"Entre o agora e o nunca / lá onde só se chega não chegando / um pouco antes talvez depois / quando."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao receber o Prémio Ramos Rosa:
"Que a poesia volte a ser, como foi com Ramos Rosa, O Grito Claro"
04-09-2021 Manuel Alegre

É um exemplo para o país e para os patrocinadores do prémio neste tempo em que a cultura tende a ser uma palavra sonora vazia de conteúdo e em que talvez seja preciso que a poesia volte a ser, como foi com Ramos Rosa, O Grito Claro. Que os distraídos e os desatentos não se iludam: não se pode adiar a vida para outro século.

Ainda tenho comigo as primeiras edições dos primeiros livros de António Ramos Rosa, comprados assim que saíam. E guardo a revelação que para mim e para a minha geração foi aquela poesia que trazia um novo sopro, um novo dizer, um novo sentido poético e cívico. Sabia-se de cor O POEMA DO FUNCIONÁRIO CANSADO e O BOI DA PACIÊNCIA, fazia-se A VIAGEM ATRAVÉS DUMA NEBULOSA e chegava-se ao GRITO CLARO, clamava-se em coro ESTAMOS NUS E GRAMAMOS e, sobretudo, proclamava-se pela noite fora: NÃO POSSO ADIAR O AMOR PARA OUTRO SÉCULO.

Era uma poesia de superior qualidade que fazia da palavra poética uma arma de libertação e de luta contra a ditadura.

E depois, mais tarde, aquele verso luminoso: Estou vivo e escrevo sol. Foram poemas que marcaram as nossas vidas e mudaram a nossa própria visão da poesia. António Ramos Rosa é um dos maiores poetas portugueses, um dos meus poetas e das minhas referências. Não posso esquecer que, tendo eu apenas dois livros publicados, António Ramos Rosa me incluiu na antologia das LÍRICAS PORTUGUESAS, por ele organizada. E ao contrário de leituras ideológicas, então predominantes, ora encomiásticas ora redutoras, António Ramos Rosa sublinhou Conquistas expressivas do mais recente modernismo inseridas em formas rítmicas tradicionais e assinalou certa pureza de brilho e linguagem como valiosa conquista da expressão. Foi talvez o meu primeiro prémio Ramos Rosa.

Quero também lembrar o apoio que António e Agripina Ramos Rosa me manifestaram em momentos relevantes da minha intervenção cívica. Por isso, a atribuição do prémio instituído pela Câmara Municipal de Faro, com o nome do poeta, tem para mim um especial significado. Foi com emoção que recebi a notícia, é com emoção que venho aqui para o receber. E é uma honra figurar ao lado dos vencedores que me antecederam, entre eles dois ilustres algarvios que são nomes maiores da nossa literatura: Gastão Cruz e Nuno Júdice.

Talvez nenhum outro poeta português tenha levado tão longe como Ramos Rosa o trabalho da palavra sobre a própria palavra, o ofício da linguagem sobre a própria linguagem. Logo após os seus primeiros livros, Jorge de Sena sublinharia que a sua poesia é de uma personalidade com seguro sentido da criação poética e um largo conhecimento das mais modernas experiências.

O seu trabalho ensaístico e a sua permanente interrogação sobre a matéria do real e a matéria do poema revelou-se de grande importância para o que alguém chamou de desprovincialização da poesia portuguesa. A partir de certa altura é quase impossível acompanhar a incessante produção poética de Ramos Rosa, onde, como assinalou Ana Paula Coutinho Mendes, há como que um êxtase verbal e um misticismo poético de base ontológica.
Mas é Ramos Rosa que traz até nós um outro olhar sobre a moderna poesia europeia, na linha de Mallarmé ou, como ele gostava de citar, da liberdade livre de Rimbaud. Em António Ramos Rosa a palavra poética confunde-se com o sentido da sua própria vida.

Uma grande espiritualidade, dizia Robert Bréchon, que tive o privilégio de conhecer e era um devoto de Ramos Rosa, cuja poesia nunca deixa de ser uma meta-poesia, como única forma de atingir o real absoluto. Mas, também, como assinala José Carlos Seabra Pereira, poesia da cidadania e da condição humana, que quer integrar a experiência da alienação social e política na experiência da própria realidade poética, tão devotada ao trabalho por dentro da linguagem quanto à interrogação da natureza sacralizada e à revelação do sentido do mundo.

Temos de estar gratos à Câmara Municipal de Faro por ter instituído um prémio que nos ajuda a lembrar, a descobrir e a redescobrir um poeta incomparável. Um prémio que, pela importância dos poetas já laureados e pela qualidade do júri, tem vindo a afirmar-se como um prémio nacional.

É um exemplo para o país e para os patrocinadores do prémio neste tempo em que a cultura tende a ser uma palavra sonora vazia de conteúdo e em que talvez seja preciso que a poesia volte a ser, como foi com Ramos Rosa, O Grito Claro. Que os distraídos e os desatentos não se iludam: não se pode adiar a vida para outro século.