, é uma viagem para dentro”.

Eram poemas “mobilizadores” capazes de, como os de Jorge Rebelo ou de José Craveirinha, dar os “sentimentos” e o “sonho” de uma geração num determinado momento. “O papel dos poetas para nós, seus leitores, foi o terem sido capazes de depurar e exprimir com qualidade e nobreza os momentos e sentimentos que vivíamos todos. Nesse sentido foram verdadeiramente os bardos de uma geração”, acrescenta.

Alegre era já na altura uma “figura quase mítica”. Uma “voz” a que não era possível fazer orelhas moucas. Que o diga Luísa Feijó, na época a estudar Germânicas em Coimbra e envolvida nas lutas da Academia. “Um dia vinha a descer a escadaria quando ouvi uma voz fabulosa a dizer um poema”, conta. “Entrei na sala de onde vinha e fiquei fascinada a ouvir. Era o MA, acabado de regressar de Angola “. Era já amiga da irmã dele, Teresa: “Andávamos todos na mesma ‘onda’ e precisávamos de uma voz que fosse um chamamento”, salienta. “As reuniões em que falavam o Alegre e o Eurico Figueiredo eram realmente muito empolgantes. Alegre não era um homem bonito, mas belíssimo. Vaidoso, senhor do seu nariz, muito apaixonante”.

Em PdaC, surpreendeu-a a capacidade que a sua poesia tinha de “arrebatar as pessoas, por dizer aquilo que toda a gente pensava com palavras que eram muito belas, mas sempre com um apelo à acção”.

Os dias de Lousada

Avisado de que poderia ser de novo preso pela Pide, MA teve de ir para o exílio. Partiu no dia do seu aniversário, a 12 de maio de 1964. Ficou primeiro em Lisboa, escondido na casa do poeta (um dos do Novo Cancioneiro), ensaísta e crítico musical João José Cochofel. Cochofel, que com Armando Bacelar (advogado e crítico literário, então do PCP, e que após o 25 de Abril seria ministro num governo de Mário Soares) o ajudariam a seguir para a casa de Rui Feijó, um invulgar homem de cultura, ligado ao grupo dos neorrealistas, em Vilar, na Senhora Aparecida, concelho de Lousada, a 30 e tal kms do Porto. O cineasta Abi Feijó, filho mais novo de Rui, que agora aí vive e instalou o Museu da Animação, pouco se lembra desses meses que Alegre lá passou. Era ainda criança e apenas reteve na memória que foi MA que o ensinou a disparar a Flaubert que lá havia e a fazer pontaria aos pardais. Iam juntos para o campo, em caçadas que ficariam por aí. Mas a sua mãe, Margarida Feijó, recorda bem o dia em que Alegre chegou, 15 de maio de 1964, dia em que o céu desabou numa grande trovoada. Foi ela que passou à máquina os poemas de PdaC. “Eu tinha aprendido datilografia e o Manel pediu-me para passa-los à máquina”, recorda. “ Ditava-os e eu datilografava, sem problemas. E a verdade é que aqueles poemas caíram-me cá dentro e fiquei sempre ligada a eles, tornando-me uma admiradora de toda a sua obra”.

Hoje com 84 anos, Margarida de pouco mais tem memória desse tempo em que MA esteve escondido em sua casa, por onde passaram outros ‘clandestinos’. Porém, um episódio permanece muito vivo, pela emoção que envolveu. Um dia, Adriano Correia de Oliveira, então namorado de Luísa Feijó, foi visitá-la. “Quando chegou e viu o Manuel, caíram nos braços um do outro, porque não fazia ideia que ele estava lá”, lembra. “Foi uma surpresa muito grande, um abraço explosivo, das coisas que marcam a vida”.

Luísa Feijó também guarda a lembrança desse encontro preparado em segredo: “Foi comovente. E extraordinário ver depois o Adriano com a viola, na grande varanda, a musicar um poema que o Manel tinha acabado de escrever”. Desses dias de clandestinidade de MA, recorda ainda as tardes em que Rui Feijó, na biblioteca, o ouvia ler os poemas e sugeria uma ou outra alteração: “O meu pai era muito crítico e rigoroso e o Manel gostava muito de o ouvir”. E ainda o modo como a avó, Maria Luísa, ‘adotou’ MA, preparando-lhe a comida de que mais gostava, pois ele tinha algumas ‘esquisitices’ nessa matéria. Ficou, aliás, na ementa da família um certo bacalhau significativamente chamado ‘do Manuel Alegre’, de complicada confeção, mas da predileção do poeta.

