" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
Manuel Alegre
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Gonçalo Ribeiro Telles
13-11-2020 Manuel Alegre

Gonçalo Ribeiro Telles, que acaba de partir aos 98 anos, foi um pioneiro. A causa ambiental que o apaixonava permanece mais actual do que nunca.

Lutou contra a ditadura, contra a injustiça, contra as desigualdades territoriais, contra a pobreza. Monárquico progressista e patriota, esteve ao lado de republicanos e opositores ao regime de Salazar. Apesar da censura, não hesitou em denunciar o desordenamento e a especulação como causas maiores das trágicas centenas de mortes à volta de Lisboa nas cheias de 1967. Ministro do Ambiente na década de 80, criou regimes legais de defesa da paisagem, que considerava património nacional, posta em causa pelos grandes interesses. Vaticinou o advento da desertificação de grande parte do país quando a exploração do eucalipto invadiu impunemente a floresta tradicional. Alertou para o risco de incêndios florestais de grande escala, que Pedrógão tão tristemente confirmou muitos anos depois.

Com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares, juntou-se aos fundadores do Centro Nacional de Cultura, criado por um grupo de jovens no final da segunda guerra mundial. Queriam uma cultura viva, que aliasse o património à criação e a tradição à modernidade. Sophia defendeu esta visão no seu extraordinário discurso sobre a cultura na Constituinte. Coube a Gonçalo Ribeiro Telles ligar a Cidade Nova à natureza, que ele concebia como um conjunto de sistemas vivos do qual temos de cuidar todos os dias.

Gonçalo era um comunicador e um criador. Os seus jardins são espaços vivos que nos dão um vislumbre da harmonia entre o homem e o ambiente que sempre procurou. Concebeu em Lisboa os “corredores verdes” para que os pássaros pudessem co-habitar a cidade. Combateu a especulação que perfura o solo urbano para enormes parques de estacionamento, em prejuízo dos rios subterrâneos que alimentam o Tejo e a vida. Sem ele, o direito ao ambiente não estaria provavelmente consagrado na nossa Constituição de 1976.

Gonçalo Ribeiro Telles foi até ao fim o primeiro e mais jovem defensor da causa ambiental que hoje mobiliza as novas gerações em todo mundo. Merece de pleno direito a homenagem nacional que o país lhe prestou. É para mim uma honra ter tido o privilégio da sua amizade.

Manuel Alegre