Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre: A poesia é um contrapoder absoluto
08-04-2016 Jornal de Negócios, weekend
Entrevista a António José Teixeira

Manuel Alegre é, antes de tudo, um poeta. Está a escrever sobre António, Prior do Crato, também ele um símbolo da resistência. Lançou um livro novo, “Uma Outra Memória”. Tem um livro novo, recolha de textos dispersos, alguns inéditos. Chamou-lhe "Uma Outra Memória" e aí se detém em muitos "camaradas dos sonhos", homens e mulheres do seu tempo.

Manuel Alegre é, antes de tudo, um poeta. Está a escrever sobre António, Prior do Crato, também ele um símbolo da resistência. Em paralelo, organiza os seus papéis e escreve as memórias, que não sabe ainda se vai publicar. Permanente é a procura da grande inspiração, do grande poema. Tal como a atenção ao destino de Portugal e do mundo. Irrita-se com Hollande e com a falta de liderança europeia. Mas nota em Portugal um "refrescamento" da democracia. Marcelo tem os ventos a favor e o Governo da esquerda deixou-o satisfeito.

Por que é que dizer "não" é tão importante?
Dizer não foi muito importante na minha vida. É não nos resignarmos àquilo que nos querem impor, seja a ditadura, seja a manipulação. Tem algo que ver também com a escrita, com a criação artística, que partem muito desse inconformismo.

A poesia também serve para dizer "não"?
A poesia é um contrapoder absoluto. Cito muito o Osip Mandelstam, que é um grande poeta russo sujeito a perseguições inacreditáveis. Ele escreveu um poema contra Estaline, foi condenado à deportação e quando embarcou disse à mulher: a poesia é o poder. Ao dizer isso, quer dizer que a poesia é um contrapoder absoluto.

Qual foi, na sua vida, o "não" mais difícil?
Foi ter que partir para o exílio. Sabe-se quando se vai mas não se sabe quando se volta.

Recorda as circunstâncias?
Tinha vindo de Angola, da cadeia, estava com residência fixa em Coimbra, voltei a uma actividade normal e resolveram prender-me outra vez para ser julgado. Tive que me esconder, em casa do poeta João José Cochofel, em Lisboa, e na da família do Rui Feijó, no Norte. Não queria sair mas a Pide andava atrás de mim em todo o lado e a escolha era ser preso e torturado ou partir para o exílio e não pôr pessoas em risco. Foi a escolha mais difícil. Dizer não ao próprio país, à vida que tinha aqui, à família.

Interessa-me a Europa na medida em que serve o interesse nacional

Como é hoje dizer "não"?
Não se diz não por prazer nem por feitio. É mais fácil dizer sim, ou não dizer sim nem não, dizer "nim". Pertenci à geração da utopia, que acreditou na revolução, que ia mudar o mundo e nós mudámos um bocado o mundo: a libertação do país, a independência das colónias, a democracia em Espanha, na Grécia, a Constituição. Mas aquilo em que acreditámos como quem acredita num sucedâneo do céu: a União Soviética, a China, depois revelou-se um embuste.
Muita da geração que se seguiu a mim passou a ter esse sentimento em relação à Europa. Acompanhei Mário Soares em muitas viagens para defendermos a entrada de Portugal na Europa, mas não tínhamos nenhuma utopia. Era uma opção política para consolidar a democracia política em Portugal. As gerações seguintes passaram a fazer dessa Europa uma utopia e uma nova pátria e isso é muito preocupante porque, além do Tratado de Maastricht, onde o neoliberalismo vence o modelo social europeu, há também esta ideia de que a Europa se faz contra as nações, diluindo as nações. No entanto, nem é isso que estamos a ver. Estamos a ver a afirmação das nações mais poderosas contra as mais frágeis. A mim interessa-me a Europa na medida em que serve o interesse nacional.

Não é isso que está a acontecer?
Não é isso que está a acontecer. As novas gerações sabem muito pouco de história. Nós temos uma identidade, a portugalidade de que falava Torga existe. Isso é uma das coisas que mais me preocupa e é um "não" que é preciso dizer. Um "não" a essa facilidade.

“Não podemos estar a aprovar leis sobre a igualdade de género e depois admitir que a mulher, por ser muçulmana, use a burka e o véu”

Devemos repensar a nossa integração europeia?
Está tudo em aberto. A Europa está num momento de grande crise, de várias crises misturadas. A crise financeira, a crise política, a sobreposição dos mercados a tudo o resto, mesmo aos Estados, a falta de liderança, a falta de homens de Estado, o aproveitamento das consequências da crise pela extrema-direita, pelos extremos, há um processo anti-sistema em todo o lado, até nos EUA. E agora o problema do terrorismo, que não se resume a umas células que é preciso desmantelar, é muito mais complicado. Tenho ouvido muito blá-blá, muitas velas, muitas flores, mas há um problema real.

