"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
1º de Dezembro em Santo Aleixo da Restauração
01-12-2019

É uma honra estar convosco neste dia em Santo Aleixo, que é solo sagrado da Pátria. Há poucas terras onde o 1.º de Dezembro possa ser celebrado com tanta legitimidade como em Santo Aleixo que, antes de ser da “Restauração” por decreto de 1957, já era da Restauração pelo sacrifício e o sangue do seu povo. Felicito a Junta de Freguesia e o povo de Santo Aleixo por saberem preservar esta memória que é parte integrante da nossa identidade.

Mas vamos ao princípio. E o princípio é Alcácer-Quibir. Perdeu-se o Rei, perdeu-se a elite, perdeu-se o exército, com milhares de mortos e milhares e prisioneiros que tiveram de ser resgatados. Perdeu-se Portugal.

Seguiu-se o Cardeal – Rei Dom Henrique. Morreu sem descendência, mas sempre se inclinou para Filipe de Espanha, contra outro neto de D. Manuel, D. António Prior do Crato, por este não ter feito votos eclesiásticos. Mas se não teve o favor do Cardeal, D. António teve o apoio do povo. Aclamado Rei em Santarém, Lisboa, Setúbal, teve com ele as principais vilas e cidades, o clero, os jovens fidalgos pobres, as classes populares.

Filipe de Espanha não subiu pacificamente ao trono. A resistência de D. António obrigou-o a invadir Portugal com 40 mil homens e com a armada espanhola comandada pelo Marquês de Santa Cruz.

D. António conseguiu mobilizar 8 mil populares mal armados e uns restos de cavalaria. Foi derrotado em Alcântara pelo mais poderoso exército da Europa comandado pelo Duque de Alba. Lisboa foi saqueada, os partidários de D. António enforcados e esquartejados. Os invasores ocuparam as casas e apoderaram-se dos bens. Os portugueses tiveram de comprar o que era deles, os bares, os bens, e às vezes as próprias mulheres e os filhos.

D. António andou escondido pelo país. E apesar do muito dinheiro que Filipe oferecia, nunca foi denunciado. Ainda reinou na Ilha Terceira. Teve de exilar-se. Voltou várias vezes, apoiado pela Inglaterra e pela França. Não conseguiu retomar o Reino. Foi um Rei sem Reino. Mas nunca desistiu. E os portugueses também não. Ao longo de 60 anos, foram muitas as formas pelas quais se manifestou o espírito e a vontade de Independência. O próprio Duque de Alba escrevia a Filipe II: “É raro o dia em que não seja dito publicamente: viva o Rei D. António”.

As Cortes de Tomar, que aceitaram Filipe de Espanha como rei de Portugal, não mudaram este sentimento. Muitos venderam-se ou deixaram-se comprar. Mas apesar da ocupação, a vontade de independência permaneceu na grande maioria dos portugueses, inspirou os conjurados do 1.º de Dezembro e também a vontade do povo de Santo Aleixo.

A ausência de um acordo de fronteira, que só seria estabelecido em 1893, fez com que esta terra raiana de Santo Aleixo tivesse sido vítima de sucessivas invasões e represálias, na crise de 1383-85, na Guerra da Restauração em 1641 e 1644 e na Guerra da Sucessão de Espanha em 1704. Mas se a linha de fronteira não estava traçada no território estava desde sempre definida e marcada no coração do povo de Santo Aleixo.

Quando em 1580 o nosso país perdeu a Independência, Santo Aleixo continuou a ser Portugal e antes mesmo dos conjurados terem atirado Miguel de Vasconcelos pela janela, já o povo de Santo Aleixo sabia que era e seria sempre independente e sempre português.

É esse espírito de soberania e essa vontade de ser livre que explicam a sua heróica capacidade de resistência.

