"Nada está adquirido, tudo está a andar para trás muito depressa"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre o livro "Peço a Palavra" de Alberto Martins
"Pedir a palavra num país amordaçado foi um acto de libertação"
20-05-2019

Pedir a palavra num país amordaçado é em si mesmo um acto de libertação. Pedir a palavra ainda que a seguir não tenha sido possível dizer mais nada é um acto que simbolicamente liberta a palavra. Isso foi o que aconteceu a 17 de Abril de 1969 na inauguração do novo edifício de Matemáticas da Faculdade de Ciências de Coimbra. O Presidente da AAC, Alberto Martins, pede a palavra ao Chefe de Estado para falar na sessão solene em nome dos estudantes de Coimbra. A palavra acaba por não lhe ser concedida. Mas ele tinha-se levantado e tinha dito: “Peço a palavra.”

Imagino a sua solidão naquele momento, mesmo que rodeado e apoiado por milhares de estudantes. Aquele gesto, como todos os que abalam a História, foi de quem se levantou e disse: “Peço a palavra.”

É certo que em nome dos estudantes de Coimbra. Mas, naquele breve momento, que de certo modo durou uma eternidade, o Presidente da AAC estava só perante si mesmo e em frente do Chefe de Estado e dos altos dignatários do regime que o acompanhavam. Esses são os momentos em que o sentido de dignidade cívica consegue sobrepor-se ao medo e à inibição. Peço a palavra. E não foi preciso dizer mais nada. O tabu tinha sido quebrado. E já não era só um a pedir a palavra. Eram milhares. Não só em Coimbra. Mas em todas as Universidades. E até na rua. Peço a palavra. E a palavra libertou-se, subverteu, insurreccionou os espíritos, afrontou o poder cara a cara, olhos nos olhos.

Foi uma viragem histórica no movimento estudantil e na própria luta do povo português pela liberdade.

Eu não estava em Coimbra. Também pedi e usei da palavra aos microfones de A Voz da Liberdade, a partir de Argel. Com outros companheiros publicámos brochuras em francês e inglês, com fotografias de Coimbra ocupada pela polícia. Levámos o “Peço a palavra” para outras línguas e outros países.

Escrevi então “Flores para Coimbra”, que na voz de António Bernardino seria outra forma de pedir a palavra na poesia e no canto.

Confesso que não tinha compreendido certos aspectos da crise de 1969. Já o tinha feito notar a Alberto Martins. Por exemplo: quem estava fora não percebia que não se tivesse abordado a Guerra Colonial.

Ao ler este livro e toda a documentação que contém entendi melhor a diferença entre a crise de 69 e as anteriores. Menos radical no discurso e nas palavras de ordem, foi mais abrangente e maior na mobilização. E porquê? Porque a luta de 69 pôs o acento tónico, não já no próprio movimento estudantil, mas na universidade e nos problemas concretos do ensino e dos estudantes.

A crise de 1956 e a autonomia associativa
A primeira crise académica foi a do decreto-lei 40.900, com que o Ministro da Educação, Leite Pinto, ameaçou a própria autonomia das associações de estudantes. Suspeitava-se que o objectivo era integrá-las na Mocidade Portuguesa. O que estava em causa era a própria existência das associações. O Movimento, em Lisboa, era mais organizado e mais politizado, mas também ideologicamente mais marcado.

Em Coimbra, pelo facto de haver uma única associação, a mobilização foi mais fácil. Menos ideológica, menos radical. Chegou a dizer-se que o objectivo do Governo era acabar com a equipa de futebol da Académica. Grande indignação entre estudantes e população. De tal modo que se realizou a maior manifestação até então vista em Coimbra. E a própria direcção da AAC, afecta ao regime, não teve outro remédio senão desfilar à frente da manifestação de bandeira desfraldada.

António Sérgio, sempre atento, publicou uma brochura em que criticava a posição do governo e apoiava a luta estudantil. Mas pedia a Coimbra para não se fechar em si mesma porque a causa estudantil era nacional.

