"De cada vez que o Parlamento cede ao populismo, este não agradece, reforça-se"
Manuel Alegre
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Discurso no Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa
02-10-2018
Intervenção integral

É com uma certa aflição que me apresento hoje perante vós. Grato e comovido.
O grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa que o Magnifico Reitor me atribuiu representa para mim uma honra de grande significado. Mas deixa-me em grande desassossego porque me obriga a ser mais do que eu próprio. E é, ao mesmo tempo, um reconforto moral para quem, por circunstâncias históricas conhecidas, bem cedo na vida se viu privado de universidade e de país. De certo modo é um regresso à universidade, não à de origem, de que fui obrigado a exilar-me, mas à antiquíssima Universidade de Lisboa, a que peço licença para, a partir de agora, sem esquecer a raiz, considerar também a minha.

É um privilégio ser apresentado pela Professora Doutora Paula Morão, grande referência da Faculdade de Letras de Lisboa, da crítica textual e das relações entre a literatura e as artes. Personalidade multifacetada e de grande determinação intelectual e cívica, há nela uma paixão que se desdobra em várias: a Universidade, o gosto de ensinar, os seus alunos, a literatura. É um privilégio ser lido por ela e, sobretudo, ser interpretado e compreendido pela sua inteligência crítica. Figura cimeira da nossa vida universitária e literária, tem a autoridade natural do saber e do talento. Além da sua conhecida frontalidade, que é um dom cada vez mais raro.

Os poetas precisam de quem os saiba ler assim
Sei que era preciso coragem para escrever sobre mim no tempo da censura, como fez Urbano Tavares Rodrigues, que foi o primeiro a dar notícia de Praça da Canção no jornal República. Mas também foi preciso outro tipo de coragem para me ler sem complexos nem inibições, depois do 25 de Abril, em tempo de novos sectarismos e classificações redutoras. Paula Morão não se deixou impressionar. Outros, felizmente, também não. Para só citar dois nomes incontornáveis, devo a Eduardo Lourenço o prefácio que marcou um virar de página e assinalou a nostalgia da epopeia nos meus primeiros livros; e devo a Vítor Aguiar e Silva uma leitura que abriu novos horizontes e deixou um texto incomparável sobre Senhora das Tempestades.

Paula Morão restituiu-me uma visão da minha escrita toda, poesia, prosa, arte poética. Ela vê o que está escondido e, como diria Alexandre Blok, ouve a música do Mundo dentro das palavras. Os poetas precisam de quem os saiba ler assim.

Devo-lhe a sábia argúcia com que, pela primeira vez, alguém falou de “a face dupla”. Não apenas a parte combativa e épica, mas a outra, aquela em que diz que, na sombra, há um ser lunar, intímo, secreto, elegíaco. Creio que esta visão inovadora é essencial, porque é aí, nesse lado mais secreto, que fica a morada da poesia.

Ela soube ler, desde o início, a pergunta sobre “o que somos nós” e descortinou para lá do óbvio “o outro lado” e “os outros campos onde se travam outras batalhas” que não são senão a busca do sentido.

A Paula Morão eu devo ainda uma leitura a que chamo libertadora. Ela exalta e reconhece a importância dos meus primeiros livros. Mas não se cansa de acentuar que eu não sou só o poeta de Praça da Canção de que quase me tornaram prisioneiro. Paula Morão vê muito para além e sabe e sublinha que a maturidade virá mais tarde, quer na prosa quer em poesia. A leitura da Professora Doutora Paula Morão significa para mim uma recompensa para incompreensões várias e uma outra forma de reencontro com a Universidade.

Discutir com a Lua
Vivi sempre a um certo ritmo. Um ritmo de escrita e de acção. E se o ritmo é uma visão do mundo, como escreveu Octávio Paz no seu O Arco e a Lira, ambos estiveram sempre ligados em mim a um grande sentido de urgência. Sempre que ouvia dizer que a paciência é revolucionária, eu retorquia que revolucionária só a impaciência.

