"Nada está adquirido, tudo está a andar para trás muito depressa"
Manuel Alegre
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Maria Teresa Horta
10-05-2019 Manuel Alegre , Congresso Internacional dedicado a Maria Teresa Horta

"Senhora da liberdade, não apenas pelas Novas Cartas Portuguesas, em parceria com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, mas pela energia poética que traz dentro de si e lhe permitiu escrever pela primeira vez o que até então era proibido e ninguém imaginaria que pudesse vir a ser escrito por uma mulher." (...) "Dir-se-á que a revolução sexual está feita e a liberdade consagrada na Constituição. Mas eu creio que nada está adquirido, porque tudo está a andar para trás muito depressa."

Texto integral da intervenção

João Cabral de Melo Neto refere épocas em que a criação está subordinada à comunicação e em que inspiração e trabalho artístico não se opunham essencialmente. E contrapõe-lhe certos poetas de hoje que falam sozinhos de si mesmos, de suas coisas secretas sem saber para quem escrevem e para se refugiarem num pequeno clube de confrades.

Em Maria Teresa Horta conjuga-se a exigência da expressão com o dom da comunicação. Mas ela não corta com a rua nem com os homens nem com a vida. E por isso os seus livros chegaram às pessoas, contagiaram, subverteram e incomodaram. Se assim não fosse não seriam perseguidos.

Mas eu creio que, mais do que a teoria da composição do grande poeta brasileiro, a escrita de Maria Teresa Horta está mais perto do Jogo e Teoria do Duende de Federico Garcia Lorca, esse fabuloso ensaio em que o poeta nos diz que o anjo e a musa vêem de fora, mas «o duende sobe por dentro, desde a planta dos pés». E por isso é que ela escreve: “Eu sou aquela que mata/ quando morre de paixão”.

Eu sempre vi a Maria Teresa enduendada. A sua escrita é uma sublevação de linguagem, uma insurreição poética e, de certo modo uma revolução moral, porque restituiu às palavras a sua verdade e ao corpo o seu direito à santidade do prazer.

Arrancou as vendas, libertou os sentidos, celebrou a conjugação dos corpos, numa sagração poética onde não há interditos nem tabus. E chamou as coisas pelos seus nomes, dizendo o nunca antes dito, pela força da poesia em estado puro.

Sei o que estes poemas significaram para muitos de nós quando éramos novos e acreditávamos que pelo milagre da poesia se podia mudar o Mundo. Mas sei também que lhe custaram o mau olhado daqueles que trazem o pecado no corpo e na alma e por isso lhe moveram perseguições e censuras baixas.

Ela disse vulva e pénis e orgasmo. E isso arrancou as máscaras à hipocrisia, desarrumou as normas da linguagem e das regras estabelecidas, dinamitou os interditos e libertou as palavras do corpo. Houve quem percebesse que estava a fazer uma revolução. Não só aqueles que eram então os donos da moral, do poder e da censura, mas também os que ao sectarismo vigente contrapunham as mesquinhas lógicas das suas pequenas seitas. Não há só aparelhos no Estado e na política, também os há nas artes, muito especialmente na literatura. Mas ela estava antes e depois e acima. Senhora da liberdade e da poesia, como aquela sua avó, a quem consagrou um dos mais belos romances que em português foram escritos.

Senhora da liberdade, não apenas pelas Novas Cartas Portuguesas, em parceria com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, mas pela energia poética que traz dentro de si e lhe permitiu escrever pela primeira vez o que até então era proibido e ninguém imaginaria que pudesse vir a ser escrito por uma mulher. Ora é minha convicção que só uma mulher poderia cantar assim o erotismo, nomeando o corpo como ela nomeia, desvendando o prazer como ela desvenda, às vezes quase como quem reza, porque o erotismo é também ascensão e espiritualidade.

Dir-se-á que a revolução sexual está feita e a liberdade consagrada na Constituição. Mas eu creio que nada está adquirido, porque tudo está a andar para trás muito depressa.

Por isso precisamos da força e da energia que estão na escrita de Maria Teresa Horta. A força da palavra poética, que é a expressão da nossa alma e da nossa identidade. A energia daqueles “sons negros” de que falava o cantador de flamenco Manuel Torres, citado por Lorca. “Sons negros que atrás de si têm em meiga intimidade os vulcões, as formigas, os zéfiros e a grande noite que aperta o cinto com a via láctea.” Os sons da poesia que Maria Tereza Horta traz dentro de si, lá onde ela é “da ordem lunar/ do espaço errante”.