Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na Póvoa de Varzim:
"Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência"
25-02-2016 com Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

“A literatura é a catarse da existência” foi o tema da primeira mesa da 17ª edição do Correntes d’Escritas, realizada ontem, na Póvoa de Varzim. Antônio Torres, Hélia Correia e Manuel Alegre, moderados por José Carlos Vasconcelos, interpretaram o significado da palavra catarse e a sua relação com a literatura.
Manuel Alegre procurou, nos dicionários que possui, o significado da palavra catarse. Não encontrou. Foi encontrá-la na Internet, na Infopédia, um conselho de Cecília Andrade, mas não se identificou com nenhuma das definições. “A literatura nasceu da linguagem e da imaginação. Poetas e romancistas continuam, com palavras, a tentar mudar e reinventar a vida. E, às vezes, a tentar adivinhar, porque a escrita continua a ser uma vidência”, disse o poeta.
Ver texto integral da intervenção de Manuel Alegre AQUI

“Não sei falar de literatura, nem de poesia. Nem sei se uma está relacionada com a outra. A literatura, para mim, é uma espécie de cerimónia de exorcismo, de libertação, não de purga. Escrever sempre foi um estado de graça, mesmo nos tempos mais terríveis, de guerra, de prisão, de exílio, de despedidas. Rejeitaria aliás a possibilidade, disse Manuel Alegre, de ser um daqueles poetas ‘intemporais, inespaciais ou fora da História’ de que falou João Cabral de Melo Neto.

Citando Octávio Paz, Alegre lembrou que “a liberdade não é uma filosofia e nem sequer uma ideia. É um movimento de consciência que nos leva, em certos momentos, a pronunciar um de dois monossílabos: sim ou não.” “Havia um grande não para dizer”, prosseguiu, lembrando o contexto em que surgiu a Praça da Canção, “um não histórico, poético. Havia a ditadura e a guerra colonial e a urgência de dar a volta aos mitos. Um não assim pressupunha, talvez, alguma ingenuidade. E esse andava no ar, que se ouvia sem se ouvir, através da poesia e da música. A atividade poética é revolucionária por natureza”, concluiu.

“Escrever”, lembrou, citando o poeta russo Mandesltam, “é um acontecimento cósmico” e “cada palavra é um pedaço do universo.” “Não sei se é a escrita que purifica a existência ou se é a vida que se transmuda em palavras. Creio que, para escrever um só verso”, disse ainda o poeta, citando desta vez Rilke, “é preciso ter visto muitas cidades, conhecido muitos homens”.

“Que sentido tem hoje a poesia, num mundo governado pela ganância e pela estupidez? Há o peso, não da ditadura, mas de forças invisíveis a que chamam mercados e que roubam as reformas aos velhos e o futuro aos jovens. É para isso que serve a poesia hoje. Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência política, cultural e até mesmo literária e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver”, concluiu Manuel Alegre.