"Amália, mais do que ela, é todos nós"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao DN:
"Amália e Camões foram feitos um para o outro"
23-07-2020 João Céu e Silva, Diário de Notícias

Há mais de meio século, Manuel Alegre foi surpreendido com uma carta de Alain Oulman a pedir autorização para musicar um poema seu para Amália cantar. O poeta estava no exílio em Argel e não esperava um gesto destes para que um seu primeiro poema, Trova do vento que passa, fosse interpretado pela fadista. Uma voz que conhecia bem dos tempos de estudante em Coimbra e do próprio exílio, pois eram dela alguns dos discos que ouvia distante do país. Publica agora um livro com as memórias sobre Amália e com os poemas que foram cantados pela fadista, como Meu amor é marinheiro, Abril e As Facas, além de vários - alguns inéditos - em que a palavra fado e Amália existem. Um livro com pouca dezenas de páginas, mas de perfeita oportunidade nas comemorações do centenário do nascimento da fadista.

O título do volume é As Sílabas de Amália e não surge do acaso, como refere: "As sílabas quer no fado, quer na poesia ou na maneira de falar, são muito importantes e a Amália tinha uma grande perceção do valor da palavra e das sílabas na palavra." Para Alegre, a fadista "dizia-as todas", tanto que ao comparar com colegas suas da atualidade só pode dizer: "Muitas vezes hoje, quando se ouve o fado, nem se percebe o que se está a ser dito."

As razões para esta qualidade na expressão de Amália são várias, mas destaca: "Ela tinha uma inteligência intuitiva rara e, também com a ajuda do Alain Oulman, sabia escolher e o que cantava e compreendia o sentido do que interpretava." Não pode deixar de afirmar que "há outra Amália após o encontro com o Alain Oulman e com ele depara-se com os poetas além dos autores populares que escreveram para ela. Não os menorizo, porque são grandes letristas."

Diz a dado momento "não sou letrista e tenho pena", justificando que "não é fácil escrever letras de fado". Explica: "Eu não escrevi letras para Amália, os meus poemas que ela cantou já estavam publicados em livro, mas aprende-se com esses letristas porque têm um dom da língua e uma técnica complexa. Apetecia-me escrever letras de fado mas não é fácil."

Considera também que existe uma outra Amália, "aquela que canta Camões". Aliás, afirma, "Camões é o seu poeta e acho que foram feitos um para o outro". Esta foi uma das suas afirmações nas conversas que teve com a fadista em Paris, quando se conheceram pessoalmente: "Disse-lhe isso quando estive com ela a primeira vez, de que a minha convicção era que Camões tinha escrito aqueles poemas à espera que um dia pudessem ser cantados por ela."

A reação de Amália, recorda, foi rir-se: "Como quem está convencida que sim." Acrescenta: "Amália sabia quem era e o que valia. Aparentemente simples no trato, estava consciente de que tinha um dom raro, o de ser a voz de um povo. Ela deu uma dimensão mais nacional ao fado através da sua universalidade."

Para Alegre, a voz de Amália era muito abrangente: "Tanto era capaz de cantar uma fuga de Bach, a tarantela, temas de flamenco, tango ou Mozart."

Quanto à dimensão que deu ao fado, é comparável àquela que deu o próprio Camões à palavra: "Que fala muitas vezes de fado mas não no sentido de um destino conformista, antes de interrogação sobre o sentido da vida e o destino de cada um. Por isso, quando ela diz fado, dá-me a impressão de que estou a ouvir Camões a dizer a palavra fado também."

Manuel Alegre sentiu necessidade de fazer esta homenagem à fadista porque "gostei sempre muito da Amália, desde novo. Depois, ela tornou-se ainda mais importante quando comecei a ouvir o David Mourão Ferreira e o Pedro Homem de Mello cantados pela Amália, que dava outro sentido e outra dimensão aos seus trabalhos. Essa paixão por Amália deve-se a achar que ela é uma espécie de milagre, que acontece raramente num povo; de alguém que fala por nós e sabe interpretar o que há de mais fundo na alma de um povo. É por isso que ela não era de nenhum regime, estava antes e depois dos regimes. E se lhe dissessem que era proibido, cantava na mesma, cantava o que gostava. Ela pode ter sido utilizada pelo regime, mas uma pessoa como ela seria sempre uma tentação para o poder político. Era sobretudo uma extraordinária cantora e levou os poetas até ao povo. Tirou Camões do museu."

Por várias razões, Alegre não pode deixar de referir: "Amália é uma das referências da minha vida."