Na manhã de 6 de Outubro de 1641, 1500 soldados e 200 cavaleiros castelhanos cercaram Santo Aleixo com o objectivo de saquear as Aldeias de Safara e Santo Aleixo, as mais ricas do Concelho de Moura. Sob o comando do Capitão Martim Carrasco Pimenta formou-se uma milícia de cerca de 100 homens mal armados e mais habituados a lavrar a terra do que a combater. Os assaltos castelhanos foram sendo repelidos pelos moradores entrincheirados à volta da Aldeia. Ao fim de três horas, os castelhanos foram obrigados a bater em retirada. Sofreram 55 baixas, os portugueses apenas 2. Tal como uns séculos antes em Alfarrobeira, o valor de um capitão e a coragem do povo superaram a desproporção de forças e a falta de preparação militar. É sem dúvida um feito histórico que devia ser ensinado nas escolas. Durante aquelas 3 horas, o capitão e a sua milícia de 100 homens foram mais do que eles próprios, foram Santo Aleixo, foram a Restauração e foram Portugal.

Mas os invasores voltariam em 12 de Agosto de 1644. E com muito mais força.

Na sua História da Restauração, o Conde da Ericeira, que participou em todas as batalhas desta guerra, conta que, depois da primeira vitória portuguesa em Montijo, perto de Badajoz, o Marquês de Terracusa, comandante do exército castelhano, ordenou a destruição das aldeias de Santo Aleixo e Safara. Reuniram 5 mil infantes e 1800 cavaleiros. Avançaram sobre Santo Aleixo. O General Matias de Albuquerque, comandante do Exército do Alentejo, pediu ao Governador de Moura para mandar evacuar as duas aldeias. Mas os moradores recusaram, alegando que “queriam defender o lugar até morrer porque assim o tinham prometido a Sua Majestade e assim haviam de cumprir”.

E de facto cumpriram. A 12 de Agosto de 1644, a Aldeia de Santo Aleixo foi cercada por 2 mil homens, 1800 cavaleiros, 200 soldados. Na aldeia estavam apenas 230 pessoas. Sob o comando dos capitães Martim Carrasco, Lopo Mendes Salvado e do Alferes Pedro Bacias, os moradores, incitados pelas suas mulheres, entrincheiraram-se para receber os assaltantes. Apesar da enorme desproporção de forças, conseguiram suster os castelhanos, matando muitos deles. Até que os invasores foram buscar as mulheres para as usarem como escudo. Por fim, a muito custo, depois de combates sangrentos acabaram por quebrar a defesa, dando depois início ao saque da aldeia, ao roubo, às violações, ao incêndio da própria igreja. Conta-se que um soldado luterano, vindo do norte da Europa, decepou a cabeça da imagem de Santo Aleixo.

Segundo testemunhos da época, terão morrido 1500 castelhanos e 150 portugueses, além dos que foram levados prisioneiros. É seguramente um dos combates mais heróicos na história da luta dos portugueses pela sua Independência.

Mas em 1704, durante a guerra da sucessão de Espanha, Santo Aleixo voltaria a ser uma aldeia mártir, com suas casas outra vez incendiadas e destruídas.

Nesta hora de grandes incertezas, em que os valores parecem virados do avesso, a história de Santo Aleixo da Restauração merece mais do que o nome inscrito no Monumento dos Restauradores. Merece ser conhecida, ensinada nas escolas, contada na televisão.

Merece um romance e um filme. Parafraseando o poeta António Nobre, apetece perguntar: onde estão os cineastas do meu país, onde estão eles que não vêm filmar esta história extraordinária, que nem precisa de guião, basta apenas ser contada tal como foi e aconteceu?

A História de Santo Aleixo da Restauração contém, em si mesma, um grande sentido pedagógico de patriotismo, de lealdade e de o dom de si mesmo pela mais nobre de todas as causas: o amor à terra e à liberdade. E ensina-nos também que a memória dos indivíduos e das colectividades tem de saber conjugar a marca do passado e o projecto do futuro. Nesta marca do passado de Santo Aleixo da Restauração estará sempre inscrito o futuro de Portugal.
Hoje, a grande batalha é contra a desertificação do território e a pobreza das terras raianas. É uma causa comum que deve unir Portugal e Espanha.

Manuel Alegre
Santo Aleixo da Restauração, 1 de dez 2019