Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na entrega do Prémio Camões 2017:
"Acredito na força mágica, insubmissa e libertadora da palavra poética"
02-02-2018 Manuel Alegre

Por mais estranho que pareça o povo anda na rua a falar Camões. Fala nas ruas de Portugal. Mas também nas ruas do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Timor e São Tomé e Príncipe. Não tem consciência disso, não sabe que há um Acordo Ortográfico e também não precisa dele. Mas fala Camões, quero dizer: fala a língua portuguesa.

Porque, além de escrever a epopeia que fundou a identidade cultural dos portugueses, uma epopeia em que os heróis não são figuras míticas, mas “homens de carne e osso”, como diria António Sérgio; além de ter criado uma nova e fantásticas linguagem poética a que Eugénio de Andrade chamou “festa da língua”, Camões consolidou, como gostava de dizer Mário Cesariny, a língua portuguesa tal como nós hoje a escrevemos e falamos. Essa é a língua que anda pelos cinco continentes, língua de diferentes identidades e culturas, em que as vogais, como já tenho dito, não têm todas a mesma cor. E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam.

Quando os poetas brasileiros chegaram à minha geração, tiraram a gravata aos poemas que então escrevíamos. Traziam outra frescura, uma linguagem menos convencional e mais despojada, “Uma faca só lâmina”, a” Rosa do povo” e também “As três mulheres do sabonete Araxá”. Começámos a lê-los e às tantas estávamos em mangas de camisa a caminho de Pasárgada. Era a mesma língua e era outra. Una e diferente.

Esta é a língua que o Prémio Camões pretende celebrar. E por isso hoje eu me sinto “um bicho da terra tão pequeno” ao receber o galardão que tem o nome do poeta que é o símbolo de uma das línguas mais faladas do mundo. E que foi o primeiro poeta europeu, como assinalaram Agostinho de Campos e Hélder Macedo, a contactar outros continentes, outros povos e outras culturas, o que veio dar outra abertura e outra dimensão cultural aos Lusíadas e à própria língua. Língua de cuja poesia se pode falar de uma tradição cívica. Desde Sá de Miranda e Gil Vicente, até ao próprio Camões:

“Leis em favor do rei se estabelecem
As em favor do povo só perecem”.

E ainda, num célebre soneto:
“Cá onde o mal se afina e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania,
Cá onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana”.

Cantores da liberdade foram os grandes poetas do século XX, de Miguel Torga e José Régio a Sophia de Mello Breyner passando por Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neil, António Ramos Rosa, Natália Correia, David Mourão Ferreira, Mário Cesariny e quase todos da geração seguinte. Muitos sofreram a prisão. Afonso Lopes Vieira diria que não seriam dignos de Camões os poetas portugueses que não passassem pelas prisões.

Eu sinto-me herdeiro desta tradição. Acredito na força mágica, insubmissa e libertadora da palavra poética. Sem esquecer a oralidade, a sonoridade, e o ritmo que é a própria essência do mundo. Cada língua tem a sua música secreta. “Há só mar no meu país”, escreveu o poeta Afonso Duarte. E um poeta angolano caracterizou a língua portuguesa como língua de viagem e mestiçagem. E eu acrescento: rio de muitos rios, pátria de muitas pátrias.

Houve o português de múltiplas tiranias e de várias resistências. O português da opressão e o português da libertação. Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e a dizer as suas identidades, nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Que Brasil mais brasileiro do que o que vem de Castro Alves a João Cabral de Melo Neto, passando por Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, sem esquecer a prosa de Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Lígia Fagundes Teles?

Recorde-se que já no século XIX Almeida Garrett escrevera uma Ode ao Brasil liberto em que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”.

Nesta era da globalização e de um novo bezerro de ouro, em que o poder financeiro impõe a sua hegemonia sobre a política, a democracia, a cultura e os próprios Estados, a literatura e, em especial, a poesia, podem ser ainda um território de resistência contra o pensamento único e de defesa da liberdade de escolha de cada povo.

Creio que nenhuma revolução na poesia constituiu em si mesma uma revolução política. Mas nunca houve revolução política sem uma poética da revolução. Talvez a crise actual necessite de novo da voz dos filósofos e dos poetas. Neruda foi talvez o mais político dos poetas modernos. Mas os seus poemas de amor tiveram provavelmente mais influência revolucionária do que os seus poemas políticos. Em Portugal, durante a ditadura, a poesia teve sem dúvida uma influência política. Às vezes só pela beleza e novidade da linguagem poética. E também através do canto. Isso é inegável.

Rimbaud acreditava que pelo poder da palavra poética se pode mudar a vida. E Camões disse que “em se mudando a vida/ se mudam os gostos dela”. Breton buscava a palavra primordial. Creio que desde então, desde essa palavra antes da palavra, a linguagem poética, nas suas múltiplas declinações, não tem feito outra coisa senão transformar o homem e o mundo.

Sou desta herança poética e cívica. Quero manifestar o meu reconhecimento a todos os membros do Júri que me consideraram digno de receber o Prémio Camões. Não posso esquecer, neste momento, os que me ajudaram a vencer a censura salazarista, fazendo circular cópias dactilografadas ou manuscritas dos livros apreendidos, os que declamaram, musicaram e cantaram os poemas proibidos, assim como os que, já em democracia, sobre mim escreveram textos fundamentais para ultrapassar outras formas de sectarismo literário e político, como entre outros, os ensaios de Eduardo Lourenço, Victor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira e Paula Morão, como hoje se viu mais uma vez, com uma magnífica e sábia intervenção que do coração agradeço. Uma palavra sentida para os meus leitores. O Prémio também é deles.

Sou desta língua que é a minha pátria e em que os seus poetas, a começar por Camões, cantaram a “lusitana antiga liberdade”, mesmo quando o povo português era um povo oprimido. Língua da liberdade resgatada pela revolução de 25 de Abril de 1974, nessa “madrugada inteira e limpa”, como a cantou Sophia, que eu tanto gostava de ter hoje aqui connosco.

Palácio da Ajuda, Lisboa

Manuel Alegre