Em certas noites, apetecia-me, como a Garcia Lorca, discutir com a Lua. Era a inquietação. Ou o duende. Ou talvez os sons negros de que falava um cantador de flamenco amigo do Poeta. Havia no ar um apelo e demasiados chamamentos. Sinais de mudança. Uma guitarra inconcreta. Uma música da língua a que procurava dar forma.

Mesmo sem ainda conhecer o ABC de Ezra Pound, eu lia os trovadores e os cancioneiros e aqueles versos cantavam dentro de mim. Ou então Camões. E começava a escrever e caminhar ao ritmo da incomparável linguagem poética que ele fundou e cujos sonetos, na opinião de Eugénio de Andrade, são ainda o livro mais actual da poesia portuguesa.

E também Rilke e Hölderlin, graças a Paulo Quintela, que foi um dos meus mestres. Tudo se misturava nessas leituras caóticas: os portugueses, antigos e modernos, desde os cancioneiros a Cesariny. E ainda Lorca, Éluard, François Villon, até à fundamental descoberta de Homero, Vergílio, Dante, Petrarca e Shakespeare.

Para já não falar da revolução que foi ler os poetas brasileiros, que traziam a língua sem gravata e em mangas de camisa. Tudo isto se passava, como é óbvio, à margem do estudo de Direito. Um dia o Reitor Braga da Cruz veio pedir-me para eu ligar mais ao curso.
- Ligo imenso, Magnifico Reitor, mas não tenho tempo.

E não tinha. Era a natação, o teatro (CITAC e TEUC), o jornal A Briosa, a Vértice, os amores, a poesia, a política e o movimento estudantil, que viria a ser um elo de ligação entre as três universidades do país. E ainda as vindas a Lisboa, por causa do Decreto Lei 40.900, com que o Ministro da Educação Leite Pinto visava aniquilar a autonomia das Associações de Estudantes. Vínhamos de Coimbra reunir na Faculdade de Direito com os líderes da época. Foi o início de um novo período histórico do movimento estudantil. Acusava-se o ministro de querer integrar as associações na Mocidade Portuguesa.

Em Coimbra, subia-se de tom e acrescentava-se que até se pretendia acabar com a equipa de futebol da Académica. Levantamento na Academia e na cidade. Grande manifestação de rua e o decreto acabou por ficar na gaveta.

António Sérgio, sempre atento, publicou um opúsculo em que alertava Coimbra para os riscos do isolacionismo. Ninguém devia fechar-se em si mesmo. Era hora de abertura e solidariedade entre todas as Academias.

Foi com esse espírito que mais tarde viemos a Lisboa celebrar o Dia do Estudante. Houve um comício no Pavilhão dos Desportos e à noite jantámos na cantina universitária cercados pela polícia. Recordo estes episódios, porque eles ligam à Universidade de Lisboa o estudante de Coimbra que então eu era.

Cada um de nós tem várias vidas
Com o começo da guerra colonial o ritmo da História, da vida, e também da morte, acelerou. É difícil explicar aos jovens de hoje o que significou para a minha e outras gerações. Carreiras interrompidas, vidas destruídas e mutiladas, o dilema de ir à guerra ou emigrar. Os milhares que foram para a Europa. Os milhares que partiram para África. Eu fui. Estive na guerra.

Ouvi o assobio da bala. Escrevi os primeiros poemas sobre a guerra. E atrevi-me a dizer logo no primeiro livro: Meu poema rimou com minha vida.

Aprendi que cada um de nós tem várias vidas, vários eus, vários outros. Uma espécie de íntima heteronímia. É talvez o sentido do célebre verso de Rimbaud: Je est un autre.

Hoje quando me revejo na guerra, na cadeia, no exílio, ou a passar clandestinamente fronteiras, tenho a sensação de ter sido um outro ou outros. Mas fiel àquele que, aos 26 anos, tinha escrito: Meu poema rimou com minha vida. Ouso pensar que essa coincidência entre vida cívica e escrita é, por ventura, um dos motivos da tão honrosa distinção por parte da Universidade de Lisboa.

