Nós voltaremos sempre em maio
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Notícias
Zeca, Amália, Adriano, Luís Cília, Fanhais, Manuel Freire, Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho estão entre os que cantaram poemas de Manuel Alegre, bem como João Braga e Maria Bethânia ou, nos mais novos, Maria Ana Bobone e Pacman
Zeca, Amália, Adriano, Luís Cília, Fanhais, Manuel Freire, Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho estão entre os que cantaram poemas de Manuel Alegre, bem como João Braga e Maria Bethânia ou, nos mais novos, Maria Ana Bobone e Pacman
Da canção à Praça
17-03-2015 Maria Leonor Nunes, JL, dossier especial, 21 de janeiro a 3 de fevereiro de 2015

Ao correr do tempo, ninguém mais do que Adriano terá cantado as trovas de Alegre. Entre eles havia uma “amizade, uma afinidade total”, assevera Rui Pato. “Poema do Alegre era poema musicado pelo Adriano”. Musicaria e gravaria mais tarde quase todos os poemas do seu segundo livro, O Canto e as Armas.
Oiça algumas das vozes que cantaram Manuel Alegre AQUI

“Estávamos os dois na tropa, em 1969, eu na escola de Cavalaria, em Santarém, Adriano em Lanceiros, na Polícia Militar, em Belém”, recorda o músico. “Aproveitámos uma folga minha e uma noite em que o Adriano estava de ronda, que não fez, fomos para o estúdio e gravámos o LP todo numa noite”. Adriano fardado, com capacete, pistola e tudo. “A poesia de MA está assim vincada em todo o meu percurso, tem um enorme significado para mim e para toda a minha geração”.

Luís Cília também gravou os poemas da PdaC logo no seu primeiro disco, Portugal-Angola: Chants de Lutte, depois num outro, nomeadamente O País de Abril, tema que posteriormente seria gravado pela cantora venezuelana Soledad Bravo. E um outro tema, “Portugal Resiste”, ainda hoje uma espécie de ‘senha’ da sua amizade com o cantor Paco Ibáñez, que gosta sempre de a cantar, quando se encontram ou telefonam. Cília não dispensava essa canção nos seus espetáculos. “Era uma poesia combatente de qualidade”, explica. “Quando vim de Angola, era um cantor rock, só depois comecei a musicar poemas de Daniel Filipe e quando cheguei a Paris, andava sempre a procurar noutros livros. Só que, entretanto, Alegre chegou com a poesia ao vivo, de um livro que nos marcou a todos”.

Muitos outros a cantaram. É o caso de Francisco Fanhais. “Havia várias frentes de luta contra a repressão fascista e a Guerra Colonial, uma política, outra cultural, onde os que se opunham ao regime lutavam com as armas que tinham na mão, através da Literatura, da Música ou do Teatro”, diz. “MA usou a poesia e este livro foi para mim uma revelação, uma verdadeira mola que me fez saltar e aumentar a minha capacidade de resistência e de consciencialização. Porque veiculava um sentido coletivo”.

Fanhais acabara então o seminário e tinha sido ordenado padre nesse ano da publicação de PdaC: “Foi um rasgão de luz, que me ajudou na minha formação como cidadão e padre. E mais tarde fiz músicas para alguns poemas. Como o Pedro Lobo Antunes, por exemplo, musicou Corpo Renascido. Foi o ‘osso’ a que nos agarramos com toda a força para fazermos nosso o protesto do poeta, embora tivéssemos consciência de que as palavras não chegam”. Nesse sentido, musicou o poema Apresentação por se sentir em “sintonia” com o verso “Cantar não é talvez suficiente”, porque as palavras são apenas “chama e vento”. Contudo, acrescenta, de cor, verso a verso, “só cantando por vezes se resiste”. Por isso, cantavam: “Todos nós trouxemos a canção para a praça”, acrescenta.

Versos que pediam música, daí que “muitos colegas de ofício” também os tivessem levado para a praça, musicando-os, como José Niza, cantando-os, como Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo ou João Braga.

Curiosamente, quando MA escreveu Trova do Amor Lusíada, “um diálogo entre um homem e uma mulher, numa quase encenação teatral, o poema primordial de PdaC”, pensou mesmo que era “ magnífico” para ser cantado por Amália, uma das suas “paixões de juventude” - é um amante de fado desde sempre. E viu o seu desejo realizado. Um dia, já em Argel, recebeu uma carta de Alain Oulman, pedindo autorização para musicar esses versos para Amália. “Fiquei muito espantado, porque na altura havia muita gente a cantar os meus poemas, mas não pediam autorização”, recorda, sorrindo. “ Amália cantou e muito bem Meu Amor é Marinheiro, uma versão lindíssima”. O poeta havia de encontrar-se com ela, quando estava no exílio. “Estive muito doente na altura, fui convalescer para a casa de Oulman e combinámos esse encontro. Amália sabia quem eu era, que estava clandestino e tivemos uma noite inesquecível em casa dela.”

Maria Bethânia também canta essa Trova e recentemente chegaram-lhe mais pedidos do Brasil para musicar Trova do Vento que Passa, que continua na boca de muita gente, de gerações mais novas - Pacman e Maria Ana Bobone, por exemplo.