Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado.
Manuel Alegre
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Em Pádua, alunos fazem fila para uma selfie com Manuel Alegre
Em Pádua, alunos fazem fila para uma selfie com Manuel Alegre
Em Vicenza, Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos improvisam a capella a Trova do Vento que Passa
Em Vicenza, Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos improvisam a capella a Trova do Vento que Passa
Homenagens a Manuel Alegre em Itália
O resgate da canção
23-04-2015 Ana Margarida de Carvalho, fotos de Lucília Monteiro, Visão
Reportagem da Visão

A praça mais famosa do País, que há 50 anos era itinerário obrigatório na resistência clandestina, agora será todo um “bairro” em Portugal e tornou-se uma “piazza” aberta de emoção, história e poesia, em Itália. A “serenata triunfante” italiana de Manuel Alegre, na Universidade de Pádua e no palácio Montanari, em Vicenza.

Ali estudou Damião Góis, o filósofo português do século XVI. Ali se encontra ainda a cadeira onde Galileu se costumava sentar, a reflectir nos seus cálculos astronómicos. Ali se concretizaram grandes progressos na investigação médica (as autópsias eram possíveis, ao arrepio da Igreja). Por ali passaram grandes figuras do Renascimento. Ali se formou uma das primeiras mulheres no mundo. Ali estavam enraizados alguns dos braços armados das Brigadas Vermelhas. O mote da Universidade continua a ser “Libertas”. A primeira Universidade não religiosa, com uma forte história de progresso no conhecimento e de resistência ao fascismo. Mantém-se a tradição, dizem-nos. Ali, a religião e a política não interferem no ensino. E é justamente “ali” que mais de uma centena de alunos, com a Praça da Canção na mão, aguardam para entrar num salão nobre, aquele onde estão arquivados os estudos e processos de alunos famosos, através dos tempos. Há 15 anos não chegavam a 50, hoje são mais de 180 alunos de língua e literatura portuguesa na Universidade de Pádua. Muitos terão de ficar de fora da sala lotada nesta sessão de homenagem a Manuel Alegre (que nesta Universidade tema uma cátedra a si dedicada, inaugurada em 2010), por ocasião dos 50 anos daquele livro. Explica a professora Sandra Bagno, responsável pela cátedra, que se começou a interessar por Manuel Alegre quando se apercebeu de que “a sua poesia derruba mitos do salazarismo, recuperando a tradição, mas virando-a do avesso”: “a sua linguagem trabalha com os símbolos”. E fala do lírico que se funde com o romântico, e o épico com a anti-epopeia… O livro que vira as costas aos mitos e faz a viagem de Vasco da Gama ao contrário. A “epopeia do avesso” (Eduardo Lourenço). “Era preciso matar Dom Sebastião”, afirma Manuel Alegre. Aliás, acrescenta, podia ter-lhe chamado “Lusíadas sem pão e milagres”.

Ao longo dos dois dias de homenagens, professores universitários, reitores, tradutores, hão-de falar de “poesia que luta”, da “capacidade de ler a realidade e o mundo”, “da arma contra a estupidificação colectiva”, “do poeta guerrilheiro da paz”, “da vida dedicada ao combate pela liberdade e justiça”, “da união da literatura e do empenho cívico”: “Quando a poesia fez e se faz história.”. De “uma voz singular, única que se tornou na voz colectiva de um povo”, “expressão poética de uma mal estar de toda uma geração”. Referem-se-lhe como “um dos mais insignes intelectuais de Portugal”, “um dos grandes protagonistas do panorama intelectual e político”. Ele “canta a pátria como se fosse um corpo de mulher”. Referem a sua “poesia da errância”, de um “mapa do seu peregrinar de vida, digno de herói homérico”. Manuel Alegre esteve na guerra colonial. Preso em Angola (1963), na sequência de uma sublevação militar falhada, privado de lápis e caneta, compôs mentalmente alguns dos poemas de Praça da Canção (1965). Ao fim de mais de dez anos de exílio, em Paris e Argel, onde foi director da Rádio Voz da Liberdade, volta, em 1974, a Portugal, já com o primeiro dos três filhos, Francisco Duarte, actualmente cônsul em Roma, e também presente na “távola redonda” de homenagem, mas que preferiu falar da língua de 350 milhões de utilizadores (a quarta mais falada no Twitter). Em relação ao autor, prefere não falar (“por conflito de interesses”, ri-se), mas acaba por dizer: “A prova de que a poesia pode mudar tudo é o facto de eu ter nascido no exílio e agora estar aqui.” O cartaz da universidade apresenta uma foto de Manuel Alegre, levado em ombros, na sua terra, Águeda, justamente aquando do seu regresso, em 1974.

