" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
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Foto de António Pedro Ferreira
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Manuel Alegre ao Expresso:
"Vivemos num tempo sem tempo"
13-11-2020 Entrevista conduzida por José Mário Silva, Expresso

Contra o apagamento da memória, individual e coletiva, Manuel Alegre escreveu um poema-livro, sintonizado com os impasses do presente. Ao Expresso fala sobre “Quando”, mas também sobre eleições presidenciais — as americanas e as portuguesas.

Lançado esta semana, “Quando” (D. Quixote) assinala um possível caminho novo na poesia de Manuel Alegre. Nele encontramos fronteiras pessoais e históricas, vislumbres biográficos (a infância, o exílio, a guerra colonial), apontamentos do quotidiano, um olhar para o estado do mundo. Aos 84 anos, o poeta ainda arrisca reinventar-se. E continua interventivo politicamente, como sempre.

O seu novo livro é um poema longo, em dez partes. Qual o contexto em que surgiu?

Olhe, apareceu de repente. Foi algo de inesperado. Há bastante tempo que não escrevia poesia. Rabiscava só um verso aqui, outro ali. E depois, em meados de julho, comecei a fazer isto. Não sei bem de onde é que veio, mas acho que resultou deste período reflexivo, em que andámos todos mais virados para dentro. Nasce também de releituras: o Dante, o "Waste Land” do T. S. Eliot, a tradução mais recente da “Eneida”. E depois houve um poema chamado ‘O Caos’, do chileno Vicente Huidobro, que começou a martelar-me ao ouvido, com os seus primeiros versos: “Silêncio. Noite das noites. Ausência/ De todo o vigor, noite funda e obscura. Inércia/ Grávida de futuras forças.” Senti que tinha algo a ver com este tempo em que vivemos, um tempo fechado. E depois a escrita soltou-se e acabei por fazer algo que há muito procurava: o poema longo que começa mas não sabemos quando acaba, um poema com vários tons e toadas, que se organiza a si mesmo, cria o seu espaço, inventa-o.

Num dos versos, afirma: “Talvez eu seja um poeta arcaico.” Arcaico em que sentido?

No sentido em que reconheço este facto simples: nós vimos de longe. Há uma continuidade desde os primeiros poetas, que escreviam em tabuinhas de argila e já descreviam o quotidiano. A poesia tem muito a ver com a memória. Com a nossa própria memória e às vezes com a memória de coisas imaginadas, de coisas ouvidas. Cada poeta traz em si todos os poetas que o marcaram. E por isso volto a Gilgamesh, volto a Dante. Vivemos num tempo que tende a apagar a memória. Este poema é também um gesto de reação contra esse apagamento. Eu acho que não se pode fazer tábua rasa. Nem na vida, nem nas revoluções, nem na arte. E não se cria o novo destruindo o passado. Neste momento, a sensação que tenho, e daí o impacto que me provocou o poema do Huidobro, é que vivemos num tempo sem tempo, devido às várias pragas que se espalham pelo mundo. Isso reflete-se na própria poesia, que me parece aburguesada, reduzida a um certo afunilamento, a um circuito fechado.

Foi para contrariar essa tendência que experimentou um registo poético diferente do habitual?

Eu sempre tive uma grande preocupação com a forma, na busca da perfeição. Mas neste caso acho que deixei o poema mais solto, mais livre. Deixei-o correr, não tentei domesticá-lo, deixei-o ir.

Não temeu perder o controlo?

Não. Esta foi uma experiência nova, que francamente me surpreendeu. Eu próprio me questiono: será isto um fim ou um recomeço? Mas como é que se recomeça com esta idade, não é? Tenho de facto uma grande preocupação com a oficina. Acho que todos os poetas têm, mas no meu caso costumo levar isso ao extremo. Aqui, ao libertar o poema dessa preocupação, acabei libertando também a própria escrita.

Ao afirmar que “o poema é a última conjura” aponta para a poesia como um reduto de resistência?

Acho que é isso mesmo. Um reduto de resistência. Não no sentido de escrever poemas políticos ou panfletários, antes no sentido de deixar ecoar, dentro da palavra poética, o deserto do mundo. E também a música do mundo. Eu mantenho a crença no poder da linguagem. Já não com a confiança cega, porventura ingénua, dos anos em que escrevi “A Praça da Canção” e “O Canto e as Armas”, mas continuo a acreditar no impacto das palavras. Talvez a poesia não valha muito, mas sem a poesia a vida valia o quê?

Uma das poucas certezas que atravessa o livro é a de que já não há certezas, porque elas “partiram-se”. Além disso, a “ilha da utopia” vai ser engolida pela subida do nível das águas, causada pelas alterações climáticas.