Por que é que o terrorismo está a crescer na Europa? Que falhou?
O Ocidente está sempre a culpar-se e tem algumas razões para isso. A Guerra do Iraque desarticulou os equilíbrios religiosos na região. Havia regimes ditatoriais, mas eram laicos, eram um tampão ao avanço do jihadismo e o Iraque foi isso durante muito tempo. Rebentou-se com a Líbia, ficou um vazio, a Síria, a mesma coisa. São erros muito graves do Ocidente. A relação com a Arábia Saudita, que é a mãe de tudo isto, depois, o problema das comunidades islâmicas na Europa. O multiculturalismo e a integração falharam. Mas a não integração não é só culpa da crise nem dos governos, deve-se também às próprias comunidades. A comunidade muçulmana não abdica da língua, da religião, dos nomes, usam os véus, as burkas, não se integram. Talvez tenham sido cometidos muitos erros nesse processo, mas eles não se querem integrar. Sei que isto é politicamente incorrecto, mas o principal centro de recrutamento está ali. Hoje, o problema não se resolve só na Síria ou na Líbia. O problema está na Europa e nas relações entre as diferentes comunidades. É preciso convencer a comunidade islâmica a isolar aquela gente. Desmantelar uma ou outra célula é relativamente fácil, mas o Abdeslam, que foi preso em Molenbeek, andava lá a passear-se. Até ia ao café de um português. Eles não estão só em casas clandestinas, deviam ir a casa de várias famílias porque são daquela comunidade. Se fosse com portugueses seria a mesma coisa. O grande problema é como levar os responsáveis da comunidade muçulmana a serem mais duros com o terrorismo e a isolá-los.

Isso pressupõe mais exigência no respeito pelas nossas regras?
Claro. Nisso sou muito intransigente. Não podemos estar a aprovar leis sobre a igualdade de género e depois admitir que a mulher, por ser muçulmana, use a burka e o véu. Temos que ser mais exigentes, mas também temos que criar condições de maior igualdade entre as diferentes comunidades porque estão numa situação de grande discriminação social. O Hollande fala de guerra, o Hollande é uma figura que me irrita muito…

Porquê?
Pelo blá-blá, porque tenta aproveitar cada uma destas situações para sair do gueto político em que se meteu, mas depois não se vê nada de concreto. Se há guerra, é uma guerra que a Europa está a perder.

Estamos em guerra?
Não. Tivemos a guerra de 14-18 e de 39--45, são guerras diferentes. Há agora esta guerra de guerrilha. que é de libertação ou é de ocupação?

Tem resposta?
Isso vai depender muito da resposta da Europa e dos seus líderes, que não existem, e também dos novos líderes muçulmanos, que também não têm aparecido.

"Sem ter vivido o que vivi, não teria escrito o que escrevi"

Regressemos à poesia e ao poder da palavra. Acredita mesmo que a poesia antecede quase sempre a revolução, como refere no seu livro?
A poesia é sempre uma transgressão e a grande poesia subverte as várias gramáticas estabelecidas e reinventa a própria palavra dentro da palavra. Acredito na força da palavra poética. O Marcelo disse que esta é uma pátria feita por soldados. Em parte é verdade, mas foi feita também por poetas antes dos soldados. Os grandes poetas portugueses tiveram sempre uma expressão cívica e o maior poema político de Portugal são "Os Lusíadas". O padre António Vieira dizia que a fronteira entre Espanha e Portugal era uma linha matemática. Mais do que essa linha, foi a língua portuguesa consolidada pela expressão poética inigualável de Camões.

O Manuel Alegre é, antes de tudo, um poeta?
Sim, sou antes de tudo um poeta e se não fosse um poeta não me teria metido nos sarilhos em que me meti. Muitas vezes me põem esse problema porque acabei por ter uma marca política maior do que aspirava ou desejava. Foram as circunstâncias da vida, a luta estudantil de Coimbra, a guerra colonial, o sarilho em que estive metido nos Açores e em Angola, a prisão… Está neste livro ("Uma Outra Memória") uma visão poética de Portugal que me levou a um envolvimento em que as duas coisas se misturam. Não é uma divisão, é uma unidade. Sem ter vivido o que vivi, sem ter feito o que fiz, também não teria escrito o que escrevi. Por vezes, o facto de ter uma intervenção excessiva na acção prejudicou a minha actividade poética e o facto de ser poeta prejudicou a minha actividade política, mas isso é a vida. E também o facto de os meus dois primeiros livros terem tido o impacto que tiveram. Também ajudaram a reinventar o mundo.