“Serenata triunfante”

“Manuel Alegre é duplamente importante”, comenta Marco Fazzini, poeta, artista, professor de literatura inglesa, na Universidade de Veneza e de um curso muito singular sobre “poesia, música e liberdade” ( de Leonard Cohen a Bob Marley e, agora, Manuel Alegre) que recebe estudantes de toda a Europa: “Este poeta português usa nas sua obras o simbólico e a capacidade de a poesia se transformar em música”. O professor é, em parte, responsável pela fama de Vicenza – “a cidade que ama a poesia”. “Vicenza é a capital internacional da poesia” afirma Marco que, desde há uma década, já trouxe à pequena cidade do norte de Itália o canadiano Mark Strand, o prémio nobel nigeriano Wole Soyinka, o francês Yves Bonnefoy ou o americano Jack Hirschman… E agora Manuel Alegre. Todos eles recebidos num maravilhoso palácio do século XVII, o Palazzo Leoni Montanari, hoje museu, originalmente propriedade de uma próspera família negociante de tecidos. Todos os serões poéticos (este com Manuel Alegre levou o cartaz afixado à porta “Posti in sala esauriti”, lotação esgotada), costumam ser musicados. Marco conseguiu desencantar não só um tocador de guitarra portuguesa, como também uma fadista, ex-hospedeira da Alitália, que aprendeu a cantar fado e a pronunciar as palavras em português (mesmo sem saber o se significado) ouvindo os discos de Amália. No salão, forrado com frescos neo-clássicos nas paredes, ecoou a Trova do Vento que Passa, mas na versão de Amália e Alain Oulman. Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos, jornalista, poeta, director do Jornal de Letras e prefaciador da recente edição comemorativa dos 50 anos da Praça da Canção, “poetas contemporâneos e camaradas de universidade”, não resistiram e, a capella, improvisaram a versão de Adriano: “E o tempo cala a desgraça, o tempo nada me diz…”

Completamente silenciosa e num estado quase encantatório, uma das assistentes deixa soltar a expressão: “serenata triunfante”. Sobretudo depois de Alegre declamar, voz possante, inconfundível. Enche uma sala, com as palavras “trova”, “liberdade”, “pátria” e “Abril”, a chegarem até ao tecto, decorado com uma profusão de esculturas e baixos relevos, anjinhos em cachos, em reboliço pelos cantos. Os seus livros deviam vir sempre com som – foram sempre os momentos altos das sessões, aqueles em que Manuel Alegre “dizia”. José Carlos de Vasconcelos lembra que não existe em Portugal nenhum poeta “tão cantado”. Mas talvez os laços de povos do sul se tenham estreitado mais quando ele leu um poema, Resgate, do novo livro que lançará em maio, que foi recebido com uma salva de palmas significativamente estrondosa: “Nós os pecadores do Sul nos confessamos / amamos a terra o vinho o sol o mar /amamos o amor e não pedimos desculpa”.

Ritmo 'cantabile'

Depois da sessão, Manuel Alegre, que antes de saber ler já recitava em família, muito António Nobre, muito Camões, muito Cesário, e mais Mário de Sá-Carneiro do que Pessoa (“porque a poesia é para ser dita e cantada”), há-de explicar como voltou a fazer sentido o poema de intervenção. Livros políticos, sim, mas, assegura, “não panfletários”. Na sua opinião, o sucesso de Praça da Canção deveu-se à sua estrutura poética e rítmica, “ritmo cantabile”. Dizia José Niza: “Apenas escrevia a música que já lá estava”. “Havia um ‘não’ dentro das pessoas que ainda não tinha sido dito”. E claro, deveu-se também, continua, a toda carga metafórica que os poemas encerram, de imediato captada por quem os lia ou ouvia. Como se o livro fizesse parte daquela categoria de obras em que existe um espaço vazio na estante especificamente para as acolher.

