"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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"Viagem a Duíno"
23-02-2013 Manuel Alegre, Expresso, Revista
Artigo de Manuel Alegre no Expresso

“Viagem às ilhas de Havai: Nunca lá fui”. Título e conteúdo de um poema de Joaquim Namorado que era habitual citar-se nesse tempo em que as viagens se faziam à volta do quarto. Duíno, por exemplo. Antes de lá ir, eu já lá tinha ido muitas vezes. Desde que comecei a ler Rainer Maria Rilke, cujo nome, diz Marina Tsvetaeva, “tem sons de infância e cavalaria.”

Viajei para Duíno ao ler as Elegias, na tradução de Paulo Quintela. Para Duíno viajei com o próprio Rilke, quando a princesa Maria von Thurn und Taxis lhe enviou carro e chauffeur para o levar de Paris até ao Castelo. Nunca se soube por que razão ele desceu em Bolonha e seguiu depois pelos seus próprios meios. Talvez porque era uma viagem iniciática até àquele Castelo na margem do Adriático, por ele considerado o limite da sua errância. Fosse porque fosse, prosseguiu sozinho até Duíno.

Não assim nós. Éramos quatro, Hélia Correia, Mafalda, Jaime Rocha e eu.

Partimos de Pádua a 24 de Maio de 2012 e tivemos que submeter-nos a algumas provas. Umas boas centenas de metros a arrastar as malas pelas ruas dos subúrbios de Pádua até à garagem onde estava o carro que alugámos e que, assim como pegava, assim se ia a abaixo. Explicaram que não se podia tirar o pé muito depressa. E lá fomos. Jaime a guiar, eu ao lado, atrás Mafalda, como segundo piloto, e Hélia de GPS em punho. Desengane-se quem julgar que é fácil sair de uma cidade italiana para a autoestrada. Se não fosse a arte da Hélia, o sentido de orientação da Mafalda e a competência do Jaime, ainda agora andávamos às voltas em Pádua. Mas se é complicado entrar, não se pense que sair é simples. Depois de muitas curvas e alguns enganos, acabamos por encontrar o enigmático caminho para Duíno. Ficamos numa casa ao lado do Castelo, pertencente à família Torre e Tasso, adaptação italiana de von Thurn und Taxis.

Dois quartos, duas casas de banho, uma cozinha, uma sala e uma vista soberba sobre o bosque e as rochas descendo para o azul do Adriático. E também sobre as ruinas do castelo velho destruído pelos bombardeamentos de várias guerras. Estamos ansiosos. Cada um de nós tem a sua vivência da leitura do Poeta. Vimos a este lugar como que em peregrinação. Subimos uma pequena ladeira e estamos no jardim do castelo. Há um pequeno posto de turismo, com postais, polos, alguns livros em alemão ou italiano. Somos recebidos por duas simpáticas raparigas. Atrás do balcão, trabalhando num computador, uma senhora muito bronzeada, olhos claros, um rosto estranho, de polo e jeans. É a princesa, casada com o príncipe Carlo Alessandro, e que, juntamente com o marido, administra o castelo. Foi com ela que Hélia contactou para alugar a casa. Diz-nos que não precisamos de pagar bilhete e que sempre que quisermos podemos visitar o castelo.

Aí está ele, à nossa frente. Visto deste lado não é bonito nem feio. Tem uns pequenos claustros à entrada, a torre do lado esquerdo. Cito aos meus companheiros as palavras de Rilke: “O Castelo é um imenso corpo sem muita alma, obcecado pela ideia da sua força.” Mas não é um castelo qualquer. Por aqui passou Rilke, aqui respirou este mesmo ar, aqui se concentrou até à revelação do primeiro verso das Elegias. Entramos como num local de culto. Cada um segue o seu percurso e procura o que, de um modo ou de outro, o pode tornar mais próximo do Poeta. Há uma forma de ver que se assemelha a uma distração concentrada. Estou talvez assim. Não sei ao certo o que procuro. Penso nos versos da Primeira Elegia : “…os vivos cometem todos o erro de distinguir demais.”

