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Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre Ernesto Melo Antunes:
"Um patriota que acreditava na singularidade da história de Portugal"
28-11-2009
Fundação Gulbenkian, 27 e 28 de Novembro

Conheci Ernesto Melo Antunes em 1961. Ele era então um capitão de artilharia, reservado, para não dizer sorumbático. E eu um jovem aspirante miliciano, colocado no Batalhão de Infantaria 18, nos Arrifes, por ter feito em Coimbra um discurso que, segundo as Memórias de César de Oliveira, terá sido a primeira crítica pública à guerra colonial.

Alguém, suponho que Jorge Sampaio, alertou Ernesto Melo Antunes sobre quem eu era: um voluntarista que fazia discursos inflamados e publicava poemas na Via Latina.

No nosso primeiro encontro, em Ponta Delgada, foi precisamente sobre poesia que conversamos. Seria, aliás, um tema recorrente nas nossas conversas. Melo Antunes foi a primeira pessoa a quem mostrei um poema intitulado, por acaso ou talvez não, "País de Abril", que viria a ser publicado em Praça da Canção e lhe está hoje dedicado.

Começámos, pois, pela poesia, de que ele era um surpreendente conhecedor. Da poesia passámos aos encontros em casa de António Borges Coutinho, nesses inesquecíveis serões em que tudo se discutia: Antero, António Sérgio, Marx, Sartre e Camus, de que o Ernesto era grande leitor. E obviamente política. Da tertúlia à conspiração foi um passo. Assim nasceu a Junta de Acção Patriótica dos Açores, que integrava militares e civis.

Diga-se que os militares que se encontravam então em São Miguel eram quase todos suspeitos: ou de terem participado na chamada Revolta da Sé, ou de envolvimento na conspirata de Botelho Moniz, ou de activismo no movimento estudantil ou, como era o caso de Melo Antunes, de excessivo espírito crítico.

De modo que nos demos conta de que a guarnição militar de são Miguel estava, por assim dizer, nas nossas mãos. Surge então a ideia, vinda de Lisboa, de que o General Humberto Delgado poderia desembarcar em São Miguel para ali instalar um governo provisório. O General viria por mar, e a nós, Junta de Acção Patriótica, competir-nos-ia promover o levantamento militar e popular, tomar conta de Ilha e garantir condições de segurança.
O que se passaria a seguir ninguém ao certo o poderá dizer, mas era nossa convicção que pelo menos haveria um grande sarilho susceptível de abalar o regime interna e externamente e até acelerar a sua queda.

O Capitão André Infante que, depois do 25 de Abril, Vasco Gonçalves nomearia Embaixador de Portugal na Argélia, organizou a recruta na perspectiva da ocupação militar da Ilha. Melo Antunes fez o mesmo na sua unidade. Aquelas recrutas foram uma espécie de manobras invisíveis, tendo em vista sublevação militar e popular. Continuaram as reuniões em casa de António Borges Coutinho, a certa altura vigiada pela polícia. Uma noite ele teve uma das suas conhecidas cóleras, tão intensas quanto passageiras, e veio invectivar o agente que ficou tão atrapalhado que pediu desculpa e se foi embora. Entretanto Melo Antunes contactava oficiais seus conhecidos no Continente, sobretudo nos paraquedistas. Outros contactos foram estabelecidos por mim e Borges Coutinho.

Houve as grandes manifestações do 1º e 8 de Maio de 1962 em Lisboa. Era preciso não perder a onda. Fixou-se a data da sublevação para 28 de Maio. Mas, ao contrário do que Melo Antunes diz na sua entrevista a Manuela Cruzeiro, não foi por falta de comparência de Humberto Delgado que o levantamento não se fez. Foi por ter chegado alguém de Lisboa com instruções para não arrancarmos, porque tinha havido muitas prisões e não havia condições para apoiar a nossa acção. Corríamos o risco de ficar isolados. Mandavam-nos esperar por outra oportunidade. O problema é que nós estávamos numa corrida contra o tempo e oportunidades daquelas não se repetem. Diz ainda o Ernesto, na referida entrevista, que eu, voluntarista, queria avançar, com Delgado ou sem Delgado. Mas aí a memória atraiçoa-o. Não fui só eu voluntarista. Ele próprio, racionalista, rigoroso e não voluntarista, achou que tais condições não se repetiriam e que, portanto deveríamos avançar. Mas a disciplina prevaleceu. Obedeceu-se a Lisboa e a revolução ficou no tinteiro.

Colocou-se então outro problema: que fazer com aquela Junta de Acção Patriótica, que fazer com aquela força? A resposta foi uma acção de agitação e propaganda contra o regime e contra a guerra. Estava prevista para Julho a visita de Américo Tomás. Para se perceber o espírito da época, André Infante adiantou a hipótese de se destruir de noite à bazucada, a tribuna que já estava a ser preparada. Optou-se por meios mais pacíficos. Compraram-se resmas de papel, carimbos de borracha, tinta. O papel foi cortado, as palavras de ordem escolhidas e carimbadas em milhares de panfletos. "Abaixo o fascismo", "Não à guerra", "Fora Salazar", eram alguns daqueles mimos estampados naqueles panfletos, feitos artesanalmente em casa de António Borges Coutinho. Organizaram-se as Brigadas: militares e civis, homens e mulheres. Recordo-me da mulher do então Major Marques Pinto disfarçada de carvoeira.