Talvez por esse tratamento tão especial, MA acabou por ficar mais tempo do que outros refugiados que por lá passaram. “Julgo que ele se sentiu ali muito bem, como, quando o meu pai morreu, escreveu num texto publicado no JL, em 2008”, diz. “Aqueles dois meses e tal que passei na Casa de Vilar foram muito pouco tempo e foram uma eternidade. Atrevo-me a pensar que também marcaram os meus anfitriões. Era uma primavera esplendorosa, a quinta estava muito bonita, a casa tinha uma alma que respirava nos móveis e nas coisas, era o tempo dos espargos e dos morangos, havia nas pessoas uma tão natural e fantástica afabilidade que eu me sentia numa espécie de estado de graça e, por vezes, quase esquecia a ameaça da PIDE e os riscos da partida clandestina para o exílio”, escreveu MA nesse texto. Ao JL, falou agora também dessa “imagem idílica” de um Minho intensamente verde e florido que levaria na retina quando partiu e que muitas vezes recordou no longo exílio de dez anos em Argel, onde foi a mítica Voz da Liberdade, na rádio onde continuou a resistência.

Seria Júlio Montalvão Machado, um médico oposicionista de Chaves, que o faria passar a fronteira para Espanha, com um “passaporte muito mal feito, em que até a altura era muito menor do que a do Manel”. De Espanha para França, a passagem seria com Jorge Mendes Leal e Santos Pato, sócios de uma empresa de motorizadas em Águeda, que iam ter uma reunião de trabalho na Bélgica, segundo Sucena: “Quando se apanhou em França, o Manel deu um grande grito. Era a liberdade.”

Um grito de revolta

Judite Cortesão, professora, ela própria amiga de MA, sublinha que a PdaC foi uma “pedrada no fascismo”. “Contribui também para isso, e para esse carácter emblemático, o facto desses poemas terem sido muito cantados ou ditos em muitos recitais, como por exemplo os que fazia o José Carlos de Vasconcelos”.

Sessões de poesia que implicavam muita “adrenalina”, segundo Manuel Alberto Valente, hoje na Porto Editora: “Eram muito entusiásticas, um pouco heróicas, porque muitas vezes aparecia a Pide ou a GNR e as pessoas tinham que fugir pelas traseiras. Muitos de nós nem tínhamos consciência do perigo a que nos estávamos a sujeitar Mas era um combate em que estávamos empenhados, que achávamos necessário. E de alguma maneira a poesia, em particular a de MA, contribuiu para a consciencialização da necessidade de alterar o estado de coisas no país”.

Eram poemas que se “adequavam muito bem à luta que travávamos”, acentua por seu lado Nunes Diogo. “A Associação de Estudantes de Medicina de Lisboa, onde acabei o curso, tinha sido encerrada pelo regime, mas havia uma comissão próassociação, de que fui presidente, e, em 1967, organizámos uma receção ao caloiro, um sarau, com a Maria Barroso a declamar poemas, na sala dos alunos no Hospital de Santa Maria. Entre eles, vários da PdaC. Foi um momento memorável da utilização da cultura na luta contra a ditadura. Havia vários Pides que nós conhecíamos espalhados pela sala, mas foi um êxito que dá a dimensão desse livro.

Manuel Alberto Valente foi “testemunha” do “entusiasmo e excitação” que provocou, entre os jovens estudantes de Coimbra “Tive acesso quase imediato a um exemplar, um acontecimento. A primeira sensação foi de espanto por estarem nas nossas mãos poemas que refletiam tudo o que sentíamos e esperávamos. Eram um caminho novo que se abria na poesia portuguesa e teve como efeito que todos os jovens, que faziam poemas, o começassem a fazer à Manuel Alegre. “Sobretudo, foi um enorme grito de revolta contra o regime, e a situação do país. Não me lembro de outro caso semelhante”.

João Rodrigues guarda “religiosamente” a sua 1ª edição, da Vértice, o “nosso pai espiritual”, como graceja: “Comprámos todos logo o livro e creio que marcou a entrada na vida adulta da minha geração escolar, onde grassava uma certa revolta”. Um livro que teve um papel “formador”, salienta ainda: “Ofereci-o mais tarde ao meu filho. Foi muito valioso para as nossas vidas”. Muito mais tarde, o editor prepararia, na D. Quixote, a edição comemorativa dos 40 anos da PdaC, com um prefácio de Paula Morão, e ilustrações de José Rodrigues.