Decidiram o seu percurso?
Decidiram o meu percurso e também me criaram muitos inimigos. Além dos inimigos normais na censura e na Pide, outros inimigos, porque seitas há muitas e não só na política.

Que tipo de seitas?
As seitas literárias. A repercussão que a "Praça da Canção" e depois "O Canto e as Armas", os livros proibidos a circularem de mão em mão, cópias manuscritas, dactilografadas, os poemas a serem recitados em todo o lado, musicados e cantados, isso cria muitos amigos, muitos leitores, mas também cria alguns inimigos.

O que faz hoje? Como ocupa os seus dias?
Leio. A primeira coisa que faço todas as manhãs é ler os jornais. Arranjo os meus papéis, nem sempre de uma maneira metódica. Não quero deixar coisas que possam ser publicadas sem estarem em condições. Para este livro, tinha um dossiê com textos que vinha organizando há mais de dois anos e depois reli-os e vi que havia uma coerência: a visão poética do país, o poema e a vida, a escrita e a vida, os escritores de quem me senti mais próximo, os homens políticos. Dei prevalência, tirando um caso ou outro, aos que já cá não estão e que tiveram um papel muito importante, por vezes esquecido, na construção da democracia. E ainda um ou outros textos mais recentes que têm a ver com a Europa e com o país.

Escreve muito?
Não sou um escritor de rotinas. Escrevo por ciclos e quando vem um ciclo de escrita, seja de poesia, seja de prosa, escrevo intensamente.

Está num desses ciclos?
Já tive o ciclo intenso, é quando escrevo os primeiros textos, agora estou a trabalhar nisso.

É um livro de poesia?
É um livro de poemas sobre uma figura mal-entendida sobre a qual já escreveram vários escritores, nomeadamente Jorge de Sena, numa peça fantástica, "O Indesejado": António, Prior do Crato, que continua a ser uma figura desconhecida. Foi ao ler "Os Filipes", do António Borges Coelho, que percebi que foi um grande resistente. Viveu um ano em Portugal, com o Filipe de Espanha a oferecer milhares de ducados pela sua captura, e ninguém o denunciou. Há um miúdo no Rossio que, quando passam as tropas espanholas, grita "viva António", e matam-no. Foi um grande símbolo de resistência, mas acabou mal, na miséria. Depois lembrei-me do Humberto Delgado e de outras figuras e de mim mesmo. Há algo de comum entre o António, Prior do Crato, e nós, quer nos momentos de euforia, quer nos momentos de disforia.

E memórias?
É difícil escrever memórias quando se tem uma vida como a minha. Vivi muita coisa e com muita gente conhecida. Uma vez ouvi o Adriano Moreira dizer que as memórias têm um risco que é o da autojustificação e isso, eu não queria. Nem da ocultação nem da autojustificação. Já escrevi muito sobre a minha infância e adolescência, ia na parte da partida para Angola, mas depois surgem as coisas difíceis. As mais fáceis são as literárias. As mais difíceis são certos períodos políticos que envolvem pessoas. Penso deixar isso mais ou menos acabado. É um testemunho que fica. A partir dos anos 60, estive praticamente nos combates todos e vivi tudo a partir do 25 de Abril.

Sobre Mário Soares: "A nossa história de vida foi de grande cumplicidade e refez-se naturalmente"

Teve encontros e desencontros com Mário Soares. O texto que lhe dedica é inédito. Chama-lhe um resumo. O que é que mais apreciou em Mário Soares em todos estes anos?
Tenho vários textos sobre Mário Soares, publicados noutros livros, mas não podia fazer este sem um texto para Mário Soares. Aquilo que mais aprecio nele é uma conjugação da intuição com a coragem. Ele não se perdia em grandes discussões ideológicas. Definia muito bem os objectivos e, normalmente, acertava. Teve três ou quatro para Portugal, bateu-se por eles e ajudou a cumpri-los. Foi uma pessoa de grande coragem. Na resistência ao fascismo, depois, quando o Kissinger disse que era melhor Portugal ser usado como vacina contra o alastrar do comunismo na Europa. Era um voluntarista, mas com sentido da realidade e com a convicção de que podíamos ganhar pela democracia. E ganhámos. Não ganhou sozinho, mas o líder era ele. Essa convicção, a capacidade de agir e a coragem de o fazer, em circunstâncias por vezes muito adversas, é o que mais aprecio.

