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Manuel Alegre
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Artigo de Manuel Alegre n' A Bola
"Não há impossíveis"
11-07-2016 com "A Bola"

Na edição de ontem do jornal A Bola, dia da final do campeonato europeu de futebol, Manuel Alegre exprimiu um voto: "E agora? Agora apetece-me dirigir-me a Cristiano Ronaldo e a todos os jogadores citando Jean Paul Sartre: agora peçam a Lua, porque é próprio da juventude pedir o impossível. Ora como já se sabe, afinal a Lua não era um impossível. Os que no Domingo vão entrar em campo de quinas ao peito são descendentes dos que desbravaram o mar desconhecido e (...) ajudaram a fazer a Europa". "Não há impossíveis" foi o título premonitório do seu artigo que transcrevemos em baixo.

"Não há impossíveis"

Não peço aos jogadores que pensem nos emigrantes e nos onze milhões de portugueses. Não é preciso. Eles são portugueses como nós. Quase todos foram ou são emigrantes, a começar por Cristiano, não por ter jogado em Inglaterra e agora em Espanha, mas por ter vindo muito miúdo para Lisboa, onde chorava com saudades da família. Todos sabem o significado dessa palavra, a saudade portuguesa que, segundo Teixeira de Pascoaes, é sobretudo a saudade do futuro. Alguns são filhos de emigrantes, nasceram em França ou na Alemanha. Muitos jogam lá fora, são portugueses das sete partidas.

Não lhes peço nada, porque eles já fizeram o impossível, já conquistaram a Torre Eiffel, que teve de ser iluminada com as cores de Portugal (1). Por isso eu percebo as lágrimas dos emigrantes de primeira geração, de que falou Vítor Serpa. Eu próprio não consegui contê-las. Claro que há um inteligente a desancar o” patriotismo patético”. Mas esse nunca teve de passar a fronteira a salto como centenas de milhar nos anos sessenta, a maioria em busca de trabalho, outros para fugirem à guerra colonial, outros ainda, como eu, para não serem presos pela PIDE. Sim, eu ainda vi os portugueses a viver em condições infra-humanas nos bidonvilles de Paris, ainda vi a minha Pátria derramada na Gare de Austerlitz.

Por isso todos nós, os que então tivemos que dar o salto, estamos gratos à selecção que obrigou a iluminar com as cores de Portugal a Torre que é um símbolo de Paris. Todos tivemos direito a uma lágrima por aquilo que nesses tempos distantes parecia impossível. A Torre já está.

E agora? Agora apetece-me dirigir-me a Cristiano Ronaldo e a todos os jogadores citando Jean Paul Sartre: agora peçam a Lua, porque é próprio da juventude pedir o impossível. Ora como já se sabe, afinal a Lua não era um impossível. Os que no Domingo vão entrar em campo de quinas ao peito são descendentes dos que desbravaram o mar desconhecido e, com as suas navegações, como disse Jean Pierre Chevènement, com os italianos do Renascimento, os ingleses da Magna Carta e da revolução industrial e os franceses da Grande Revolução, ajudaram a fazer a Europa.

Não somos europeus de segunda como pensam lá mais ao norte e até na própria França, onde uma certa imprensa não nos perdoa termos um jogador da dimensão de Cristiano. A Torre está conquistada, a Lua afinal não era um impossível, dobrar o Cabo das Tormentas também não, a Selecção da França ainda menos. Portanto, Mister, diga lá aos rapazes que não há impossíveis, joguem futebol, joguem à bola e ganhem à França.

Manuel Alegre, A Bola, 10.7.2016

(1) A Torre Eiffel esteve com as cores de Portugal depois da vitória nas meias finais. Depois da final em que Portugal se sagrou campeão, tal não voltou a acontecer.