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Manuel Alegre
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Estreou a encenação de "As naus de verde pinho" de Manuel Alegre
A grande aventura de Bartolomeu Dias trocada por miúdos
15-10-2017 Ana Carreira, foto de Leonardo Negrão, DN

Monstros e tempestades no palco-nau dos Descobrimentos numa adaptação do livro que Manuel Alegre escreveu à filha Joana há mais de 20 anos. À porta do Museu de Arqueologia já são muitos os jovens que se vão alinhando para subir ao Salão Nobre. Na tarde de sexta-feira, os alunos das três turmas de sexto ano do Colégio Bartolomeu Dias, em Lisboa, serão os primeiros a conhecer a adaptação do encenador Vasco Letria da obra As Naus de Verde Pinho, de Manuel Alegre, que hoje se estreia.

Não é por acaso. O livro conta a viagem de Bartolomeu Dias, o primeiro navegador europeu a aventurar-se para além do extremo da costa da África do Sul, dobrando o cabo da Boa Esperança e chegando ao oceano Índico. Aguarda-os, pois, uma viagem histórica, repleta de feitos e tempestades, monstros e ondas gigantes: um pedaço de História de Portugal.
O encenador Vasco Letria, criador e fundador do "Foco Lunar," explica-lhes que serão os primeiros a ver a peça. E alguém diz "Obrigado". Mas já não há tempo para muitas gargalhadas, eles ainda não sabem que estão prestes a embarcar numa epopeia épica. O marulhar das ondas já se ouve em fundo, e entre as conversas em surdina e o burburinho típico dos 11 anos, uns e outros arriscam: "Será que vai ter água no palco?", ouve-se, baixinho, algures.

A aventura de Bartolomeu Dias vai ter água, sim. No palco é tempo de soltar amarras, até porque já se ouvem os tambores tocados por Beatriz Costa e José Pedro Ramos, os dois atores em cena em As Naus de Verde Pinho. E nunca a viagem de Bartolomeu Dias foi tão fácil de aprender. Há um palco que vira nau de verde pinho, há o capitão Bartolomeu e a sua tripulação, sem faltar um rato e um tubarão e o monstro dos mares. E muita água por desbravar. As imagens reproduzidas na tela da parede secular vão inspirando um jogo de luz e de música que faz despertar oceanos e sonhos, passados uns minutos, já todos são marinheiros e capitães. Num cenário dinâmico que combina o vídeo com as imagens reais, a dança, as artes performativas e a música original, a história aproxima-se, íntima, à imaginação dos pequenos espectadores, homenageando uma das figuras mais inspiradoras da época dos Descobrimentos cuja bravura e valentia a todos parece tocar.

A música acompanha o ritmo da aventura ao leme do músico e compositor Gabriel Gomes, ex-Sétima Legião e fundador dos Madredeus, que se inspirou também ele na viagem tormentosa do capitão. Os atores cantam, dançam, correm, saltam e, no final, depois de se digladiarem contra marés e papões, mostram que o sol volta sempre a brilhar. Um espetáculo sem idade que nos recorda o lugar dos portugueses no mundo e nos ensina que os maiores monstros e as verdadeiras tempestades estão dentro de cada um, lado a lado com a coragem e a ousadia.

"É um grande desafio, é uma peça curta de 40 minutos mas muito intensa, temos de estar muito concentrados e preparados fisicamente", assinala José Pedro Ramos que veste a pele dos sonhos de Bartolomeu Dias. "Aqui tenho de interpretar realmente a pessoa responsável por esta casquinha de noz no meio do desconhecido." Beatriz Costa, a atriz-cantora, também sente a missão cumprida. "É muito bom partilhar agora com o público este trabalho, o texto é muito inteligente nisso, porque há muita ação e luta, o clímax, mas depois o final é uma coisa mais calma, mais íntima, realmente para passar a mensagem positiva de que é possível chegar, o que importa é continuar, afinal toda a gente tem medo, mas há que tentar chegar onde ninguém chegou", revela.

A Marta, o Duarte e a Inês também ficaram contagiados. "Adorámos a peça, gostámos muito!", dizem, à saída, enquanto esperam para tirar uma fotografia todos juntos com os atores. Todos concordam que a melhor cena foi a da tempestade e a de "Bartolomeu ter conseguido dobrar o cabo".

As Naus de Verde Pinho já vai na 13.ª edição e foi o primeiro livro que o autor Manuel Alegre dedicou à infância, tão imaginativo quanto poético que mereceu em 1998 o Prémio António Botto. Figura incontornável da literatura e política nacional, Manuel Alegre revela ao DN que o escreveu "há mais de vinte anos", a pedido da sua filha Joana, num Natal. "Já tinha escrito para os irmãos e a minha filha pediu-me, achei que era uma boa forma de lhe contar um episódio tão importante da história de Portugal e com um grande ensinamento", esclarece Manuel Alegre, que no momento da conversa por telefone ainda não tinha visto o espetáculo. "Estou muito curioso em saber como vai ser a peça, é um poema que nos diz para não ter medo do desconhecido, para irmos mais além de nós próprios, temos de saber dobrar os cabos e não ter medo dos papões", revela, não deixando de assinalar o "carácter intemporal" da mensagem da obra inserida no Plano Nacional de Leitura e de leitura obrigatória no sexto ano.

Fora de páginas e dentro delas, a grande viagem de Bartolomeu Dias continua em cena no Museu de Arqueologia do Mosteiro dos Jerónimos para convidar velejadores e conquistadores, a "abrir os sonhos ao vento porque é tempo de partir".