“As pessoas estavam à espera deste livro”, conclui o poeta. E lá no exílio, Manuel Alegre nem fazia ideia (ou talvez fizesse alguma, mas não totalmente) de que esse seu livro, entretanto apreendido pela PIDE, já circulava clandestino nos encontros das associações de estudantes, cantado (por Zeca Afonso, Luís Cília, Adriano, Manuel Freire…), recitado, espalhado de boca em boca, de mão em mão (“ou de coração em coração”, acrescenta José Carlos de Vasconcelos), copiado à mão ou dactilografado. Um livro em que se falava de “minha pátria vestida de viúva”, “minha pátria forrada de farrapos”, “minha pátria a rir com quem chora” (a festa da tristeza é tudo o que lhe resta)”. Um livro que fala profeticamente de Abril (aliás, estava para ter Abril no título), dez anos antes da revolução portuguesa. “São coisas que não se conseguem explicar”, comenta Manuel Alegre que tem um poema intitulado Explicação do País de Abril: “País de Abril fica no ventre das manhãs.” E, até em italiano, arrepia ouvir o seus poemas, traduzidos pela lusitanista Giulia Lanciani, professora de língua e literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Roma, Doutora Honoris causa da Universidade de Lisboa, vencedora em 2003 de um prémio nacional de tradução e agraciada com a Ordem do Infante Dom Henrique: “Il Paese d’Aprile è il luogo del poema” (“o País de Abril é o sítio do poema”).

Discursos como poemas

“Aquele livro”, comenta o poeta, “já não me pertence”. Agora pertence também, pelos vistos, aos italianos, que têm a intenção de traduzir toda a sua obra no âmbito da cátedra.

Na sessão de homenagem em Pádua, uma professora há-de perguntar-lhe da coincidência de ser político e poeta. Manuel Alegre responde: “Se não tivesse tido a vida pol+itica que tive, também não teria escrito os livros que escrevi”. “Os académicos acham que ele tem biografia a mais para poeta, os políticos que tem poesia a mais para político”, comenta José Carlos de Vasconcelos. Mas, acrescenta Manuel Alegre, “nunca vivi numa torre de marfim, nem me fechei no poema como quadrado inviolável”. O que os italianos não sabem é que Manuel Alegre também é conhecido pelas suas capacidades oratórias, não por fazer muitos discursos, mas por fazê-los na altura em que pode fazer “virar” as coisas, no “momento certo” – e no tom certo, também. Ser bom orador, afirma, tem a ver também com a poesia, a cadência, a noção do ritmo e da frase. “Os meus discursos têm algo a ver com a toada, é uma música”. E cita Yeats: “Pode-se escrever um discurso com quem escreve um poema”.

Agora só intervém quando se sente inspirado, sobretudo “quando está muito indignado”. “Nos momentos decisivos, as frases saem-me à primeira”: “Acredito na energia da palavra, na força mágica da palavra”. Curiosamente, ri-se, “resulta” melhor no discurso do “contrapoder”: “Não tenho o mesmo impacto no discurso do poder…”. Considera um erro ter concorrido pela segunda vez às presidenciais. Da primeira candidatura não se arrepende, considerou-a necessária, tem dossiers de cartas de cidadãos que lhe agradeciam e pediam para concorre, “havia uma genuína necessidade das pessoas de algo novo, elas andam cansadas dos partidos”. Mas agora, é peremptório, “acabou”. Não se demite da cidadania, sempre teve um sentido “exagerado” da responsabilidade cívica; aliás, o próximo livro (Bairro Ocidental), que sairá em maio, é um livro de intervenção poética, “porque volta a fazer sentido falar de justiça e dignidade” – “vivemos num estado de sobrevivência, somos outra vez um país de joelhos”, como se houvesse “uma espécie de teia de aranha que agira alastra pela Europa, outra vez”. E nestes tempos em que “a nossa liberdade está condicionada pelos mercados, pelo FMI, pelo Tratado de Maastricht, volto a acreditar que pela poesia se pode mudar o mundo.” Aventa que “todos os partidos ligados à austeridade estão condenados” e alerta para “o perigo de os socialistas se tornarem historicamente desnecessários”.