Não apenas pelos dois primeiros livros, Praça da Canção e O Canto e as Armas, que foram, como se sabe, apreendidos, e circularam em cópias dactilografadas e manuscritas, assim como as canções e recitais a que deram origem. Foi um contexto especial, talvez irrepetível, o que explica que José Carlos de Vasconcelos tenha intitulado o seu prefácio à edição dos 50 anos de Praça da Canção: Quando a Poesia faz e se faz História.

Passada essa época, a intervenção cívica na vida democrática normalizada nem sempre foi estimulante, embora tenha muito orgulho em ter sido deputado constituinte, redactor do preâmbulo da Constituição e de ter dado o meu contributo para a consolidação da Democracia. Nunca abandonei a convicção de que, pela palavra poética, pode sempre criar-se, como dizia Teixeira de Pascoaes, "a terra do outro mundo". E também nunca deixei de ter, embora peça desculpa de me repetir, uma visão poética de Portugal, uma visão integradora, em que se misturam poemas, batalhas, revoluções.

Quando voltei do exilio, o funcionário que me fez o passaporte atribuiu-me, sem me perguntar, a profissão de poeta. Foi uma homenagem bonita. Gostaria, no entanto, de lembrar que também escrevi romances, alguns com dezenas de edições, contos, ensaios. Ao contrário de Fernando Pessoa, não coloco a prosa acima da poesia, nem penso que se possa reduzi-la a “poesia rimada e ritmada”. Mas também não vejo a poesia como saudade da prosa. Uma e outra são escrita, cada uma com o seu tempo e a sua toada.

Eu sei que o sentido do poema é o próprio poema. Mas ninguém está fora da história. Ninguém foge a um outro sentido que tem a marca do seu tempo. Muitas vezes me perguntam porque é que, sendo poeta, eu me envolvi na política. E eu respondo: por isso mesmo.

Como escritor fui sempre um solitário
Embora tenha sido, por diversas razões, uma figura pública conhecida, como escritor fui sempre um solitário. Nunca pertenci a nenhuma corrente, a nenhum café literário, a nenhum grupo. O que tem os seus custos. Mas escrever, para mim, foi sempre um estado de graça. Mesmo nas situações mais difíceis, guerra, prisão, exílio e o irremediável de muitas despedidas e muitas mortes.

Em cada poeta está toda a história da poesia e, de certo modo, de todas as línguas, a começar pela Epopeia de Gilgamesh, a primeira grande interrogação que um poeta gravou na pedra sobre o sentido ou o sem sentido de um destino que continua a não ser revelado. Todos somos herdeiros desse poeta desconhecido. E também de Homero e da Odisseia que é, por excelência, a metáfora da errância do Homem e da busca de uma Ítaca perdida que só existe dentro de si mesmo.

A História acelerou outra vez, mas em sentido contrário
Vivemos um período em que a única certeza é a incerteza. A História acelerou outra vez. Mas em sentido contrário. Parafraseando Milan Kundera, o esquecimento está outra vez a vencer a memória. O populismo é o novo fantasma que ameaça a Europa e o Mundo. Nasceu da hegemonia cultural do poder financeiro globalizado. Ressuscitou de velhos preconceitos e novas capitulações.

Creio que é num tempo assim que os poetas, escritores e filósofos são mais precisos.
Para sacudir a anomia, como fez Antero de Quental. E escrever Sol, como Ramos Rosa.
Para proclamar que os Estados não podem ser aprisionados pela mão invisível do mercado e por interesses que se sobrepõem ao interesse geral.

Para chamar a atenção dos distraídos, como fizeram Miguel Torga e Natália Correia, quando vieram avisar que o Tratado de Maaschtricht significava a vitória do neoliberalismo sobre o modelo social europeu.

