"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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A caravela de Edmundo Pedro
08-11-2008 Diário de Notícias

Dizia Francisco Sousa Tavares que Edmundo Pedro é um dos raros portugueses sempre pronto a apanhar a primeira caravela que passa. E de facto assim tem sido na extraordinária aventura da sua vida. Foi sempre dos primeiros a embarcar na caravela do sonho das novas e perigosas navegações do seu tempo.

O 18 de Janeiro de 1934, a militância clandestina no PCP, a prisão, a deportação para o Tarrafal, onde passou 10 anos da sua juventude, o assalto revolucionário ao quartel de Beja, outra vez a prisão. Depois do 25 de Abril, como dirigente do PS, a participação decisiva em todos os combates pela consolidação da liberdade, contra as derrapagens e derivas do curso democrático da revolução.

Os que hoje vivem em democracia não sabem o que lhe devem. A maior parte dos que dirigem e militam no PS também não. Eu fui testemunha e sei: sem o empenho do Edmundo Pedro talvez tudo tivesse sido diferente em 1975. Não falo só da sua militância, da sua presença física, da sua entrega e da sua coragem. Mas da sua extraordinária capacidade de explicar o porquê de cada combate.

Deve-se-lhe, aliás, ainda muito antes do 25 de Abril, uma das mais lúcidas reflexões teóricas sobre as razões da degenerescência do grande sonho da sua juventude, a revolução russa de 1917. Foi dos primeiros a pôr em causa a teoria do partido de vanguarda como consciência introduzida de fora no movimento operário. E a compreender que na obra de Marx não existe uma teoria do poder e do Estado e que foi nessa lacuna que principiou a gerar-se a perversão e a falência do modelo soviético.

Nos anos de brasa da nossa revolução, Edmundo Pedro andou de secção em secção a fazer pedagogia e a explicar até à exaustão que não há liberdade sem liberdades, nem socialismo sem democracia. A formação ideológica e política de um grande número de militantes que nessa altura ajudaram a transformar o PS no principal partido democrático deve-se em grande parte à capacidade pedagógica e à incrível paciência de Edmundo Pedro.

Ele gosta do debate e do confronto de ideias. Com os outros. E consigo mesmo. É uma alma desassossegada, que nunca se acomoda e gosta de despertar e desassossegar as consciências adormecidas.

Tem sido essa a grande navegação da sua vida. Recentemente, no movimento “Não apaguem a memória”, porque, melhor do que ninguém, ele sabe que ela é curta e que a questão do poder na história é sempre uma luta entre a memória e o esquecimento. Diz-se que faz 90 anos. Eu não acredito. Ele também não. Se agora lhe fosse dizer que está aí outra vez a caravela da resistência, da revolução e da liberdade, tenho a certeza de que ele seria de novo o primeiro a embarcar.

Manuel Alegre