Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista ao DN
Poesia em tempos de crise
10-06-2012 Notícias Magazine
Texto de João Céu e Silva, fotos de Gerardo Santos

É o poeta português vivo mais lido. E a cada novo livro de poesia mantém a voz e a originalidade que o consagraram. Manuel Alegre já prepara um novo romance - onde o sonho e a ficção se confundem - e os primeiros milhares de exemplares de Nada Está Escrito já se esgotam. Nega que seja um volume com poesia de intervenção, mas o efeito da crise sobre a alma dos portugueses é bem visível nestes novos versos.

Ao fim de tantas centenas de poemas, terá Manuel Alegre razões da vida para podermos adaptar o verso de Fernando Pessoa «o poeta é um fingidor» para a variante «o poeta é um sofredor»? Afinal, esse é o sentimento que se encontra em Nada Está Escrito, o seu último livro de poesia. O poeta dá a resposta chamando outro, Rainer Maria Rilke, que dizia que a poesia era feita de sentimentos e que para escrever um verso era preciso ter visitado muitas cidades, conhecido muitas pessoas, feito muitas despedidas e ter andado por regiões desconhecidas... Tudo isso aconteceu a Manuel Alegre, por isso aceita que em Nada Está Escrito estejam refletidas as interrogações sobre o sentido da vida, a transcendência e a ausência dela e as grandes questões que o homem se põe desde o princípio: «As perguntas que não têm resposta.»

Também está neste livro a crise do tempo que se vive e o pulso ao que mudou no país. «Há uma parte que fala da cidade onde costumo dar os meus passeios a pé, que reparei estar bem diferente e onde as pessoas estão crispadas: "As ruas cheias de gente e as pessoas desertas. Perdeu-se a alegria e vive-se a angústia de um muro a tapar o futuro e a vida."»

Manuel Alegre diz que não foi por acaso que escolheu o poema a Balada dos Aflitos para iniciar o volume. Um poema onde encontramos palavras pouco habituais, como «mercados» ou «mais-valia», que rimam com realidade e que para Manuel Alegre representam a falsa importância da economia nas vidas das pessoas neste tempo.

«Estamos todos aflitos e há muito tempo que não existia uma crise semelhante. Isso reflete-se na vida e na poesia, porque são inseparáveis. Há uma ocupação das nossas vidas e da nossa linguagem por palavras que têm o sentido errado, que estão do avesso e levam a uma visão muito redutora da vida. É que para além disto há literatura, arte, criatividade e relações humanas. Ou seja, há transcendência.»

Alegre socorre-se do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto para explicar o tempo deste livro. «Ele diz que ninguém está fora da História, mesmo aqueles poetas que se julgam intemporais.» Aliás, logo ao segundo poema, Estradas ermas junto ao mar, volta a sentir-se esse peso da autobiografia nos primeiros versos: «Pouco a pouco eles partiram / sonhavam outros mundos dentro / deste mundo.» As palavras materializam o exílio do poeta e o atual êxodo dos jovens em busca de emprego. «Foi o que se passou com os jovens da minha geração e é o que se vive agora. Aqueles tiveram grandes ilusões, sonharam com revoluções e com uma transformação do mundo e depois tiveram a desilusão da utopia. Estes, que também tiveram os seus sonhos e as suas utopias, encontram-se como os jovens de há quarenta ou cinquenta anos e também nessa contingência de deixarem o país.»

Num encontro recente com estudantes da Escola Secundária Luís de Camões, Manuel Alegre ficou impressionado com a angústia dos jovens que lhe perguntavam sobre o que fazer para não deixar o país: «Eu voltei para casa e nem dormi bem nessa noite. Fiquei a pensar em mim mesmo e nos meus amigos quando havia a guerra do ultramar. Era preciso não esquecer que nós somos dos países com uma das histórias mais ricas da Europa e que, quando ouvimos certos comentadores a falar, até dá a impressão de que isto é um país de bandeira esfarrapada. Não é!» Por isso defende que é necessário, mais do que nunca, lembrar o que dizia Miguel Torga: «É preciso achar as Índias que estão dentro de nós. Porque se fomos um país que se fez para fora e não podemos perder essa visão do mar, a dimensão euro-atlântica por onde se fez o nosso rumo, há agora outra aventura para viver, e de que já falei nos primeiros livros, que é achar Portugal em Portugal. Acharmos a Índia de dentro.»

Deus é outro tema constante em Nada Está Escrito. «Também tem que ver com a idade e com as reflexões que se fazem sobre a vida e a morte. Há uma espécie de interrogação com Deus e com a Sua ausência, que também é uma forma de existir; bem como a transcendência ou a sua ausência, que são perguntas sem resposta. Deus é uma palavra que aparece também como uma metáfora: será que haverá um sentido para isto tudo?»