Há uma crise de convicções e é preciso reforçar na Europa e no Mundo os valores da democracia e da coesão social para combater o racismo, a xenofobia e o renascer da linguagem e dos tiques do fascismo que, em certos países, já contaminam o poder. Por isso me congratulo com a excepção boa que Portugal é hoje e aplaudo a posição e as palavras do Presidente da República nas Nações Unidas. A presença das mais altas figuras do Estado é um reconforto e um estímulo para quem acredita que as nossas principais forças são a língua, a História e a cultura.

A pequena ou grande revolução que a escrita pode fazer é reabilitar a força libertadora da palavra. E só por ela se pode reconquistar a perdida beleza da palavra do homem. É por isso que os clássicos não podem ser retirados do ensino público.

Sou deste nosso dever falar quando os outros se calam
Quando estava no exílio, lia muitas vezes um pequeno texto de Mallarmé, que vou tentar traduzir: Fechei o livro e os olhos, e procuro a pátria. Diante de mim ergue-se a aparição do poeta sábio que me a indica (fim de citação).

Não sou capaz de optimismo beato. Procuro sempre a aparição do poeta sábio. O meu optimismo está na flor do verde pinho do rei D. Diniz; no Sol é grande de Sá de Miranda; no Auto das Barcas de Gil Vicente, nas Crónicas de Fernão Lopes, cresce com toda a obra de Camões e vem por aí fora até ao Frei Luís de Sousa de Garrett, aos Sonetos de Antero, às virgens que passam ao sol poente de António Nobre, ao Sentimento de um Ocidental de Cesáreo Verde, ao só, incessante, um som de flauta chora do incomparável Camilo Pessanha, a Fernando Pessoa ele próprio e os heterónimos, ao nunca descrer do chão duro e ruim de Miguel Torga, ao não vou por aí de José Régio, às palavras mordidas uma a uma de Eugénio de Andrade, à pequena luz bruxuleante de Jorge de Sena, ao porque os outros se calam mas tu não de Sophia, e ao entre nós e as palavras o nosso dever falar de Mário Cesariny.

Sou desta língua e destes poetas e é a eles que me dirijo para que me indiquem e, ás vezes, me restituam a Pátria. Sou deste nosso dever falar quando os outros se calam. E daquela madrugada que todos esperámos e é preciso não deixar anoitecer. Sou desta herança poética, ética e cívica.

Sou desta língua que foi ao mar, descobriu outras línguas e, transformando-as, a si mesma se transformou. Una e diversa, dela nasceram a grande literatura brasileira e também a angolana, cabo-verdiana, moçambicana e de todos os países que falam e escrevem o português. O português que foi língua de múltiplas tiranias e várias resistências, língua de opressão e de libertação, e também aquela em que novas nações proclamaram a sua independência.

Há dois revisionismos que é preciso combater
Há dois revisionismos que é preciso ter a coragem cultural de combater: o primeiro é o que pretende negar a grandeza das navegações portuguesas que deram origem à primeira globalização da História; o outro é o que tenta redimir o colonialismo e branquear a ditadura e a guerra colonial.

Lembro, neste momento, os que lutaram pela liberdade, deram tudo e nunca pediram paga, como Sophia disse de Salgueiro Maia. Lembro-os com respeito, e penso no grande herói de Homero, que não é Ulisses, e muito menos Aquiles, mas Heitor, o que travou até ao fim um combate desigual pela sua cidade de Troia e é o único vencido eternamente vencedor.

Uma saudação especial aos Presidentes das Câmaras Municipais de Águeda e Coimbra, cuja presença muito me sensibiliza. Um abraço agradecido a Diogo Dória e a Cristina Branco.

Uma palavra de muito afecto para os que me ajudaram a ser quem sou, a parte da família que já cá não está e a minha mulher e meus filhos. Sem esquecer os meus leitores e todos os que ao longo dos tempos foram lendo e escrevendo sobre os meus livros.

Já não aspiro, como Mallarmé, a escrever o Livro que seja o duplo do Universo. Mas espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.