Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Crónica do tempo escondido
24-01-2008 Público

Havia uma história por contar na História do século XX português. Aos 88 anos, Edmundo Pedro conseguiu esse milagre. O seu livro - Memórias, um combate pela liberdade - não é apenas o extraordinário romance de uma vida em que a realidade é mais rica do que a ficção, são sobretudo a crónica de um tempo escondido, o da emergência do movimento operário português e das suas grandes figuras: Bento Gonçalves, Francisco Paula de Oliveira (Pavel), José de Sousa, Gabriel Pedro (seu pai), ele próprio e muitos outros.

O tempo do Arsenal e desses homens que, tendo orgulho e brio no seu ofício, pouco a pouco aprenderam línguas, matemática, física, história, filosofia, até se tornarem operários intelectuais, com uma visão própria da sua classe e do seu papel. Não eram "uma consciência vinda de fora" para guiar a classe operária, mas uma consciência de dentro, homens exigentes em relação a si próprios, com uma preocupação de permanente aperfeiçoamento intelectual.

Mas este livro é também uma viagem por uma Lisboa que já não há, a Lisboa ribeirinha das fábricas, das tabernas e das lutas operárias, a Lisboa do anarco-sindicalismo e dos primeiros passos do Partido Comunista Português. Crónica de um tempo esquecido, quase secreto, crónica de um homem e de uma família que em tudo participou e a quem tudo aconteceu: a prisão simultânea de pai, mãe e filho, a morte de João, um irmão de Edmundo, a sua deportação, com apenas 17 anos, juntamente com o pai, Gabriel Pedro, para o campo de concentração do Tarrafal. Mas também a presença em todos os combates que tiveram a mais alta expressão na greve geral de 18 de Janeiro de 1934 e na fracassada tentativa insurreccional da Marinha Grande.

Romance de uma vida, com os primeiros amores, a morte, por doença, de Hermínia, a namorada, as prisões, as torturas, a dor da ausência, da privação e da separação. Romance e crónica do sacrifício e do dom de si, num tempo em que cegamente se acreditava que a revolução russa tinha aberto o caminho à criação do homem novo e que a União Soviética incarnava uma nova sociedade de onde para sempre seria abolida a exploração do homem pelo homem. E este é um dos aspectos mais importantes deste livro: como é que homens que, pelo estudo e conhecimento científico, procuravam uma visão racional da sociedade e do mundo, foram capazes de se deixar alienar por uma fé que era uma espécie de sucedâneo do sentimento religioso ou de Deus sem Deus? Esta grande tragédia vivida e sofrida por milhões de homens está contada neste livro como em muito poucos outros. Mas está também a entrega absoluta, a epopeia dos heróis desconhecidos do povo português que tudo sacrificaram, incluindo a própria vida, na resistência ao fascismo e na luta pelos seus ideais. Com objectividade, com factos, com os relatos da sua vivência pessoal, das suas detenções, a primeira com apenas quinze anos, das torturas a que foi submetido, assim como seu pai e outros militantes comunistas, Edmundo Pedro faz a desmistificação dos pretensos brandos costumes e mostra-nos, em toda a sua crueza, a brutalidade da repressão salazarista.

Mas a epopeia do heroísmo anónimo tem também o seu reverso: a conclusão de que os amanhãs que cantavam não passavam afinal de uma grande ilusão.

Edmundo Pedro foi um dos primeiros a compreender que o estalinismo não era um fenómeno devido às características de um homem, mas algo que já estava contido na teoria de Lenine sobre o partido e o Estado. No capítulo intitulado - "O simplismo marxista em que firmei as minhas certezas" - o autor sublinha que "uma das lacunas de Marx, que contribuiu para resultados práticos tão radicalmente opostos àqueles que defendia, foi a circunstância de não se ter pronunciado sobre a configuração do poder que profetizou para o proletariado." É nessa lacuna que, em seu entender, Lenine introduz a teoria do partido de vanguarda, para que "uma consciência vinda de fora" ajudasse a classe operária a construir um novo poder. É aí que radica a degenerescência totalitária que levaria à substituição da mítica "ditadura do proletariado" por uma ditadura do partido sobre o proletariado e todo o povo.

Quando chega ao campo de concentração do Tarrafal, Edmundo Pedro vê catorze tendas sobre um terreno pantanoso que os próprios presos haveriam de drenar. São páginas de antologia que constituem a mais completa descrição do Campo da Morte Lenta e que deviam ser lidas nas escolas. O reinado do terror do capitão Manuel dos Reis, um médico a quem chamavam o "tralheiro", um facínora que dizia aos presos que não estava ali para os curar mas para assinar certidões de óbito, a biliose, a morte de Bento Gonçalves e de tantos outros, a frigideira e o martírio de Gabriel Pedro que ali bateu todos os recordes de permanência. Mas apesar de tudo a coragem de resistir, aperfeiçoar conhecimentos, fazendo de um campo de sofrimento uma universidade de um novo tipo. As tentativas de fuga, as discussões e divisões a propósito do pacto germano-soviético, o isolamento, os trabalhos forçados, a ausência de notícias, a doença, o não se saber até quando. O Tarrafal existiu mesmo, foi obra de Salazar e ninguém o descreveu tão bem como Edmundo Pedro.

Finalmente: conheci bem seu pai, Gabriel Pedro. Parecia uma personagem saída da pena de Tolstoi ou Dostoiewski. Era um ser religioso sem religião, ora se entregava ao partido numa espécie de êxtase místico, ora entrava num período de dúvida e heresia. Alma inquieta, conheceu todos os degredos. Confiou-me as suas memórias manuscritas com o pedido de, por sua morte, as fazer chegar a seu filho Edmundo. Li-as. Documento fantástico, a lembrar os antigos livros de viagens e as velhas crónicas portuguesas. Quando morreu, fui a Paris levar o original à viúva para esta o entregar a Edmundo Pedro. Uma sobrinha deste, que estava presente, disse-me que ia bater tudo à máquina e dois dias depois me daria uma cópia. Quando lá voltei, a viúva comunicou-me que tinha entregue tudo a um dirigente do partido. Fiquei indignado. Mas apesar de todas as diligências nunca mais foi possível recuperar esse testemunho único, que os portugueses tinham o direito de conhecer. É outra crónica do tempo escondido que certos dirigentes do PCP, não sei porquê, decidiram continuar a esconder. É pena. Pelo Gabriel Pedro, pelo próprio PCP, por todos nós.

Manuel Alegre

Nota: este texto foi publicado no Jornal Público em versão não revista. A versão divulgada neste site é a versão final.