"A França é um laboratório da Europa, se a opção europeista derrapar a Europa está em perigo"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em Coimbra:
“O populismo é incompatível com o PS”
23-09-2014

“O populismo é incompatível com o PS”, afirmou Manuel Alegre em Coimbra, no Pavilhão dos Olivais, num jantar de apoio à candidatura de António Costa às eleições primárias no PS. Manuel Alegre disse ter-se sentido “ofendido com a proposta de uma lei eleitoral que visa diminuir o número de deputados, atinge a proporcionalidade e põe em risco a permanência dos partidos mais pequenos, os da esquerda mas também o CDS”, afirmou. “Isto é um atentado ao Parlamento, denunciou, uma cedência ao populismo ". Num discurso que terminou com o pavilhão em aplausos de pé, Manuel Alegre defendeu a necessidade de uma viragem em Portugal e na Europa e desafiou António Costa a restituir alma e alegria à política e à democracia.

Hoje como há 40 anos não há que temer eleições
Manuel Alegre iniciou a sua intervenção recordando o primeiro comício do PS em Coimbra, há anos, no mesmo Pavilhão dos Olivais onde decorria o jantar comício de ontem e lembrando Mário Soares e Miguel Torga, que nesse comício usaram da palavra.

“Dir-me-ão que isso é história; mas um líder do partido tem de assumir toda a história”, disse, “não pode comportar-se como se fosse ele o princípio e o fim da história”. E não pode, prosseguiu , dizer “eu,eu,eu”, mas sim “nós, nós, nós, o Partido Socialista.”

Há quarenta anos, afirmou Manuel Alegre, “disse aqui que o PS não devia estar preocupado com as eleições” (para a Assembleia Constituinte). “Hoje volto a dizer o mesmo: o PS não tem de ter medo de eleições, nem dentro nem fora do partido”, porque este debate fortalece o PS, ao conseguir "mobilizar muitos militantes tristes e inativos" e ao dar uma "oportunidade a muitos portugueses de participarem numas eleições tão importantes para o país". A candidatura de António Costa fez “renascer a política dentro e fora do PS”, saudou.

Há quarenta anos disse aqui, prosseguiu, que o socialismo democrático era a democracia e a justiça social. “Éramos uma elite política com o socialismo na lapela e no coração, mas pusemos o Estado Social na Constituição, na sociedade, no país e nas pessoas”, frisou Manuel Alegre, lembrando o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública e a Segurança Social pública. “Este foi e será sempre o nosso compromisso histórico.”

Há quarenta anos, lembrou ainda, defendemos um parlamento plural, pluripartidário, em que o método de Hondt garantisse a representação de todos os sectores, pois “a riqueza do Parlamento é a sua diversidade.” “Por isso me sinto ofendido com a proposta de uma lei eleitoral que visa diminuir o número de deputados, atinge a proporcionalidade e põe em risco a permanência dos partidos mais pequenos, os da esquerda mas também o CDS”, afirmou. “Isto é um atentado ao Parlamento, denunciou, uma cedência ao populismo" e ao pior da tradição política portuguesa, que é uma tradição antiparlamentar, “como se ensinava nas escolas do Estado Novo”. “O populismo é incompatível com o PS", defendeu.

Contra o falso moralismo
“Uma coisa é a transparência e a ética republicana, outra coisa é o falso moralismo”, disse Alegre. “A História dá-nos muitos maus exemplos de políticos que se pretenderam mais virtuosos do que os outros”. “Um dos motivos que me trouxe hoje aqui foi por me sentir incomodado quando alguém se apresenta como o único virtuoso", asseverou. "O falso moralismo é uma cedência ao populismo".

“A urgente mudança de governo e de política”, afirmou, “passa por uma mudança no PS, é isso que está em causa nesta eleição”. É necessário uma viragem política, outra visão estratégica, outra atitude perante a Europa, uma nova liderança capaz de mobilizar os portugueses, disse Manuel Alegre, que considerou que, “pela sua experiência e pelo seu passado político”, António Costa “pode levar o PS à vitória e à construção de um novo ciclo de crescimento”, assim como “ao reforço da posição estratégica de Portugal na Europa e no mundo.”

Dirigindo-se a António Costa, Manuel Alegre desafiou-o a trazer aos portugueses “o que mais falta faz: confiança, entusiamo, esperança”, porque “os portugueses andam tristes, andam desanimados, falta-lhes alma.” E o que um político pode fazer de melhor é restituir alegria e alma à política e à democracia, afirmou.

Manuel Alegre não quis terminar sem deixar à reflexão de António Costa e de todos quatro propostas essenciais: um pacto nacional e europeu para a renegociação da dívida; um pacto nacional e europeu para libertar o país do estrangulamento do Tratado Orçamental; um pacto nacional para defesa do Serviço Nacional de Saúde e da Escola Pública; e um pacto nacional para a economia e emprego.

O “arco da governação” é uma armadilha para amarra o PS à direita
Quanto à política de alianças, Manuel Alegre afirmou que o PS não pode ficar prisioneiro do chamado “arco da governação”, porque isso “é uma armadilha para amarrar o PS à direita, como uma espécie de 3.º partido à direita". O PS tem de “romper essa armadilha”, defendeu, deve "lutar pela maioria absoluta e alargar o seu espaço" como fez na Câmara de Lisboa com o “PS mais” e o entendimento com os movimentos de cidadãos. Há que dialogar com estes movimentos e com os novos partidos emergentes, mas também com o PCP e o BE, com os quais “é preciso dialogar e travar um debate ideológico para os colocar diante das suas responsabilidades perante a democracia e o país”, defendeu.

“Não entrámos na Europa para estar de joelhos”, disse ainda Manuel Alegre, que criticou a austeridade ditada por um poder financeiro que domina a política e os Estados. “Há que procurar novas alianças na Europa com os países e Estados que estão em dificuldades, independentemente de terem governos conservadores ou de esquerda, acrescentou.

Manuel Alegre concluiu recordando a António Costa que há tempos, num almoço, este lhe dissera que “gostava de fazer coisas.” “O que lhe pedimos”, concluiu, “é que faça coisas boas para a democracia e para Portugal.”