Seja como for, a manifestação de Coimbra foi decisiva. O decreto ficou na gaveta e foi a primeira vez que, numa luta aberta, o governo teve de recuar. Até porque, como demonstra o discurso de Daniel Barbosa, na chamada Assembleia Nacional, o decreto estava a merecer críticas e causar divisões dentro do próprio regime.

A crise de 62 e a guerra colonial
A crise de 62 começa com a eleição de uma direcção democrática para a AAC, presidida por Carlos Candal. Esse facto libertou a academia da tutela do governo e da direita e deu início ao movimento estudantil de âmbito nacional, com frequentes reuniões das três academias. A direita mobilizou-se em força. O movimento radicalizou-se em defesa da liberdade das associações estudantis e das liberdades democráticas. Pela primeira vez criticou-se publicamente a Guerra Colonial. A repressão foi brutal. Centenas de estudantes foram presos em Lisboa e em Coimbra. Os dirigentes de Coimbra mais conhecidos, entre os quais o novo Presidente eleito, José Lopes de Almeida, o que lhe sucedeu, Jorge Aguiar, Carlos Candal, eu próprio e dezenas de outros fomos mobilizados para a tropa e para a Guerra Colonial. Foi um grande movimento, que abalou o regime e a classe média.

A crise de 69 e a grande mobilização estudantil
A crise de 69 teve, talvez, uma maior amplitude de massas. A razão está bem explicada e documentada neste livro. Como escreve Alberto Martins: “A direcção do movimento estudantil em Coimbra em 1969 tinha a consciência de que qualquer tentativa de mobilização mais directamente anti-colonial incorporaria uma vanguarda, uma minoria, capaz de uma acção política pontual relevante mas incapaz de mobilizar a generalidade dos estudantes como o fizemos. A mobilização e política estudantil, sempre em crescendo, foi feita a partir das questões que directamente diziam respeito aos estudantes, aos cursos, à Faculdade, à Universidade.” (fim de citação).

Isso vê-se nos próprios cartazes e palavras de ordem. O movimento estudantil de 1969 teve a duração que teve e foi um dos factores que contribuiu para o colapso do antigo regime porque não foi excessivamente politizado como foram as greves estudantis anteriores.

Mas foi assim, com a consciência política aprofundando-se dentro do processo, e não imposta de fora para dentro, que se tornou possível alargar a base do movimento até ao extraordinário êxito da greve aos exames, em que milhares de alunos foram solidários e tomaram a difícil decisão de preferir reprovar do que capitular.

Além do papel essencial das repúblicas, dos organismos autónomos e da própria equipa de futebol da Académica, importa destacar a participação das mulheres.

Li, com particular emoção, a narrativa do final da Taça de Portugal. Ouvi o relato do jogo, com um transístor, junto ao mar, numa praia de Argel. A minha ansiedade era tão grande que, às tantas, estava rodeado de dezenas de argelinos a quem ia explicando o que significava aquele desafio. Pese embora a fama que o Benfica tinha, acabaram todos a torcer pela Académica.

Enfim, este é um livro que contém uma documentação importantíssima para compreender aquele tempo, aquele regime e aquela luta. Seria bom que fosse recomendado para as escolas. Os estudantes de hoje devem saber o que era a Universidade da ditadura e o preço que foi preciso pagar para vivermos num país livre. Precisam de saber que as gerações de 62 e 1969 estavam a lutar pelas gerações futuras.

Essa a importância deste livro. Quando em 17 de Abril de 1969, o Presidente da AAC pediu a palavra, estava também a pedi-la por aqueles que ainda não tinham nascido. É um momento que fica para sempre. Há circunstâncias em que é preciso que alguém se levante e peça a palavra. Sempre que o fizer por uma causa justa estará a pedi-la por todos nós. Como fez Alberto Martins em 17 de Abril de 1969.