"Não gosto de engenharias sociais ou artificiais messiânicas"
Manuel Alegre
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Foto da revista Frontline
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Manuel Alegre à revista Frontline
Um Presidente da República deve ser uma fonte de inspiração
22-02-2010 revista Frontline, nº 19, Fevereiro de 2010
Entrevista de Filomena G. Nascimento

Manuel Alegre nasceu em 1936 e estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, onde participou activamente nas lutas académicas. Cumpriu o serviço militar na guerra colonial em Angola. Nessa altura, foi preso pela polícia política (PIDE). No regresso exilou-se no Norte de África, em Argel, onde desenvolveu actividades contra o regime de Salazar. Em 1974 regressou definitivamente a Portugal, demonstrando, nos vários cargos que tem desempenhado ao longo dos anos, uma intervenção fiel aos ideais da Liberdade.
A sua poesia é um hino à Liberdade e talvez seja por isso que é lembrada por todos os que lutaram contra a ditadura. É considerado o poeta mais cantado pelos músicos portugueses, tendo já conquistado vários prémios.
Prepara-se agora para mais um desafio: a candidatura à Presidência da República para 2011.

O seu avô materno foi deputado à Assembleia Constituinte em 1911, bem como governador civil de Santarém. Alguma influência?
O meu avô materno, Manuel Alegre, foi uma figura muito influente do Partido Republicano. Mas, o meu avô paterno, Mário Duarte, considerado o maior desportista português, também deixou marcas. Foram ambos importantes.

Qual a ideia principal que mais o marcou?
Na política marcou-me sobretudo a ideia da liberdade. O meu avô paterno era monárquico liberal e o meu avô materno foi cabeça de lista do Partido Republicano por Aveiro. Um homem muito influente na Primeira República.

E o desporto também fez parte da sua educação desde cedo...
Assim como da dos meus pais e dos meus filhos. Todos fomos internacionais e campeões em várias modalidades. Eu fui campeão nacional e internacional de natação. Os meus filhos dedicaram-se ao râguebi. O meu pai foi um dos grandes atletas do seu tempo.

Escritor, poeta, político... Qual a profissão que melhor o define?
O essencial da minha personalidade é a escrita. Nasci numa ditadura, pertenço a uma geração que foi tocada pela guerra e portanto as circunstâncias fizeram com que tivesse uma intervenção política mais acentuada. Se tivesse nascido noutro país, poderia nem sequer ter-me dedicado à política. Mas a minha profissão mesmo é escrever. Sou escritor.

"Meu poema rimou com a minha vida" escreveu. De que forma as rimas se encontram?
É uma metáfora. A escrita e a vida são inseparáveis. Com a imaginação podemos fugir ou transpor a realidade. Isso é a vida. A imaginação faz parte da vida. O que quero dizer é que, em determinadas alturas da minha vida, o que escrevi foi rimando ou coincidindo com o que vivi.

E a vida sem escrita?
Não imagino a vida sem a escrita. Costumo dizer que quando escrevo sinto a terra a tremer. Quando nasci houve um tremor de terra, talvez haja alguma ligação e isso tenha ficado dentro de mim (risos). Mas a escrita é um processo mágico. Antes de saber escrever já sabia versos de cor. Lá em casa sempre se cultivou o gosto pela leitura e pela escrita. Pela cantoria também. Os meus pais cantavam fado em serões de família. A palavra e os ritmos da vida, transportados para dentro da palavra... Sem isso não me imagino. Não me imagino sem a escrita.

É um homem de paixões?
Claro. Ai daqueles que não têm paixões. É de desconfiar dos que não as têm.

Quais foram as paixões da sua vida?
Para além da escrita e da família, há outras coisas de que gosto. Pesca, desporto, caça, leitura.

Política?
Foi sempre um imperativo cívico. Mas houve combates. O combate pela liberdade foi apaixonante. O pós-25 de Abril foi intenso e apaixonante. Como foi a aventura vivida aquando da minha candidatura presidencial. Foi feita em dois meses e meio, sem o apoio de qualquer partido. Baseou-se numa grande rede de cidadania e voluntariado. Isso foi inédito. Por cerca de 29 mil votos não foi à segunda volta. Acho que abriu um caminho. Para além de apaixonante, foi inédito.

Em 2005 candidatou-se à Presidência da República como independente e apoiado por cidadãos. Obteve mais de um milhão de votos nas eleições presidenciais de 22 de Janeiro de 2006, ficando em segundo lugar e derrotando o candidato oficial apoiado pelo PS. O que mudou?
Essa experiência da cidadania foi importante. Depois disso houve muitos movimentos cívicos. E fiquei a conhecer melhor o País. Já o conhecia, mas havia realidades que desconhecia. Coisas muito boas. Gente que procurava fixar-se no interior, pequenas empresas internacionalizadas, inovação, criatividade. A desertificação impressionou-me. Disseram-me uma vez: "Fizeram as auto-estradas, mas assim como trazem, também levam."

