"É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao Expresso:
“Isto não é uma crise do Governo, é uma crise do Estado”
08-07-2017 Adriano Nobre, Expresso (título nosso)

O histórico socialista Manuel Alegre recusa “entrar na agenda do Governo, da oposição ou dos jornalistas”, mas assume que tem assistido “com grande mal-estar” ao que se tem passado nas últimas semanas em Portugal. Porque “tanto na tragédia de Pedrógão Grande como no roubo das armas em Tancos”, o que está a ocorrer “ultrapassa as querelas partidárias e não se resolve com demissões de ministros.” “Isto não é uma crise do Governo, é uma crise do Estado”, aponta.

“Reformado da política mas não do país”, o antigo deputado e candidato à Presidência da República diz ao Expresso que o roubo de armas em Tancos “exige uma reflexão séria” sobre as Forças Armadas e não uma “politização” do caso. “O país quer ter Forças Armadas? Ou não? Eu sou a favor, mas quero umas Forças Armadas que não deixem roubar ar armas de um paiol. É inconcebível que isso aconteça. Para quem conhece a História do país, isto dói.”

Dentro dessa reflexão que sugere ao país, Alegre coloca mesmo em cima da mesa o possível regresso do serviço militar obrigatório como solução para revitalizar as Forças Armadas. “Votei contra o fim do sistema militar obrigatório e voltaria hoje a votar, apesar de saber que contraria as juventudes partidárias. Em França já se voltou a discutir o assunto. E talvez fosse tempo de reflectir também sobre isto em Portugal. Porque o serviço militar é também um serviço cívico.” O fim do SMO foi aprovado pelo Parlamento em 1999 e a última incorporação veio a acontecer em 2004.

Sobre o caso de Tancos, o socialista estranha a discussão em torno da videovigilância, dado que “antes a vigilância era feita por militares armados.” “Se não há sistema de videovigilância e depois não temos militares armados para defender as armas isto é muito grave. Não é um assunto que se resolva com a demissão deste ou daquele ministro, nem com discussões sobre se a culpa é deste Governo ou do anterior. São questões estruturantes: se queremos Forças Armadas, que se reforcem as Forças Armadas”, apela.

Para Alegre, de resto, o roubo das armas é sintomático do “sucessivo desinvestimento” a que têm sido condenadas as forças militares portuguesas. Um “desinvestimento de meios”, mas também “um desinvestimento político”. E se Marcelo Rebelo de Sousa tem tido “um papel importante na salvaguarda das Forças Armadas”, Alegre também nota que “isto não vai lá só com discursos.”

Nesse sentido, e porque “a prioridade das Forças Armadas, antes das missões no estrangeiro, é defender a soberania do país”, Manuel Alegre defende que além da “disciplina e do espírito de missão” que deve caracterizar os militares, também é preciso que estes sintam que “o país os quer”. “E isso inclui o poder político”, prossegue, lamentando que persista em Portugal “uma questão cultural que afecta a relação do país com as suas Forças Armadas: primeiro porque foram o braço armado da ditadura, depois porque foram quem fez a revolução”.