A Hélia vinha muito empenhada em descobrir o “percurso de Rilke”, a caminhada que ele fazia todos os dias. Mas a actual princesa avisar-nos-á que não há percurso nenhum, é só uma lenda. Creio que tem razão. O percurso de Rilke é interior. Iniciamos uma primeira visita. Há móveis bonitos, alguns muito antigos, um canapé onde Rilke por vezes se deitava, uma sala de jantar de mesa posta, parece estar à espera dos convidados. E muitos instrumentos de música, sobretudo uma fantástica colecção de violinos. Retratos de várias gerações. E fotos, muitas fotos. Só me interessam as de Rilke. E de repente vejo: num dos corredores uma galeria de fotos com os grandes olhos de Rilke. Estremeço: os olhos parecem sair das paredes, saem mesmo das paredes, seguem-me, não me largam, quase tenho medo de me voltar. Aqueles grandes olhos azuis a sair das órbitas são talvez os olhos do “Anjo terrível” que, se calhar, não é outro senão ele próprio, Rainer Maria Rilke. Detenho-me junto a um armário envidraçado onde está exposto o manuscrito da Primeira Elegia. E passo para o terraço de Rilke, assim chamado por ser ali que o Poeta costumava ler, conversar ou simplesmente olhar o Adriático. A Hélia está acocorada com um livro no regaço. Está ali e não está ali. Entrou para dentro das Elegias.

Mas nós vamos às varandas olhar o esplendor do Adriático. Há um caminho que circunda o castelo. Talvez esse fosse um dos percursos de Rilke. Pergunto-me em que sítio, nessa noite de tempestade, relâmpagos e trovões, fora e dentro do Poeta, teria ele ouvido a voz que lhe ditou os primeiros versos da Primeira Elegia: “Quem, se eu gritasse, me ouviria dentre as ordens / dos anjos.”

Não sei se teria sido o bora bora que soprou, esse vento que vem das montanhas da Eslovénia e agita as águas e as almas. Tempestade em Duino, tempestade dentro de Rilke. Porque “Todo o anjo é terrível.”

E “…a voz que fala por mim é mais do que eu mesmo.”

Mas esta tarde de Maio é uma magnífica tarde de primavera. O mar está calmo, o canto dos pássaros e o cheiro das árvores e das flores do bosque invadem as salas pelas janelas abertas. Como encontrar o Poeta numa tarde assim? Há, é certo, muitas fotos, quer dele quer de mulheres que ele amou. E também o ranger dos móveis e do soalho. Como disse o Poeta numa carta a Ilse Blumenthal-Weiss “…para fazer chegar a hora basta pouca coisa: muitas vezes um livro, um objecto de arte (…) um murmúrio do vento, um estalar do soalho.” Tudo isso se vê e ouve. O Poeta anda por ali.

Mas o que fica, para além dos olhos de Rilke a sair das paredes, é o azul do Adriático com Trieste ao fundo, as montanhas da Eslovénia mais longe. E o bosque. E as rochas. E a Dama Bianca esculpida pelo mar e o vento. De certos ângulos consegue avistar-se, mas só de barco será possível vê-la de frente. É de facto uma mulher de branco, feita de rocha e lenda. Lembro-me então daquelas a que Rilke chamava “as grandes abandonadas”, as únicas, segundo ele, capazes de amar, já que o homem é um “usurário dos sentimentos.” Talvez o acaso lhes tenha dado a forma da Dama Bianca, Mariana Alcoforado, Gaspara Stampa, Elizabeth Browning, todas em uma só, a Dama Bianca, noiva de ninguém, em frente ao mar.