E o que se mantém?
A crise mundial continua. Temos uma crise própria somada à crise mundial. E há atrasos que não foram vencidos. A cultura. Ainda há cerca de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza. Isto é muito grave e apesar de ter havido uma grande transformação no ensino, na educação, falta muito ainda. E essa é uma das nossas grandes batalhas, a da qualificação. Toda a gente fala de mudança de paradigma, mas ainda não se assistiu a nenhuma mudança.

E em si. Mudou alguma coisa?
Mudei com a experiência que adquiri. Mais de um milhão de votos não se conseguem impunemente, sobretudo nas condições em que os consegui. Eu não tenho um aparelho político próprio. Tenho uma grande rede afectiva. É bom, ainda que o sentido de responsabilidade seja grande.

Como tem sido assistir a governação do País por parte do PSD e de Aníbal Cavaco Silva?
Ainda bem que utilizou esse termo: "governação". Ele não governa. O Presidente da República não tem de governar. Tenho por ele apreço e consideração, temos uma relação recíproca de respeito. Acho é que, no exercício das suas funções, têm havido alguns equívocos. A Cooperação Estratégica encerra em si a ideia de que o Presidente partilha as definições das políticas do Governo. A Constituição não diz isso. Uma coisa é a Cooperação Institucional e outra é a Cooperação Estratégica. Esta ideia arrasta consigo conflitualidade.

Qual deve ser a função do Presidente da República?
Deve ser uma referência, uma inspiração. Deve falar por aqueles que não têm condições de se fazer ouvir. Tem a função de estar atento aos problemas do País. Mas o Presidente da República não é um corta-fitas.

Tem conseguido?
Na primeira parte do mandato sim. Muita gente convenceu-se de que, como professor de Finanças e Economia, ia ajudar o País. Ele não pode, simplesmente porque não governa. Pode dar conselhos, mas não governa. De qualquer das formas, um Presidente da República tem que saber falar de tudo. Tem que se filiar nas raízes históricas e culturais de um país.
Tenho ouvido as pessoas dizer que querem um Presidente poeta. Estão cansadas do discurso cinzento e tecnocrático, feito por medida. A função de um Presidente da República pode ser outra. Ser uma fonte de inspiração pela palavra, pela acção. O mundo sempre precisou de poesia. Portugal tem como símbolo da Pátria um poeta.

"Fiel à República, à liberdade, à democracia, ao socialismo e sobretudo a Portugal e ao povo português". Comente.
Terminei um discurso na Assembleia da República com esta frase. Hoje vivemos uma crise, também, de valores, de confiança e crise nacional. Somos a mais velha nação da Europa. Portugal é uma obra-prima de vontade política feita através dos séculos por grandes portugueses que não foram atrás dos profetas da desgraça.

Como imagina o futuro de Portugal?
Custa-me quando oiço dizer que Portugal não tem futuro e que devíamos ser espanhóis. Portugal vale a pena e sempre valeu. Portugal precisa que os jovens acreditem e estes precisam de quem os faça acreditar. É preciso transmitir nas escolas as memórias, aprender a ser-se português e regressar-se às origens. Esse também é o papel de um Presidente.

Somos um país rico...
Somos a terceira língua da Europa mais falada no mundo, essa é a maior riqueza que nós temos. Até para se aprender Matemática tem que se saber dominar a nossa língua. Isso é a base de tudo. E claro, a História, a memória.

Mário Soares, em entrevista ao diário i, afirmou que Manuel Alegre "tem um pé dentro e outro fora do PS". Que comentário merece esta afirmação?
Já travei grandes combates com o Dr. Mário Soares e grandes cumplicidades na construção da democracia. Mas também momentos houve em que ele teve os dois pés fora do PS. Por exemplo, já chegou a não votar num candidato do seu próprio partido. Mas não tenho um pé dentro e outro fora. Há altos e baixos, como em todas as famílias. Tenho um espírito crítico, que é diferente.

Em Dezembro passado, num encontro com apoiantes em Braga, deixava em aberto a hipótese de voltar a candidatar-se a Presidente da República. Tudo porque "qualquer decisão não está dependente de outros, mas ainda não encontrei a resposta dentro de mim". Já a encontrou?
A decisão, de acordo com a Constituição, é um acto pessoal e de cidadania. Apoiado ou não por partidos. É um apelo que vem de dentro.

A sua candidatura poderá provocar fracturas graves no seio do PS?
Não acredito. Na minha última candidatura, a verdade é que fui buscar votos à esquerda e à direita. Se eu não me candidatasse é que essas fracturas podiam acontecer. Os candidatos não se inventam, um candidato forjado é um candidato derrotado. Tem que se estar no imaginário do povo.

