Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre Herberto Helder
Uma energia cósmica
25-03-2015 Manuel Alegre, DN

Sempre que se pretendia fazer um documentário sobre ele, o Herberto telefonava aos amigos a pedir para não falarem. Não gostava de ruído nem espectáculo à sua volta. Foi assim em vida, e eu tenho a incómoda sensação de que aqui a pouco ele me vai pedir para não dizer nada sobre a sua morte.

Direi sobre a nossa juventude, quando às vezes ele aparecia lá em casa em Coimbra, sem sequer se anunciar, trazendo consigo "os comboios que talvez fossem para Antuérpia". Ficava uns dias, punha-se um divã no meu quarto, líamos poemas em voz alta, lembro-me de ouvi-lo ler Camilo Pessanha, "Só, incessante, um som de flauta chora", esse verso que ficou para sempre dentro de mim, na voz dele, e que agora me apetecia repetir como uma litania para chorar a sua morte. Depois ele pegava numas folhas de papel quadriculado e escrevia pela noite adiante. Estava a acabar Os Passos em Volta e A Colher na Boca. Mais do que uma escrita nova, era algo diferente de tudo, uma revolução orgânica. Eu ouvia o deslizar da caneta no papel e guardo comigo essa toada, essa música que vinha de dentro do Herberto, onde o poema se fazia "contra a carne e o tempo".

Pouco mais posso dizer. Herberto Helder é um dos maiores poetas da língua portuguesa e de qualquer literatura. Um amigo que encontrei na juventude e com quem sempre mantive afinidades e cumplicidades. O que me importa na sua poesia é ela mesma, a energia cósmica da sua linguagem e o que nela há de revelação do sagrado. Como ele próprio disse, "a poesia é uma forma de clandestinidade na ditadura do Mundo". Mas é ela que nos salva e nos redime. Podem levar-nos tudo, mas não os nossos grandes poetas, não Herberto Helder, aquele que em cada palavra trazia o universo todo.