A recolha e organização dos poemas escritos nos últimos anos obedeceu a uma lógica que não é muito racional. Considera que tem a ajuda dos poemas porque eles organizam-se a si próprios e vão-se juntando: «Têm três ou quatro anos e são posteriores ao livro Doze Naus. Eu não sou daqueles que escreve todos os dias um poema, até passo muito tempo sem escrever. Há períodos em que se sucede um ciclo de poemas, depois paro. Segue-se outro ciclo de poemas, como os que dizem respeito à "cidade", que resultaram dessa iluminação de que a cidade tinha mudado e de que o olhar das pessoas estava vazio... Todos os dias, saía de casa e surgia-me um poema, até o homem das castanhas da Praça de Londres era uma imagem que imediatamente se transformava em poema.»

Há um outro capítulo, em que surgem as memórias do tempo de juventude como este poema em que escreve «vão aqueles que se banhavam / comigo nas águas do rio», depois de ter estado à beira do rio da sua terra, em Águeda: «É a nostalgia da infância, o pensar nos amigos que andaram comigo na escola. Esses tempos em que as pessoas ainda se banhavam e aprendiam a nadar no rio. É um poema de memória, mas isso também é a vida e poesia.»

Neste novo livro, há também o eterno regresso dos clássicos gregos, como os de Heitor e de Telémaco: «Os gregos aparecem sempre na minha poesia e não é por acaso que me chamaram "o Ulisses português"! Eu considero a Odisseia a grande metáfora da vida humana, que no fundo é a busca de um sentido; o da errância, e de todos andarmos à procura de Ítaca. Eu redescobri pela tradução do professor Frederico Lourenço a Ilíada, que é talvez o mais fantástico de todos os poemas que até hoje se escreveram e em que o grande herói parece o anti-herói. Ele é o Heitor, que não é filho de um deus, não é imortal, nem tem o calcanhar de Aquiles. Heitor é um humano que defende a sua cidade, é aquele que vencido é o vencedor e que é o grande herói da escrita homérica. Um resistente e um símbolo daqueles que são capazes de travar os combates mesmo que saibam que são contra forças superiores ou invencíveis, ou até de origem divina, mas não deixam de o travar.»

Curiosamente, é neste capítulo grego que se pode encontrar um dos poemas que mostram como a voz de Manuel Alegre pode ser sempre reconhecida, seja qual for o verso, mesmo que apareça desgarrado. Em A Corrida, o poeta coloca a par do loiro Menelau e das belas crinas dos imbatíveis cavalos dos Atridas, o maratonista Carlos Lopes. «Acho que este livro é muito diferente dos outros que escrevi. Tem o tom e a voz mas, quer na escrita quer nos temas, é muito diverso. Carlos Lopes é o vencedor da maratona, é um momento grande e ele era o herói grego, o homem de Viseu que vence sozinho aqueles tipos cheios de técnicos, médicos e massagistas. E todos nós corremos com ele, todos nós terminamos aquela corrida e quem viu nunca mais esquecerá.»

Outro poema, Balada para Jesse Owens,que o poeta data como escrito na Argélia há cerca de quarenta anos e que reencontrou recentemente num dos seus cadernos, chama a atenção pelo tom. «É um poema mais direto. Aparentemente muito simples, mas está lá tudo sobre uns jogos olímpicos feitos para afirmar a superioridade da raça ariana e que um negro vence. Pode ver-se o desespero de Hitler no filme da Leni Riefenstahl: ele está muito nervoso porque tinha arianos, barcos e tanques, tinha tudo, só não tinha o ariano para vencer Jesse Owens. É um grande símbolo!»

Ente os poemas que surpreendem pela temática está outro, contra a corrente, que fala de Trotsky. «Não sou trotskista, mas ele é uma figura trágica. Era preciso um Shakespeare para escrever a sua vida, de quem fez a revolução, o assalto ao Palácio de Inverno e nem sequer pensou no que lhe poderia fazer Estaline. Subestimou-o e acaba assassinado daquela maneira. Sempre me impressionou essa dimensão trágica da sua vida.»

Ao falar de revolução traída é impossível não ligar o tema ao 25 de abril de 1974 e à recente recusa em participar nas comemorações oficiais. «Há muitos 25 de abris dentro do 25 de abril e há muitas revoluções dentro de uma Revolução. O que era o 25 de abril? Aquele programa do Movimento das Forças Armadas: Descolonizar, democratizar e desenvolver. Isso foi feito e o 25 de abril instituiu uma democracia com uma dimensão social que está agora a ser posta em causa. Há necessidade de poesia, de arte e de criação, que é outra dimensão do homem, porque a poesia também salva. O que não me salva é a economia nem os tecnocratas. Aliás, este é o único país que tem como símbolo nacional um poeta em vez de um guerreiro ou um santo.»

Manuel Alegre já está noutra fase literária. Regressado de Pádua, onde participou num evento sobre a sua obra na universidade que tem uma cátedra com o seu nome, o escritor retomou a escrita de um novo romance. Não revela o tema e quando começa a resposta com «É um livro sobre...» interrompe e corrige: «Um livro nunca é sobre uma só coisa... É uma tentativa quase impossível de narrar os sonhos que as pessoas têm. Queremos narrar como um sonho; acaba por se ficcionar um sonho, por se cair na ficção e, às duas por três, já estamos a sonhar a nossa própria ficção.»