"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Ana Sá Lopes relata lançamento da edição comemorativa e definitiva do livro de Manuel Alegre
50 anos de ‘O Canto e as Armas’. O livro da dor azul de Portugal
13-04-2017 Ana Sá Lopes, jornal i

“O Canto e as Armas” foi censurado, fotocopiado, decorado e reeditado. Na quarta-feira, foi apresentada a edição definitiva de um livro que traz notícias do próprio Manuel Alegre de há 50 anos – e de um país.
Veja também o editorial do jornal i AQUI

“As voltas da vida fizeram de mim um poeta solitário”. Um átomo de amargura perpassa no discurso de Manuel Alegre. A sala da Biblioteca Nacional onde decorreu a apresentação da edição definitiva de “O Canto e as Armas” - comemorativa dos 50 anos da primeira edição – estava cheia de amigos do poeta solitário, incluindo o poeta ministro da Cultura, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, com quem várias vezes se confrontou no PS, íntimos ‘compagnons de route’ como o deputado Alberto Martins e muitos outros unidos pelo sentimento. Uma cerimónia digna do poeta que nunca frequentou “os cafés literários” nem fez os favores do costume no intragável meio cultural português.

“Fui silenciado no tempo da ditadura por razões óbvias, depois do 25 de Abril por outras.” Outra vez o átomo. Mas que interessa isso se “O Canto e as Armas” foi o livro “fundacional”, como lhe chamou Alberto Martins, da geração que entrava na idade adulta nos anos 60 e dos seus filhos? Manuel Alegre interroga-se sobre “qual a razão de tal impacto” e responde: “Sempre acreditei na força mágica da palavra poética. Talvez esteja aí a explicação de este livro chegar tão longe.” “O Canto e as Armas” chegou muito longe, foi censurado, fotocopiado, decorado, escondido e reeditado.

“Fecha os teus olhos que me fazem mal/ que por vê-los me nasce aquela mágoa/ feita de sal e mar que não é água/ senão a dor azul de Portugal”. O poema “Lágrimas Azuis” foi incluído nesta edição, não estava nas anteriores.

E talvez “O Canto e as Armas” seja isso, o canto da dor de Portugal em 1967, e das armas nas mãos do poeta, como no “Poemarma”: “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal.”

“É muito difícil transmitir à novas gerações o sufoco daquele tempo”, diz Alegre. Quem o viveu – por si ou por herança – entende como o canto pode ser arma na “Canção Tão Simples”, que Adriano Correia de Oliveira acabaria por cantar: “Quem poderá domar os cavalos do vento/ quem poderá domar esse tropel/ do pensamento/ à flor da pele?/ Quem poderá calar a voz do sino triste/ que diz por dentro do que não se diz/ a fúria em riste/ do meu país?/ Quem poderá proibir estas letras de chuva/ que gota a gota escrevem nas vidraças/ pátria viúva/ a dor que passa?/ Quem poderá prender os dedos farpas/ que dentro da canção fazem das brisas/ as armas harpas/ que são precisas?”

“O Canto e as Armas” é também uma autobiografia de Manuel Alegre aos 30 anos. Ou notícias de si mesmo há 50 anos, como naquele verso do “Correio”: “E há o Eugénio a tocar a Marselhesa/ ao piano das palavras que o tempo traz/ Chegam notícias de mim mesmo há 20 anos/ o Manel gosta da Maria do Brás.”

“Naquele tempo era a escolha de matar ou morrer, ou partir para França ou outros lugares. Fui à guerra, fui preso, fui para o exílio. Honra me seja, fiz o périplo todo.” Insiste: “É muito difícil explicar às novas gerações o que foi aquele tempo.” “Exílio”: “Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena. /E os olhos iam com as águas / Procuravam o Tejo nas margens do Sena/ procuravam salgueiros nas margens do vento/ e esse país de lágrimas e aldeias/ pousadas nas colinas do crepúsculo/ Procuravam o mar.”

Ou “Portugal em Paris”: “Vi a minha pátria derramada/ na gare de Austerlitz. Eram cestos/ e cestos pelo chão. Pedaços/ do meu país/ Restos/ Braços./ Minha pátria sem nada/ sem nada/ despejada nas ruas de Paris.”

Manuel Alegre conta que um dia soube existir um documento da PIDE sobre os mais perigosos adversários do regime. “O meu nome figurava num honroso terceiro lugar. Não foi a minha actividade política, foram os versos que escrevi. Um delito que se chamou ‘O Canto e as Armas’.

O delito “O Canto e as Armas”, juntamente com o livro anterior de Manuel Alegre, “A Praça da Canção”, “fazem parte da história de uma geração e de um país”, disse Alberto Martins, que em 1969 era presidente da Associação Académica de Coimbra e foi um dos protagonistas de um dos mais violentos confrontos dos estudantes com a ditadura. Manuel Alegre fez um poema chamado “Flores para Coimbra”, publicado nesta edição de “O Canto e as Armas” . “Que mil flores desabrochem. Que mil flores/ (outras nenhumas) onde amores fenecem / que mil flores floresçam onde só dores/ florescem.”

Como Camões disse, Alegre “teve como taxa converter tudo em trovar”.