Neste dia em que se assinala a morte de Luís de Camões, lembremos que com a sua obra "Camões fundou uma língua e, com ela, o cartão de identidade de todos nós", como disse um dia Manuel Alegre. "Se outros fundaram o reino, a ele cabe a suprema glória de ter fundado a língua que falamos. Tanto basta para que ele seja para todo o sempre o maior dos portugueses", lembrou, "mesmo que tenha morrido na miséria e tenha sido enterrado como um cão à porta de uma igreja".
Em sua homenagem, recordamos um excerto do poema "Com que pena", do livro do mesmo nome, de Manuel Alegre.
Era ainda um léxico sibilante /
um gutural murmúrio dis- /
sonante. Diante da folha branca /
Luís Vaz de Camões.
Ninguém sabe com /
que pena com que /
tinta em /
que papel.
Ninguém saberá nunca /
com que /
letra.
E isso é como ter perdido /
uma parte do nosso próprio rosto.
(...)
Diante da folha branca /
sentado na margem do Mandovi /
em Goa. Ou talvez /
junto de um seco estéril adverso verbo.
Então o com e o que /
as sílabas mais ásperas e as rudes /
consoantes puseram-se a cantar. /
Alquimia – poderia dizer Rimbaud /
muito mais tarde. Mas era /
(segundo Pedro Nunes) /
outro mar outro céu outras estrelas.
Da obscura substância de uma antiga prosódia /
uma língua nascia.
E se alguém perguntasse como /
não morria /
tu dirias canção que /
porque /
poesia.
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