"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
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"Mário Duarte, meu avô"
28-04-2012

Lembro-me de meu avô Mário Duarte a fazer-me uma festa na cara e a enxugar uma lágrima, gesto que vi depois meu pai repetir e que, segundo dizem, também eu faço. Estou a vê-lo num barco a motor, na Costa Nova, de pé, a acenar. Foi a última vez que o vi. Guardo esse aceno como um adeus. Eu não tinha ainda quatro anos, mas conservo, muito nítidas, estas duas imagens.

Meu avô esteve e está sempre presente. No meu pai, em mim, nos meus filhos. Não apenas pelos laços de sangue, mas por algo com que só uma personalidade muito forte poderia marcar desta maneira tão viva os seus descendentes: o carácter, o espírito pioneiro, a cultura, a frontalidade, a revolução que empreendeu no desporto em Portugal, não só pelas modalidades que introduziu, mas por ter encarado a prática desportiva como parte integrante de uma formação humanista e cívica, ou daquilo a que, mais tarde, Bento de Jesus Caraça chamaria “o homem integral”.

Nesse sentido, foi um pioneiro e, monárquico liberal, foi também um revolucionário. Através do desporto, como assinalou João Sarabando, mudou e democratizou a sociedade, juntando na mesma actividade pessoas de diferentes condições sociais, pobres e ricos. E foi também um homem de coragem e de princípios, que não virava a cara, olhava a direito e dizia sem medo o que tinha a dizer. Opôs-se à ditadura de João Franco, apesar de ser amigo e companheiro do Rei D. Carlos. Durante a visita de D. Manuel II a Aveiro, sendo então director político do jornal “O DISTRITO”, escreveu um artigo no qual, com desassombro e num tom premonitório, alertou o jovem Rei para as intrigas e o desprestígio dos partidos que estavam a corroer o regime.

Seu filho Francisco, meu pai, assim como meu tio Mário, transmitiram-me a herança que receberam. A herança de um homem que foi, no seu tempo, um cidadão do futuro. Temos procurado seguir o seu exemplo. No desporto e na vida. Três gerações de internacionais, meu pai (atletismo), eu próprio (natação), meus filhos Francisco e Afonso (râguebi). E a minha filha Joana é uma boa praticante de natação e surf. Temo-nos igualmente esforçado por honrar a sua lição de civismo e patriotismo. E ser fieis aos mesmos valores. Para além da sua espingarda e do candeeiro que tinha na casa que partilhou com António Nobre, em Coimbra, o que dele mais profundamente está em mim é a sua independência de espírito. Mantenho hoje o mesmo sentimento que tinha quando, em pequeno, dizia com indisfarçável orgulho: sou neto de Mário Duarte.

Manuel Alegre de Melo Duarte
Lisboa 31 de Janeiro de 2012

Este texto foi incluido na biografia intitulada "Mário Duarte, o sportsman mais completo de Portugal", da autoria de Francisco Teixeira Homem, lançado em Aveiro em 28 de Abril de 2012