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Manuel Alegre
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Manuel Alegre e Luandino Vieira: cumplicidade fraterna em tempo de guerra
22-07-2016

Manuel Alegre encerra neste sábado a Conferência Internacional “Encarceramento colonial no século XX: uma abordagem comparativa”, que decorre de 21 a 23 de julho no Museu do Aljube - Resistência e Liberdade, com a apresentação do livro “Papeis da Prisão: apontamentos, diário, correspondência (1962-1971)”, de Luandino Vieira, editado pela Caminho. Manuel Alegre conheceu Luandino Vieira na prisão de S. Paulo, em Luanda, em 1964; e Luandino seria responsável pela salvação de alguns poemas de Manuel Alegre, escritos na cadeia e que Luandino conseguiu passar para o exterior.

Manuel Alegre conheceu Luandino Vieira na prisão de S. Paulo, em Luanda, em 1964, e recorda, no seu livro “Uma outra memória”, que lhe ficou a dever, para além da escrita, gestos de cumplicidade que nunca esqueceu: “a mensagem que numa outra noite encontrei dentro de uma caixa de fósforos. Vinha assinada por Luandino, dizia que sabiam quem eu era e que um deles estaria sempre acordado durante os interrogatórios e de manhã assobiaria a conhecida canção russa ‘Plaine, ma plaine’. Ainda hoje guardo comigo esse assobio.” Luandino seria aliás responsável pela salvação de alguns poemas de Manuel Alegre, escritos na cadeia e que Luandino conseguiu passar para o exterior.

Detalhe de Luandino Vieira, a páginas 253 do livro “Papéis da prisão”, no dia 20 de abril de 1964: “Sou um lázaro, fico nervoso, e na precipitação meti os dois pedaços de queijo no pacote, ficando sem nenhum.” O pacote era para Manuel Alegre, “o alferes”, que tinha sido interrogado na véspera desde as 9 ½ até às 5 da manhã. Reacção de Manuel Alegre em “bilhete” do dia seguinte: “Ontem recebi comida de fora pela primeira vez. Interrogatórios m/ duros. (…) Tenho coragem, pois estou no meu posto. Sou um defensor da liberdade. A cadeia é o lugar de honra para homens de honra do meu país (…)”. Registo de Luandino no dia 22 de abril: “Interrogatório do M. Alegre das 22h às 5 da manhã!” Novo bilhete de Alegre para Luandino em 26 de abril: “Conheço os vossos poemas. Eu também escrevo. O meu nome é Alegre (…). Um abraço do tamanho dos nossos povos. Ami si tu tombes / un ami sort de l’ombre / a ta place”. E em 27 de abril, mais um bilhete de Alegre: “Podes crer que a juventude da minha pátria não é criminosa. Nós não somos culpados e havemos de mostrar ao mundo que o Povo Português tem uma grandeza diferente desta trágica grandeza que agora lhe empresta a força dos canhões. Tudo pela Paz. Fraternalmente contigo”.

Nessa tarde, Alegre “atirou” a Luandino o poema “Recados do País de Abril – poema quase turístico”, assinado e com dedicatória “para os meus companheiros de prisão”. O poema, que Luandino conseguiu fazer sair da prisão, viria a ser incluído, com alterações e sob o título “País de Abril”, em "Praça da Canção", publicada em 1965 quando Manuel Alegre estava no exílio. Luandino registou naquele dia: “Bom poema, numa linha melódica de Carlos Oliveira.” Em “Papeis da Prisão” figura uma imagem do manuscrito deste extraordinário “bilhete” de Manuel Alegre para Luandino, em que o jovem alferes português exorta os “homens do País de Abril”, dez anos antes do 25 de Abril de 1974.

Quanto ao queijo, Alegre não esqueceu a oferta e recorda-a, em “Uma outra memória”, como a primeira de “algumas coisas que devo a Luandino Vieira”: “O queijo sul-africano que ele, António Jacinto e António Cardoso dividiram ao meio para o partilhar comigo. Quando uma noite os agentes da PIDE me deixaram ir fazer o necessário, encontrei-o na minha cela. Não sabia a origem, desconfiei de tanta fartura, não lhe toquei. Foi um desperdício.” Mal sabia o "alferes" que também Luandino tinha ficado sem ele.