Segundo um inquérito on-line do Diário de Notícias, 42 por cento dos inquiridos consideram que Cavaco Silva não é o favorito às eleições presidenciais. Considera o resultado deste inquérito real?
Levo sempre a sério os inquéritos. A maioria. Não subestimo Cavaco Silva. É um candidato muito difícil de derrotar, mas possível.

A esquerda pode vencer Cavaco Silva?
Quando se apresentou a primeira vez parecia uma coroação e afinal ganhou com... 50,5 por cento. Havendo segunda volta, hoje não sei quem seria o Presidente.

Considera-se a resposta que o País precisa?
O actual Presidente da República é um candidato difícil e não há muita gente capaz de o enfrentar. Que tenha condições e sobretudo coragem.

"Há um combate que chama por nós. Para mudar, não para que fique tudo na mesma" (debate Entroncamento). Onde devem começar e acabar as mudanças?
Primeiro, Portugal precisa de um novo tipo de referência, de discurso. Inspirar o País. Na educação. Deve-se exercitar a memória. Há clássicos que se deviam saber de cor. Ter a coragem para criticar a comunicação social que vive muito de estereótipos. Passam a vida a dizer que não há debate de ideias mas quando acontecem, a seguir, as perguntas são sobre a espuma dos dias... E depois, dizem que não há debate de ideias. "Os problemas de Portugal" do Prof. Vitorino Magalhães Godinho está cheio de ideias para debater. Ainda dizem que não há debate de ideias?! E sobre este grande livro ainda não ouvi nenhuma referência...

O eurodeputado socialista Vital Moreira não acredita que a sua eleição possa ser uma boa opção para o partido nas próximas eleições presidenciais. "Ninguém ganha sem conquistar o espaço do centro, e Alegre não o faz, deixando-se cooptar pelo Bloco de Esquerda." Comente.
Nem comento. É quase insultuoso. Quando fui candidato tive votos da esquerda, da direita e do centro. Até monárquicos tive na minha campanha. Uma eleição é sempre transversal. Eu sou uma pessoa transversal. Pelo que fiz, escrevi, pela minha família. E ele sabe disso. Conhece o meu percurso.

Já Francisco Assis, líder da bancada parlamentar, em declarações ao Diário de Notícias, considerou Manuel Alegre como tendo perfil para ser "um excelente candidato presidencial" e um "bom Presidente da República".
É a opinião dele. Já conhecia este comentário. Estímulos não me faltam, sobretudo por parte de cidadãos anónimos. Agora, há muitos factores que se ponderam. Foi uma decisão pesada.

Sobre a polémica casamento entre pessoas do mesmo sexo...
Outros países adoptaram outras soluções. Para mim não há liberdade sem liberdades. Eu sei que há outras prioridades. Mas quando há discriminação, a luta é uma prioridade, e mesmo havendo outras prioridades, não quer dizer que esta não se trate também...

O Presidente da República, através da sua opinião pessoal, está a causar instabilidade política?
Não. Tem direito à sua opinião. Tem uma opinião mais conservadora. O casamento entre pessoas do mesmo sexo fazia parte do programa eleitoral do PS. O presidente escolheu mal o momento para emitir a sua opinião. Penso que pôs em causa algo que tinha sido sufragado pelo voto popular.

Considera possível um acordo parlamentar entre PS-CDS? É desejável?
Não. Já houve vários acordos dessa natureza e deram sempre mau resultado. A democracia é feita de conflito e consenso.

Em entrevista à Visão, falou de "uma cultura de diálogo e negociação". Em que consiste? É possível?
As maiorias absolutas levam a que aqueles que as têm comecem a ter tiques. Maioria absoluta não é poder absoluto. Quando se perde só há um caminho que é o caminho do diálogo e da negociação. Para que o País tenha solução é preciso que todos conversem sem nunca abdicarem das suas convicções. Costumo dizer que só quem faz a guerra é capaz de fazer a paz. A negociação e diálogo não são prova de fraqueza. São antes de força nas convicções e autoconfiança.

Portugal precisa de uma "justiça poética"? Alguém capaz de inspirar pela palavra e pela proposta...
Penso é que é preciso que a justiça funcione. Deve existir uma justiça social, igualdade de oportunidades. Só nesse sentido é que eu a entendo. É preciso encontrarem-se soluções para as enormes desigualdades. Por exemplo: os jovens andam de estágio em estágio, estágios não remunerados. Depois deixam o País.
É preciso acreditar em Portugal. Muitos dos melhores já não acreditam e vão para fora. A vida está difícil aqui e em toda a parte. O quotidiano é pesado.
As pessoas precisam de um horizonte. É o sonho que alimenta a vida, já dizia o poeta, e essa é também a função da política. Do Presidente enquanto referência máxima, mas também de todos os políticos.