E o que é que menos aprecia?
Fui muito discreto neste texto porque tivemos uma grande amizade e uma grande cumplicidade. Reencontrámo-nos, mas aquilo que se passou foi muito desagradável. Nem sequer foi o facto de ele ter sido candidato (presidencial) por um lado e eu por outro. O que veio a seguir, para mim, foi mais doloroso. A segunda candidatura. Mas não quero falar mais nisso.

A minha pergunta dirigia-se mais à personalidade…
O outro lado da pessoa, não gostava muito agora de falar nisso porque conheço bem o Mário Soares…

Prefere preservar a vossa história de vida?
A nossa história de vida foi de grande cumplicidade e refez-se naturalmente. Ele tem um instinto vital muito grande. Quando soube, através de um médico amigo, que ele estava mal e provavelmente ia morrer, falei à família, com quem sempre me dei. Ele soube disso e um dia recebi um telefonema. António José Seguro foi o mediador.

Tem estado com Mário Soares ultimamente?
Temos falado ao telefone para não lhe pegar esta gripe! Sei que sou uma das poucas vozes que ele reconhece sempre. É uma coisa que me toca. Isso e ele dizer "quando é que o Manel Alegre está bom? Tenho saudades do Manel Alegre". É recíproco. Depois de tudo o que se passou não era fácil que isso acontecesse, mas aconteceu.

Sobre Álvaro Cunhal: "Hoje, acho que ele sabia que a URSS ia dar uma volta"

A grandeza que reconhece em Álvaro Cunhal pode traduzir-se em quê? O que é que o fascinou?
Tive o privilégio de viver com ele, na mesma casa, durante um certo tempo.

De tal modo, que ele até lhe levou o pequeno-almoço à cama…
Foi uma brincadeira. Tinha adormecido. Eu dormia mais do que ele, o que é natural, porque era mais novo. Mas ele fez aquilo por brincadeira. O que mais me fascinava nele era a persistência, a determinação, uma autodisciplina incrível. Tinha o dom artístico da pintura e da escrita. Sacrificou a sua alma pela disciplina da política.

A racionalidade, a frieza…
Não sei se ele era tão racional quanto isso, mas estive em muitas reuniões e ele dominava. Domesticou-se a si mesmo, contrariou os seus impulsos para ser aquilo que foi: o secretário-geral do Partido Comunista Português. Tinha aquela aparência de dureza mas, conhecido na intimidade, tinha também uma grande capacidade de ternura e de convívio.

Embora esse lado, poucos o tenham conhecido.
É por isso que contei aquilo que se passou na clandestinidade e é menos conhecido. Hoje, acho que ele sabia que a URSS ia dar uma volta. Estava com ele numa rua de Argel quando vi no jornal que o Kruchtchev tinha caído e Cunhal deu-me três ou quatro razões, algumas das quais vieram depois no comunicado. Não quer dizer que ele estivesse a conspirar, mas quer dizer que sabia. Ele esteve ali solitário, a escrever, foram circunstâncias que me permitiram ver um outro lado do Cunhal. Falou do pai, da família, do país. Mas nele, a disciplina prevalecia sobre tudo e, quando era preciso, cortava a direito. Era capaz de uma grande dureza e de uma grande implacabilidade, mesmo em relação aos companheiros.

“Os discursos do Presidente anterior tinham o dom de tornar as nossas almas mais pequenas. (...) Marcelo tem os astros e os ventos a favor”

Olhando para os dias de hoje, como é que vamos de democracia em Portugal?
Não sei, não sei. Neste momento, há um refrescamento da democracia. Fez-se um Governo de convergência de esquerda, que me agrada muito. Temos um Presidente que representa uma libertação em comparação com o Presidente anterior. Os discursos do Presidente anterior tinham o dom de tornar as nossas almas mais pequenas, eram muito chatos, amarfanhantes, não havia um discurso inspirador, que desse horizonte, e isso acabou por enfastiar toda a gente. O Marcelo é o contrário, é um comunicador. Independentemente das posições que venha a tomar, tem os astros e os ventos a favor para liderar o seu partido sem precisar de intermediário e para ter um certo entendimento com a esquerda ao mesmo tempo, sem que isso tenha a forma clássica de um bloco central. É uma fórmula muito original. Agora, o que vai sair daqui no futuro… Irá resistir à tentação de fazer aquilo que Cavaco não fez, de tentar fazer o bloco central? Esse é o grande problema e é a minha preocupação. Penso que ele já entendeu que esse tempo passou porque o que se fez agora mudou toda a gente: mudou a esquerda, o Parlamento, mudou o país que percebeu que as eleições para deputados são mesmo isso, não são uma eleição directa para primeiro-ministro. E mudou também a direita.