Recomendam-nos para jantar um restaurante do mesmo nome, Dama Bianca, na baía de Duíno, pequeno porto a escassos quilómetros do castelo. Comemos peixe dos viveiros do Adriático, descontraímos das emoções da tarde, bebemos um bom vinho branco. Ouvindo o murmúrio do mar e olhando o céu estrelado, pensei na extraordinária pergunta de Rilke: “Será que os espaços infinitos onde nos dissolvemos têm o nosso sabor?”.

Na manhã seguinte, uma partida da Hélia: ela tinha informado o Príncipe de Torre e Tasso, Carlo Alessandro, da minha estadia. O senhor foi muito simpático, recebeu-nos informalmente, mas com extrema elegância, numa esplanada do jardim. Conversamos em francês embora ele dominasse outras línguas. Neto da Princesa Maria von Taxis, amiga e protectora de Rilke, falou-nos também da sua avó materna, Maria Bonaparte, discípula de Freud e conhecida como a “Princesa da psicanálise”, cuja biografia nos ofereceu. Na pequena loja comprei o livro de memórias de Maria von Taxis, fonte essencial de qualquer biógrafo de Rilke. Fiquei a saber que o último rei de Portugal, D. Manuel II, já deposto, também havia sido recebido em Duíno. Era, segundo a Princesa, uma pessoa amável, gostava de música e ela organizava concertos em sua honra. Despedimo-nos de Carlo Alessandro oferecendo-lhe versões italianas de livros nossos. O Jaime subiu à Torre. Percorremos de novo as salas do castelo. Os olhos de Rilke continuavam a sair das paredes. A Hélia aninhava-se no terraço e disse-nos que ficaria ali a tarde toda, sem comer. Nós decidimos não fazer jejum e fomos almoçar. Voltamos à tarde. A Hélia lá continuava. Quase não deu pela nossa presença. Ao vê-la assim, pensei no verso da Segunda Elegia: “…nós, ao sentir, evaporamo-nos.”

A Mafalda e o Jaime foram ver os subterrâneos do castelo que tinham sido transformados em prisão da Gestapo durante a ocupação nazi.

Fomos depois os três até ao mar. Estava muito sol e vimos que toda a encosta está povoada de discretas vivendas, rodeadas de árvores, algumas com escadas até ao mar. Mal se viam da estrada. Não havia volumetria a mais nem atentados à harmonia e beleza do local. Trepamos a umas rochas para tentar vislumbrar a _Dama Bianca.- Em vão. Só de barco. À noite, enquanto a Hélia foi descansar, nós fomos até à baía. Escolhemos um restaurante que nos pareceu mais animado, Il Caballacio. Sem eu me dar conta, o Jaime foi dizer ao chefe que estava ali uma figura pública, etc e tal. Trataram-nos com deferência. Às tantas, algo de estranho começou a passar-se: numa mesa ao lado estava um casal que já tinha despachado várias garrafas, a dama, que não era bianca mas sim uma sósia da Meryl Streep, perguntou-nos se éramos portugueses, tinha estado no Algarve e gostava de ouvir a nossa língua. Começámos uma conversa surreal. Entretanto, o chefe informa-nos que numa mesa próxima está a filha do príncipe com quem tínhamos conversado de manhã. E eis senão quando o empregado, sabendo que estava ali um poeta, (aliás dois, porque o Jaime também é, e bom) se apresentou: José Gustavo Martinez, argentino, o último mordomo do anterior senhor do castelo, pai do actual, e autor de um livro de memórias intitulado “L’Ultimo Maggiordomo, i segreti di Castello di Duino”, de que nos ofereceu um exemplar autografado. No fim eu teria dito, e o Jaime tomou nota: foi um jantar de quinta dimensão.

No dia seguinte, cerca do meio dia, despedimo-nos de Duíno. Olhei uma última vez para o Castelo. Não cheguei a ver o Anjo. Mas, como escreveu o Poeta, “…o que jorrou dos anjos não é só seu, tem, ainda que por engano, um pouco da nossa essência à mistura”.