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Alegre com os filhos de Ferreira Sares e primos de Catarina Martins em Nogueira de Regedoura
Alegre com os filhos de Ferreira Sares e primos de Catarina Martins em Nogueira de Regedoura
Um poema em forma de munumento
01-04-2017 Cristina Margato, foto de Rui Duarte Silva, Expresso

No cinquentenário de "O Canto e as Armas", Alegre homenageou o médico dos pobres, tio-avô de Catarina Martins. Oiça o poema na voz de Manuel Alegre AQUI

Os caminhos de Manuel Alegre e de Catarina Martins cruzaram-se há muito tempo. Sem que Manuel Alegre o soubesse. Sem que Catarina Martins o revelasse. “Romance de Uma Árvore à Beira do Caminho”, poema incluído no ser segundo livro, “O Canto e as Armas” (1967), referia-se à história de um homem, Ferreira Soares, que o poeta ouviu contar ao pai aos seis anos, durante uma viagem a Espinho. A história voltou-lhe à memória anos depois, na solidão do exílio, em Argel, onde esteve dez anos.

Até há pouco mais de um ano, a identidade desse resistente antifascista, barbaramente assassinado pela política de Salazar, com 14 tiros, a 4 de julho de 1942, permaneceu desconhecida para Manuel Alegre. Foi também há poucos dias, e no âmbito das comemorações dos anos de “O Canto e as Armas” e da sua vontade de homenagear Ferreira Soares, que a ligação de parentesco deste comunista com a Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda (BE) se tornou evidente. Apesar de conhecer Manuel Alegre há muitos anos, a líder do BE nunca lhe falou do tio-avô “por não ter hábito de falar da sua vida pessoal com ninguém”. Mas reconheceu ao Expresso que cresceu a ouvir o poema de Manuel Alegre: “O poema trouxe ao meu tio-avô reconhecimento, ainda mais num contexto de ditadura em que estas histórias não se discutiam abertamente. Foi muito importante para os filhos, Jorge e Maria Fernanda, e para o resto da família. A família partilhava os verões sempre em Nogueira de Regedoura, e foi lá que crescemos rodeados de livros que faziam a memória da luta antifascista. O livro de Manuel Alegre sempre esteve presente.”

Catarina Martins, que conheceu Álvaro Cunhal, ainda menina, numa homenagem do PCP a Ferreira Soares, só não esteve presente na cerimónia que Manuel Alegre fez questão de realizar, a título pessoal, no cemitério de Nogueira de Regedoura, concelho de Santa Maria da Feira, no passado dia 24, por ter plenário marcado na Assembleia da República à mesma hora, Mas ficou muito feliz com a iniciativa de Alegre, na qual marcou presença grade parte da sua família: “É bom que haja sinais de que é possível concordar no essencial. A memória faz parte da construção do futuro. O quotidiano político vai-se fazendo, mas acho que é um momento simbólico importante. Esteve lá grande parte da minha família, que não é de uma esquerda mas de várias esquerdas. Há comunistas, socialistas, bloquistas.”

Para Manuel Alegre, um dos grandes defensores deste acordo governativo do PS com as esquerdas, a história do poema e as suas implicações é mais “uma coisa que não se explica”, como não se explica ter escrito sobre um país de Abril anos antes do 25 de Abril. Faz parte da magia da poesia, da sua vidência, da convicção que “a poesia nunca erra”, como disse ao abandonar o cemitério onde está sepultado o médico por baixo de uma japoneira (uma cameleira a florir em rosa), o tipo de árvore atrás da qual se escondia, e que apesar de os homens de Salazar terem muitas vezes arrasado voltou sempre a ser substituída.