Optimista com este refrescamento?
O que é que isto vai dar, não sei. Sei que na Europa faltam líderes políticos, visão política. A Europa é o contrário daquilo que nós quisemos que fosse: um pacto democrático de prosperidade entre nações iguais e soberanas, coesão, democracia, coordenação das políticas económicas. Isso pode condicionar as nossas opções porque não somos um país que vive sozinho.

Que avaliação faz do que António Costa tem feito?
Ele percebeu, a partir da Grécia, que é muito difícil um pais sozinho enfrentar o poder estabelecido sem sair da Europa. Portanto, tentou, por uma porta muito estreita, fazer diferente sem mudar as regras europeias. O problema está em saber se aqueles que mandam na Europa admitem mesmo essa pequena diferença. Continuo com dúvidas.

Como vê o comportamento dos partidos que viabilizaram esta solução?
Penso que estão interessados e empenhados nesta solução ou numa parecida. Ou, pelo menos, em impedir que a direita ultraliberal volte ao poder porque isso foi uma coisa massacrante para os partidos, para os seus eleitorados e para os sindicatos, sobretudo para o eleitorado do PCP. Acho que eles perceberam.

Mas há quem olhe para o BE e para o PCP como rivais que poderão desestabilizar esta solução.
Quem puser em causa esta solução vai pagar um preço muito alto. O PCP é um partido com mais história, mais experiência, mais enraizamento na sociedade, sem desvalorizar a importância do Bloco. Tem sindicatos, câmaras municipais, faz parte do nosso imaginário.

Mas foi o Bloco quem mais cresceu.
Nas presidenciais, houve muito eleitorado da direita que não queria o Marcelo e votou na Marisa Matias. Nas legislativas, houve um eleitorado de centro-direita que passou por cima do PS e foi cair no Bloco. Embora o Bloco tenha tirado também uma fatia ao PS e uma fatia ao PCP, pela primeira vez. O que, com certeza, alertou os responsáveis do PCP. Mas creio que, pela dureza dos últimos quatro anos, pelas responsabilidades que todos tiveram – o PS mas também os outros que ajudaram a direita a derrubar o governo com o PEC IV –, a esquerda ficou com a consciência pesada. Os próprios eleitores enfrentaram os seus líderes nas últimas legislativas, sobretudo o Jerónimo. No comício de Lisboa, eu disse que o Bloco e o PC tinham que decidir se queriam derrotar o PS ou a direita. E em Coimbra lembrei que passaram 40 anos sobre o enfrentamento ideológico PS/PCP e que era preciso enfrentar esse passado. Até lembrei o exemplo do Cunhal quando garantiu a vitória de Mário Soares.

Acha que Jerónimo de Sousa foi sensível a esse apelo da História?
Não sei. Mas sem o Jerónimo era muito difícil isto ter sido feito e o próprio António Costa o compreendeu. Foi a conversa com Jerónimo de Sousa que lhe deu mais energia para avançar. O Jerónimo teve um papel histórico.

Há quem veja nas bases do PCP alguma dificuldade em assimilar estes tempos de cumplicidade com o PS.
Nas bases não direi. As bases do PS e do PCP, em muitos sítios, são muito parecidas. Isso é mais uma velha guarda. Os dois eleitorados sofreram muito nestes quatro anos e interpelavam os seus líderes para derrotarem a direita.

"Tentar novas políticas, mesmo por uma porta estreita, já é uma grande causa"

Este Governo pode durar a legislatura?
Não depende só do Governo. Depende muito de haver, ou não, uma nova crise mundial, do que se vai passar na Europa, da situação de instabilidade financeira, económica, social e de segurança.

Mas naquilo que depender deste acordo à esquerda?
Acho que sim, mas dentro de certos limites.

