Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Prefácio do livro "Ideias para grandes decisões"
Abertura e Inovação
24-11-2009

1. Há cerca de um ano, graças a uma equipa coordenada por Nuno David, a Corrente de Opinião Socialista publicou quatro números da revista electrónica "ops!". Fê-lo sem os meios de que dispõem os partidos políticos e outras instituições ou até mesmo fundações. Fê-lo, também, sem sectarismo nem dogmatismo, abrindo a revista à participação de pessoas de diferentes quadrantes e sensibilidades.

Com uma preocupação comum: debater alguns dos grandes temas actuais e procurar trazer a público contributos qualificados, tendo sempre presente o velho lema de Antero de que não é possível viver sem ideias e a convicção de que é preciso encontrar políticas alternativas às receitas do pensamento único.

Pretendeu-se também contrariar o tabu da incomunicabilidade das esquerdas e estabelecer pontes para um diálogo sem agendas escondidas.

A publicação em livro de uma selecção de textos e entrevistas permitirá, por certo, uma reflexão mais aprofundada sobre o trabalho realizado, tendo em vista a prossecução do debate e a busca de novas soluções.

2. Os analistas têm-se debruçado sobre o estranho fenómenos do declínio do socialismo democrático europeu, nomeadamente em países nucleares, como a Alemanha, a França e a Inglaterra, precisamente no momento em que o colapso do capitalismo financeiro resultante do fundamentalismo neo-liberal justificaria uma viragem à esquerda e uma punição da direita. Mas não é o que tem acontecido. A derrota do SPD na Alemanha e a crise do PS francês revelam que o socialismo europeu atravessa uma crise profunda e não se tem mostrado capaz de dar uma resposta inovadora e convincente às causas da crise. Os eleitores viram-se para a direita, apesar desta permanecer fiel à ideologia que é, ela própria, a origem da crise actual.

Num interessante artigo publicado no "Nouvel Observateur", Jacques Julliard explica o recuo da esquerda e o avanço da direita pelo facto de, por um lado, o socialismo democrático (ou social-democracia) se ter deixado colonizar pelo neo-liberalismo e, por outro, pelo facto de as outras esquerdas continuarem "a recusar a economia de mercado e permanecerem barricados no socialismo cro-magnon". O eleitorado deixou de acreditar numa social-democracia frequentemente travestida de neo-liberal e já não crê em mal recauchutados modelos que faliram com a queda do muro de Berlim. Por isso vota à direita, apesar desta propor políticas que, não eliminando as causas da crise, podem produzir os mesmos efeitos, porventura mais agravados.

3. Esta é uma reflexão que tem de prosseguir entre nós. Apesar de os resultados das últimas eleições terem conferido ao PS uma vitória ainda que por maioria relativa e de as esquerdas serem maioritárias na Assembleia da República, a verdade é que continuam a ser muito difíceis as possibilidades de qualquer acordo governativo ou mesmo parlamentar. São esquerdas diferentes, com modelos de sociedade aparentemente incompatíveis. Mas quem vota nos diferentes partidos da esquerda não quer ser governado à direita. E custa a crer que não seja possível um mínimo denominador comum, pelo menos no que respeita às políticas públicas, ao papel do Estado, à Escola pública, ao Código Laboral e aos direitos sociais, nomeadamente ao Serviço Nacional de Saúde. Não se pede a ninguém que abdique. Pede-se apenas a cada uma das esquerdas que seja capaz de ouvir as outras.

4. Essa é a lição de Lisboa. Na impossibilidade de uma coligação entre os partidos políticos de esquerda, PS e Cidadãos por Lisboa celebraram um acordo coligatório, já que a lei, muito adversa para movimentos de cidadãos, não permite coligações entre estes e partidos políticos. Mas Lisboa mostrou a importância da democracia participativa e dos movimentos de cidadãos. O mérito de António Costa e de Helena Roseta foi o de terem sido capazes de se ouvir, de falar e de encontrar uma solução que representou mais do que a soma entre o PS e os Cidadãos por Lisboa. Criou-se uma dinâmica inovadora, de abertura, que mobilizou muitos eleitores e abriu caminho à vitória da lista encabeçada por António Costa. Uma vitória da abertura e da inovação. Merece ser meditada quer pelos que nela participaram quer pelos que decidiram ficar de fora.

5. Ao editar este livro, a "ops!" permanece fiel à sua vocação: abrir à esquerda um espaço de debate e inovação para que os votos nas esquerdas possam vir a encontrar uma expressão política correspondente à vontade dos seus eleitores.

Manuel Alegre