Fiz parte da brigada constituída por Melo Antunes e Marcel de Almeida. Coube-nos a parte Norte e Noroeste da Ilha. Estou a ver o Ernesto vestido de preto, cara enfarruscada, a guiar, pistola à mão. Marcel de Almeida (que viria a ser vice-presidente do Benfica) e eu, os dois também enfarruscados. O carro atravessava as povoações devagar, nós saltávamos e enfiávamos os panfletos debaixo das portas. Sem ver vivalma mas com a sensação de que mil olhos nos espreitavam.

Foi um sucesso. E um escândalo. As gargalhadas de António Borges Coutinho fizeram tremer Ponta Delgada. A PIDE foi ridicularizada. O Governador Sá Viana Rebelo compreendeu o que se tinha passado. E terá dito: "Não posso mandar prender todos os meus oficiais".
Pouco depois começou a dispersão. Eu fui o 1º a ser mobilizado para Angola. Custou-me muito despedir-me daqueles dois amigos, António e Ernesto, que para sempre farão parte da minha vida.

Ainda encontrei o Ernesto em Angola, já então estava eu metido em novo sarilho, fruto daquilo a que ele chamava o meu voluntarismo. "Ainda és preso" disse ele. E de facto fui.
Sempre que possível, já eu estava no exílio, mantínhamos contacto, normalmente por intermédio de António Borges Coutinho. Com pseudónimos absurdos. O Ernesto, por exemplo, era "Ernestina".

Mais tarde contei a Álvaro Cunhal e a Piteira Santos aquela revolução abortada. Por mais estranho que pareça, eles acharam que um bocadinho de voluntarismo não fazia mal nenhum e que, naquelas condições, deveríamos ter avançado. O que prova que, na oposição anti-fascista, as ligações nem sempre funcionaram.

Por acaso, ou talvez não, Melo Antunes e eu regressámos a Lisboa no mesmo dia, 2 de Maio de 1974. E encontrámo-nos, precisamente à porta da Junta de Salvação Nacional, à mesma hora. 14 anos depois da nossa aventura em São Miguel.

Pouco tempo depois chegou a Lisboa, como enviado de Samora Machel, Aquino Bragança, com quem eu tinha estabelecido laços de grande amizade na Argélia. Perguntou-me, da parte de Samora, qual o militar com que eu lhe aconselhava falar. Respondi-lhe: Melo Antunes. E apresentei-os um ao outro. Creio que esse encontro se revestiu de capital importância para o futuro papel que Melo Antunes viria a ter na solução da questão colonial.

Sublinhe-se que Ernesto Melo Antunes teve sempre, desde que o conheci, ideias muito claras:

1 - A revolução tinha que ser feita por dentro, ou seja, o regime só podia ser derrubado pelas Forças Armadas;

2 - Sem descolonização não seria possível a instauração da democracia;

3 - Só no quadro de uma democracia política se poderia avançar para soluções progressistas e socializantes.

É este o cerne do seu pensamento político. E foi ele que guiou a sua acção, antes e depois do 25 de Abril.

Tem-se dito que o 25 de Abril foi uma revolução original e precursora, que abriu caminho à transição democrática na Espanha, na Grécia e noutros países. Ou como costumava dizer Francisco Salgado Zenha: "o primeiro de um conjunto de factos que iniciou no mundo uma nova era".

Tem-se exaltado, aliás justamente, o papel do PS e dos seus dirigentes, nomeadamente Mário Soares. Mas nem sempre o dos militares, sobretudo o do Grupo dos Nove. É tempo e mais que tempo de render justiça ao papel determinante de Melo Antunes. Foi decisivo em todos os momentos do percurso que terminou com a institucionalização da Democracia. Manuel Tito Morais e eu suspendemos o mandato de deputados para não votarmos uma revisão constitucional que não incluía uma homenagem aos militares que se mantiveram fieis à palavra dada e que, pela primeira vez na história, tendo derrubado uma ditadura, não guardaram o poder para si, restituindo-o ao povo através de eleições livres e democráticas.

Sei que essa omissão magoou Melo Antunes. Mas sem surpresa. Ele sabia que em política não há gratidão.

Ainda se filiou no PS, sem que ninguém, a não ser Jorge Sampaio que o convidou para deputado, o que ele recusou, tivesse querido sublinhar o significado desse gesto.
Honra-me muito que o seu último acto político tenha sido o de assinar, em 1999, a moção "Falar é preciso" por mim apresentada ao congresso do PS.

Há homens que mudam a História sem fazer barulho, como se estivessem a virar a página de um livro. Assim foi o meu amigo Ernesto Melo Antunes. Era militar e estava sempre às voltas com um livro, era um intelectual e estava sempre a pensar como fazer uma revolução com as Forças Armadas. Fê-la de caneta e papel, escrevendo o programa do MFA que fez florir as armas e a Liberdade. De caneta e papel salvou o espírito democrático do 25 de Abril, escrevendo os textos que de novo balizaram a revolução, como o Documento dos Nove.

Era, falta dizê-lo, um patriota, um português que acreditava na singularidade da história de Portugal.

Saiu de cena tal como tinha entrado, sem fazer barulho, discreto e de certo modo secreto. Saiu de cena. Mas não da História.

Manuel Alegre