Podem tornar-se incomportáveis para os parceiros do PS?
Tudo pode ser discutido e explicado, sobretudo se se chegar a uma situação em que ou se mantém isto, mesmo que tenham que se mudar alguns aspectos da política, ou vem outra vez a direita pura e dura. Isso pode ser um cimento. O PS tem a responsabilidade maior porque é Governo, tem que respeitar o pacto que fez com o PCP e com o Bloco e tentar, a pouco e pouco, abrir novos espaços e novos caminhos.

O PS pode deixar-se seduzir por essa ideia de bloco central que alguns acreditam que pode ser estimulado a partir de Belém?
Há uma parte do PS que sempre esteve seduzida, mas que penso que hoje é muito minoritária. A concretização deste acordo de esquerda também mudou o interior do PS. Não acho que António Costa seja um esquerdista. Nem nunca esteve na chamada ala esquerda nos combates que se travaram no interior do PS, embora venha de uma família de esquerda. É um homem de centro-esquerda.

Que pode ser tentado a fazer entendimentos à direita?
Em outras circunstâncias, sim. Depois disto acontecer, acho que ele próprio também mudou.

Está a perder-se a utopia? Faltam mesmo os tais "camaradas dos sonhos" de que fala neste livro?
Os camaradas dos sonhos e os camaradas do não, de que fala Henri Michaux. A utopia às vezes abre as portas ao totalitarismo. A utopia no sentido de mudar o mundo, de melhorar a sociedade, faz falta. Vivemos um momento em que o império do dinheiro, o poder implacável da banca, se sobrepõem a tudo.

Falta sonho às novas gerações?
Falta sonho, horizonte, uma perspectiva histórica, revolucionária. Embora, agora, se comece a recusar o pensamento único, a inevitabilidade das soluções impostas. Já é qualquer coisa.

Faltam causas?
Recusar a inevitabilidade das políticas de empobrecimento dos povos, de redução dos direitos sociais e políticos, de desvalorização do trabalho, recusar isso e tentar novas políticas, mesmo por uma porta estreita, já é uma grande causa.

“Sei que vou morrer e portanto vivo. Não vivo apenas no dia-a-dia. Vivo para depois de amanhã, pelo menos”

O que é que lhe dá hoje mais prazer?
Uma boa conversa, como esta. Ler ou reler um bom livro. Li agora o segundo livro do João Ricardo Pedro, que confirma que tem fibra de escritor. Leio sempre poesia, todos os dias. Reli, há pouco tempo, "A Ilustre Casa de Ramires", que talvez seja o melhor romance do Eça. Lemos aquilo e, no fundo, há algo de estrutural que permanece. Os caciques são diferentes porque naquele tempo eram fidalgos. Dá-me muito prazer caçar. Mais caçar do que pescar porque a pesca que faço exige um grande esforço físico.

A caça também implica esforço.
Implica, mas normalmente vou com um dos meus filhos, que é um grande caçador. A caça já vem do meu pai e do meu avô paterno, Mário Duarte, que vem naquelas revistas antigas como o maior pioneiro do desporto em Portugal e que derrotou várias vezes o rei D. Carlos no tiro aos pombos.

Qual é o prazer desse desporto?
Acho que tudo nasceu da caça. A primeira vez que os homens se juntaram foi para caçar. E depois de caçar queriam contar as suas façanhas e, se calhar, daí nasceu a fala, o teatro, a mímica, a poesia. Gosto do contacto com a natureza, do companheirismo, da surpresa da perdiz que levanta voo. Sou bom atirador. É de família.

O que é que lhe falta fazer?
Falta-me escrever um ou outro livro. Não estou muito inclinado para o romance nem creio que seja verdadeiramente um romancista. Falta-me acabar as memórias, mesmo que não as publique. Talvez as publique por partes. Tenho sempre a esperança de que apareça aquela energia, aquela inspiração ou aquele estado de graça que leve à escrita de um grande poema. No fundo, é o que esperei sempre.

Como é que lida com a ideia de finitude?
É a única inevitabilidade sem solução alternativa e portanto vivo com naturalidade. Nesta idade, pensa-se mais nisso, embora não viva obcecado. Já estive muito perto da morte, quer na guerra, onde vi morrer gente, quer em situações de doença em que estive tecnicamente morto. Sei que vou morrer e portanto vivo. Não vivo apenas no dia-a-dia. Vivo para depois de amanhã, pelo menos.

Se lhe perguntar o que é que foi mais importante na sua história, o que escolheria?
Escolheria alguns livros que escrevi e o facto de não me ter rendido, de ter sido um resistente e de ter escrito alguns livros que tiveram impacto na vida das pessoas, a começar pelo primeiro ("Praça da Canção").