Ao princípio, irritava-me um bocado o discurso excessivamente pessimista, mas o risco ambiental existe mesmo. Já morreram os dinossauros, o planeta ficou. Nós podemos ser os novos dinossauros. É um problema muito sério. E têm de surgir novas soluções, depois dos falhanços do socialismo revolucionário e do capitalismo. Como sair daqui é a grande questão. As primeiras, as segundas e as terceiras vias não resolveram nada. Não sei se terá de haver quartas ou quintas vias, mas são necessárias outras vias. E isso passa muito pela sensibilidade da gente mais nova, que respeito e admiro.

Felizmente, o povo americano escolheu Joe Biden e acredito que ele será o guardião da democracia, não só nos EUA mas no resto do mundo

Acompanhou de perto a eleição presidencial nos EUA?

Sim, claro. Acompanhei tudo, apaixonadamente. Porque, para mim, o combate que Joe Biden está a travar é talvez o mais importante desde o fim da II Guerra Mundial. Donald Trump representa algo que vem de muito longe na história da América mas que atingiu agora uma espécie de paroxismo. Os seus seguidores movem-se por um fanatismo puro e entre eles até há quem diga que os EUA são governados por pedófilos satânicos, entre outras coisas estapafúrdias. É impressionante a facilidade com que tantas pessoas se convencem daquelas mentiras. E vimos um Presidente, ainda no cargo, a pôr em causa o próprio processo democrático. Felizmente, o povo americano escolheu Biden e acredito que ele será o guardião da democracia, não só nos EUA, mas no resto do mundo. Porque se Trump continuasse na Casa Branca, soltaria ainda mais os demónios do populismo autoritário, os Bolsonaros todos. Biden não é um Che Guevara, nem um Churchill, não tem génio político, mas é um homem decente e que defende a decência. Simboliza a maioria que recusou Trump. Representa um sinal muito positivo. Não era fácil sobreviver a tantas calúnias, mentiras, ameaças, mas ele aguentou. E abriu um caminho de esperança: é sempre possível resistir.

Já nas presidenciais portuguesas, ficámos a saber que o Partido Socialista não apresentará um candidato próprio às eleições de janeiro. Na qualidade de ex-candidato, como reage a esta decisão?

Preferia que as coisas se tivessem desenrolado de outra maneira. É a segunda vez consecutiva que o Partido Socialista não apoia qualquer candidato. E lamento que assim seja. Devo dizer o seguinte: sou amigo de Marcelo Rebelo de Sousa e apreciei a maneira como exerceu o primeiro mandato. Acontece que somos de famílias políticas distintas. E a democracia também é escolha, também é diferença. Não é só consenso, é dissenso. Compreendo que a cooperação institucional com o Governo foi boa e conseguiu-se a muito necessária coesão nacional durante a primeira vaga da pandemia, mas não é saudável, num regime democrático, que esteja toda a gente do mesmo lado. Por isso apoiarei alguém da minha família política: a minha amiga Ana Gomes.

Mesmo sem o apoio oficial do partido, acha que Ana Gomes tem condições para obter um bom resultado?

Além de uma grande diplomata, ela foi uma excelente eurodeputada, que incomodou muita gente, por vezes até a própria direção do Partido Socialista. É uma pessoa que se bate pela transparência, luta por causas, é muito corajosa, tem garra, enfrenta os poderosos. Às vezes, em situações de uma certa modorra, faz falta alguém que abane as coisas. Sinceramente, acho que vai ter um bom resultado. E também acho que uma eleição não deve ser uma mera coroação de vencedores antecipados. Nunca se sabe. Não há impossíveis.

Em 2017 venceu o Prémio Camões, atribuído há dias ao professor Vítor Aguiar e Silva, no meio de uma polémica sobre o facto de ter denunciado alunos da sua faculdade, antes do 25 de Abril. Quer comentar?

Em primeiro lugar, parece-me que a atribuição do prémio é muitíssimo merecida. Trata-se do maior estudioso de Camões em Portugal, um grande teórico da literatura, um intelectual de primeira água. A literatura portuguesa deve-lhe muito. Somos da mesma geração, embora não convivêssemos. Ideologicamente, estava do outro lado da barricada. Isso é sabido. Mas depois integrou-se na democracia, como tantos outros, pelo que esta polémica surge completamente a destempo.

Diria que é um ajuste de contas?

Será provavelmente isso: um ajuste de contas. Houve episódios desagradáveis no seu passado, mas ele nunca fez denúncias à PIDE. Foi ouvido por um juiz, disse o que disse sobre alguns alunos. Eu não o teria feito. Mas estas acusações, agora, vêm completamente fora de horas. Nascem de um justicialismo muito mesquinho. Em democracia, sempre defendemos que os perseguidos não se deviam transformar em perseguidores. Além de injustas, estas perseguições tardias não fazem sentido nenhum.