"Sobretudo nas horas em que tudo / de repente se esvazia / e pesa mais que tudo esse vazio / ... / é precisa (mais que tudo) a poesia."
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Manuel Alegre na campanha de 2016, foto de Ana Maria Baião Correia
Manuel Alegre na campanha de 2016, foto de Ana Maria Baião Correia
Presidenciais
Na liga dos outsiders, o campeão Manuel Alegre alerta pré-candidatos: “Não basta a coragem"
04-06-2020 Fábio Monteiro, Expresso diário on-line

Manuel Alegre tem um número “fetiche”: 29. 758. Foi por esta curtíssima margem de votos, nas presidenciais de 2006, que o socialista não obrigou Cavaco Silva a uma segunda volta. Nunca desvinculado do PS, mas sem o apoio oficial do partido, Alegre protagonizou um fenómeno singular na política nacional: amealhou nas urnas 20,74% dos votos (1.138.297) - mais do que Mário Soares, que tinha nas costas a máquina partidária do PS -, o melhor resultado de que há registo de um candidato sem o apoio de um partido. “É preciso coragem, destemor. Sabia que tinha muito apoio, que não ia ser um flop”, diz ao Expresso.

Por comparação com outros países europeus, Portugal não tem grande tradição de outsiders nas eleições presidenciais. Desde 1976, foram apenas 12 os candidatos (11 homens e uma mulher) que, sem apoio formalizado de nenhum partido, foram a votos. O ano mais concorrido foi 2016 – com a participação de Maria de Belém (4,24%), Vitorino Silva (3,28%), Paulo Morais (2,16%), Henrique Neto (0,84%), Jorge Sequeira (0,30%) e Cândido Ferreira (0,23%). Porquê? “Não havia incumbente. A legislatura de Passos Coelho tinha corrido de forma atribulada e nem todos os socialistas estavam contentes com o que António Costa havia feito a António José Seguro”, lembra Henrique Neto.

Há nove anos, Fernando Nobre (14.10%), fundador e presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), e Defensor Moura (1,57%), ex-deputado do PRD e PS, tentaram também a sorte contra Cavaco Silva. Moura diz mesmo que tinha por “objetivo evitar a reeleição do pior Presidente da República da nossa história democrática”. Ambos falharam. Tal como Alegre. O socialista entrou na corrida em 2011, mas desta feita com o apoio do PS, candidatura que foi “um erro”. “Não era minha aspiração”, diz. Aconteceu como que por “arrasto”. Uma experiência sem comparação com 2006, sublinha.

Há 15 anos, Alegre foi “candidato por irritação”. O socialista havia sido abordado por José Sócrates, então primeiro-ministro, para ser o candidato do PS, mas viu-se ultrapassado. “Estava em reflexão e de repente fui avisado que ia ser anunciado o nome de Mário Soares”, conta. O histórico socialista não gostou. Do nada, a sua candidatura começou a ganhar forma.

“Começaram a aparecer por todo o lado sedes de campanha”, “pessoas independentes, da esquerda e da direita, a mostrar apoio”, “uma parte considerável do PS apoiou-me”, lembra.

Um jantar de amigos em Águeda tornou-se quase um comício. Perante um grupo de 80 socialistas, acabou por dizer: “Não há salvadores nem homens providenciais, da Esquerda ou da Direita, e não há donos da República nem da democracia”. Estava dado o tiro de partida, sem saber, para “uma coisa bonita, um momento genuíno”. Houve até quem lhe dissesse que parecia quase “um novo 25 de Abril”. A favor deste espírito, jogou o facto de “não haver aparelhismo”, nota.

Quando chegou o dia de oficializar a candidatura, que ocorreu no Hotel Altis, em Lisboa, Alegre já tinha ganho o estatuto de maior opositor a Cavaco Silva. Nesse evento, uma jornalista contou-lhe: tinha estado com o ex-primeiro ministro à conversa e este havia confidenciado: “O meu adversário é este”.

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Manuel Alegre dá a fórmula do sucesso (e mote de reflexão para Ana Gomes): para que um candidato independente tenha sucesso, é preciso que haja algo de prévio: “uma corrente de opinião”, com que faça que determinado seja desejado. “Não basta a coragem e o risco, é preciso ter indícios fortes que há uma corrente de opinião a seu favor. Que não seja apenas uma corrente mediática”, frisa.

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Manuel Alegre não aponta nomes, mas deixa vários recados ao PS

Como Francisco Assis, o socialista diz ter “medo dos consensos excessivos” que são “maus para a democracia”: há grande probabilidade, “se o PS não tiver juízo”, que não avance nenhum candidato para fazer frente a Marcelo Rebelo de Sousa... e André Ventura. Sem um nome socialista, o deputado único do Chega pode ter um resultado “inimaginável”, um possível segundo lugar, que poderá capitalizar e projetá-lo mais tarde. “Não é bom subestimar”, tal como fizeram com Trump e Bolsonaro.

Apesar de “ninguém de duvidar do triunfo de Marcelo Rebelo de Sousa”, o histórico socialista frisa que “seria bom que houvesse candidatos das duas principais áreas políticas”. O PS não pode perder por “falta de comparência”. Alegre alerta: “não é bom um homem de centro-direita ter mais apoio dos partidos da esquerda do que da direita” – conforme apontou o último barómetro da Pitagórica. “Esse eleitorado direita vai fugir para onde se calcula.”