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Manuel Alegre
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Manuel Alegre - escrita sobre a escrita
24-03-2010 JL
Entrevista de Francisca Cunha Rêgo

O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua , numa edição da D. Quixote, é a mais recente novela de Manuel Alegre. Chega às livrarias sexta-feira, 26. O JL falou com o autor sobre os pregos desta história.

Era uma vez um miúdo que pregava pregos numa tábua e que contava as sílabas pelos dedos. Era uma vez um miúdo que gostava de nadar, que ouvia os pais cantarem o fado e que uma vez, na escola, levou com o ponteiro do professor por estar distraído. "A poesia bate com força", terá então pensado porque na sua cabeça vagueavam as palavras de Mário de Sá-Carneiro.

De todos estes episódios e das pessoas com quem se foi cruzando ao longo da infância se faz a mais recente novela de Manuel Alegre. O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua é, segundo o seu autor, "uma espécie de viagem sobre mim mesmo". Longe de ser confessional quis pensar sobre o processo de criação, no fundo, a "escrita sobre a escrita". "Deu-me muito prazer escrevê-lo e gostava que gostassem dele", confessa o poeta 73 anos, autor de O Canto e as Armas , Coisa Amar Coisas do Mar , Alma e Senhora das Tempestades , entre muitos outros. Este é o primeiro livro de um novo ciclo na vida de Manuel Alegre, já fora da Assembleia da República e com os olhos postos em Belém.

JL: Lembrando um episódio da infância escreve que "a poesia bate com força". Ainda continua a senti-la com a mesma intensidade?
Manuel Alegre: Sim, a poesia quando chega é com sempre com força. Ou então não chega. Comigo é assim. E cada vez mais, embora hoje escreva menos, quando vem bate com bastante força.

E por que quis escrever este livro?
Nunca sabemos porque escrevemos um livro. Este quase se escreveu por si próprio. É uma espécie de escrita sobre a escrita, de viagem por mim mesmo. E sobre os múltiplos sons da vida e episódios da infância, sobre os ritmos do mundo que depois desembocam no ritmo da escrita.

Houve algum episódio específico que motivou a escrita ou surgiu de repente?
Quando escrevo um livro destes há sempre uma toada que não sei bem explicar. Começou logo pela primeira frase: "É difícil escrever um livro". E depois foi um acto de liberdade. Fazer aquilo que me apetecia, que me surgia. Depois as palavras puxam outras palavras, que puxam pela memória que por sua vez puxa a palavra. No fundo, podia ser uma arte poética. É uma escrita sobre o processo de criação, mas não do ponto de vista literário nem de 'literatice'. Mas antes perceber como se chega à escrita através de outras coisas: a rua, o campo, a escola. Múltiplos episódios da vida e das pessoas que por ela passaram.

A infância está toda aqui?
A memória é muito selectiva e isto é a parte que está virada para um ritmo feito de outros ritmos, desde o meu pai e a minha mãe a cantarem o fado, o violino do João que nunca acertava uma nota, o ruído do marceneiro que aplainava as suas tábuas...

E continua a contar as sílabas pelos dedos?
Houve um amigo editor, o João Rodrigues, que me perguntou se eu estava a escrever uma história. E eu fiquei a pensar naquilo e não lhe respondi logo. Depois, como digo no princípio, disse-lhe que sim que estava a contar a história de um miúdo que pregava pregos numa tábua e que depois começou a contar as sílabas pelos dedos. Nunca mais fui capaz de pregar um prego direito. Mas é das primeiras memórias que tenho em mim. Contar as sílabas é uma metáfora. Há muitos poetas que contam as sílabas mesmo que não sejam decassílabos. É uma questão de ritmo, de prosódia, de música. No fundo, está-se a reger a música da escrita.

Termina com uma ideia de descoberta, brincando às escondidas com os seus netos. Quer ainda que alguém o descubra?
A escrita é um pouco isso, um jogo de mostra e esconde. Como os meus netos que se escondem para dizer "Eu estou aqui". É um processo de revelação e o que se pretende é ser entendido.

E o que há ainda por revelar?
Nunca se mostra tudo. Não sou um escritor confessional, nem isto é uma biografia. Antes sobre como um miúdo que pregava pregos numa tábua, e que pedalava num carro de quatro rodas, se foi sedimentando e como todos aqueles sons, cantigas, histórias o encaminharam para um certo ritmo interior que no fundo é o ritmo do poema, da escrita.

Afirma que "um livro é como uma estrada". Já há outras que pensa percorrer?
Numa estrada anda-se para a frente e para trás e tem que se contar com as curvas. Não escrevi este livro de uma maneira programada, foi acontecendo e os capítulos sucedendo-se. Tenho um conjunto de poemas que podia publicar agora, num tom um pouco diferente do habitual. Mas este livro acaba de sair e portanto vamos deixá-lo viver e respirar. Assim talvez acrescente ainda alguns poemas aos que já escrevi.