"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre Natália Correia
A feiticeira cotovia
13-09-2013 Manuel Alegre

Natália Correia era um poeta. Quero dizer: era diferente dos outros. "Uma máquina de passar vidro colorido", como disse Mário Cesariny de Vasconcelos e ela por certo teria gostado. "Hierática cromática socrática", "uma vestal iluminada" ou "uma deusa rangendo", como a cantou José Carlos Ary dos Santos no retrato que dela fez com versos e metáforas. Creio, aliás, que ela era a grande metáfora de si mesma.

Onde ela estava estava sempre o inesperado, a hipérbole, o fogo secreto dos mistérios originais. Metade harmonia, metade dissonância. Como a própria poesia. Havia nela aquele duende de que fala Lorca, o duende que ama a tentação do poço e mora na ferida, porque, ao contrário do anjo e da musa, "que se escapam com violino e compasso", "o duende fere, e na cura desta ferida que não cicatriza nunca está o insólito, a invenção da obra poética".

Natália, que sempre vi "enduendada", trazia essa ferida. E dela é que nascia a sua rosa. Talvez por isso eu lhe chamei Senhora da Rosa. Porque a sua rosa era uma rosa de esperança, mas era também uma rosa trágica. Uma rosa de amor e morte, de um poeta que não aceitava a ditadura do Mundo e pressentia as facas matadoras com que pouco a pouco os poetas são assassinados. Porque não se pense que Natália morreu de morte natural. Há muitas formas de matar um poeta. Uma delas é a indiferença, outra o silêncio, outra ainda a omissão. Por todas elas Natália foi assassinada. E também, como pude testemunhar, pela degradação deste tempo que lentamente a consumia. Mataram-na as notícias do Mundo. E as notícias que ela esperava sobre os seus livros e que nos últimos tempos não chegavam a ser publicadas.

Feriu-a, talvez mais do que as perseguições sofridas durante a ditadura, a sua exclusão da antologia da poesia portuguesa organizada para a Europália. Com a agravante de se tratar de uma antologia financiada pelo Estado Democrático que Natália também ajudou a construir. Mal ela sabia que uns anos depois o mesmo viria a acontecer. Certas antologias subsidiadas estão a tornar-se um misto de compadrio e conspiração.

Nos seus últimos tempos de vida, Natália telefonava-me muitas vezes a dizer: Manuel, este mundo mata. Talvez porque, como costuma dizer Herberto Hélder, a poesia seja “uma clandestinidade na ditadura do mundo”. E talvez porque, mais do que noutras épocas, o mundo se tivesse transformado numa ditadura insuportável para quem trazia consigo aquela espécie de antenas mágicas que faziam de Natália um misto de sibila e feiticeira. Aquela que sabia que não se pode viver sem o sonho e que a poesia, mais do que um exercício verbal, é pão do espírito.

“Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.”

Com poesia ela se alimentava, com poesia fez rimar a sua vida, com poesia ela se defendeu dos senhores do mundo, jurados, banqueiros, professores, tiranos ou mesmo “heróis até aos dentes”. E a todos eles ela esperou, esperará sempre, “umas estrofes mais além”.

Porque se há muitas formas de matar um poeta, os poetas também crescem da sua própria morte. Como Natália, a do "país emerso", a do "sol nas noites" e do "luar nos dias", que de si mesma disse:

"Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
Sou de mim mesma pomba húmida e brava.”

Mas também a que muitos anos antes, premonitoriamente, escreveu o “Pranto dos europeus à saída do festim”, poema de uma terrível e incómoda actualidade:

(...)
“O anjo do ocidente à entrada do ferro
sorriu e atraiu-nos aos cantos mais escuros”

(...)

“Como do assassino a sangrenta sereia
no cenário do crime sem descanso se ateia”

(...)

“e à febre das areias que deliram ao sol
arremessam as águas primeiras do dilúvio
as espinhas dos peixes que dos bruscos terraços
das ondas se despenham em luas de petróleo”.

Por isso ela é uma ausência que dói. Até fisicamente. Falta Natália. Falta a voz, falta o gesto, falta o que nela havia de bruxa, nigromante, sibila, às vezes de deusa a passear entre os mortais.

Feiticeira Cotovia lhe chamei, utilizando uma expressão com que baptizou uma das suas personagens. Cotovia, porque era livre como esse pássaro cujo espaço é a liberdade e cujo modo é cantar. Feiticeira, pelo seu dom de adivinhar e oficiar. Onde ela estava era sempre uma liturgia. Como a sacerdotisa dos templos destruídos, Natália oficiava. Ou então punha-se a ouvir as vozes e a decifrar os obscuros sinais do tempo. Havia nela algo do xamã, do adivinho e do profeta. Então oficiava. E a tribo reunia-se à sua volta, esperando que ela esconjurasse as forças maléficas ou convocasse as forças benfazejas. Por isso a sua poesia tem, como poucas, a marca da oralidade. É uma poesia para ser dita, cantada, partilhada. Há nela o pregão e a profecia, a convocação, a evocação. E frequentemente a provocação. Poesia da oralidade, da sonoridade, das correspondências, em sentido baudelaireano, das palavras, dos fonemas, das imagens.

Ninguém saberá nunca de cor nenhum verso daqueles especialistas que contra ela conspiraram e têm tentado fazer da poesia um charada. Mas há versos de Natália que ficarão para sempre no ouvido. Enquanto houver portugueses e língua portuguesa. Porque a pátria dos poetas, disse Junqueiro antes de Pessoa, é a língua. E o que fica, disse Holderlin, os poetas o fundam.

Ora a poesia de Natália é uma das raras poesias fundadoras. Porque sendo moderna, entronca na grande tradição lírica portuguesa. Porque sendo fiel à raiz, foi profundamente transgressora e cantou a dimensão "transportuguesa" de Portugal. Porque sendo criadora de futuro, vinha de longe e trazia consigo a flor de D. Dinis, essa flor de verde pinho que, segundo ela própria disse - "onde cai é um país".