"A grande poesia não cabe num tweet"
Manuel Alegre
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Breve sumário de Sottomayor Cardia
07-12-2006 Público

Poucos dias depois de Mário Sottomayor Cardia ter morrido, telefonou-me Mário Cláudio a dizer-me que tinham sido colegas de carteira no Colégio Almeida Garrett. Fiquei assim a saber que lado a lado tinham estado, ainda meninos, dois dos maiores escritores portugueses. Um de romances, outro de ideias, o primeiro detentor dos maiores prémios literários, o segundo quase clandestino.

E, no entanto, não há muitas prosas tão depuradas, tão perfeitas, tão harmoniosas, como as de Mário Sottomayor Cardia. Estou a vê-lo a corrigir interminavelmente os artigos que escrevia. Nunca estavam acabados, quando se pensava que a última cópia dactilografada estava pronta, ele voltava a emendar, a cortar e a acrescentar. Nos seus artigos. Mas também nos comunicados que redigia em nome do PS. Nos dele, nos meus ou de Jaime Gama. Essa busca incessante da forma não era só uma preocupação de rigor e racionalidade. Era mesmo o gosto da forma pela forma. Ele acreditava na palavra, na sua substância, no seu peso próprio, na sua beleza. Era um artista. E não sei se ele sabia.

Conheci-o em Coimbra, em princípios dos anos 60. Entregou-me a mesma proclamação da Junta de Acção Patriótica, a que já se referiu Medeiros Ferreira. Nela se falava de levantamento armado, o que deixou alguns de nós em estado de grande exaltação. Mais tarde, em Ponta Delgada, Melo Antunes mostrou-me um artigo de Cardia publicado no jornal estudantil Quadrante. Dizia algo que nunca esqueci e que, de certo modo, era o fundamento filosófico do que andávamos a tentar fazer: "Só é livre o homem que liberta."

Cada um andou o seu caminho. Eu fui à guerra, estive preso, voltei, parti para o exílio. Ele por cá continuou os seus combates. Quatro vezes preso, na última das quais barbaramente espancado. As agressões provocaram-lhe um descolamento de retina e outros males de que nunca por completo se recomporia. Entretanto ele escreveria Por Uma Democracia Anticapitalista e Socialismo sem Dogma, dois livros pioneiros. Por essa altura, é por mim publicada no jornal Liberdade, da Frente Patriótica, uma crítica da teoria leninista de partido, considerando-a uma inversão idealista e voluntarista do marxismo. Creio que Cardia foi o primeiro eurocomunista português. Por vias diferentes estávamos a chegar às mesmas conclusões. A URSS não era um modelo. E não podia haver socialismo sem liberdade.

Cardia colaborou na fundação do PS e foi autor e co-autor dos seus principais textos doutrinários. É dele a formulação da "via original portuguesa para o socialismo".
Quando voltei, depois do 25 de Abril, foi ele o primeiro a convidar-me para entrar no PS. Director do Portugal Socialista, porta-voz do PS, Cardia teria uma influência decisiva na estratégia do partido, nesse ano extraordinário de 1975 em que, sob a liderança de Soares e Zenha, os socialistas portugueses, em aliança com os militares do Grupo dos Nove, mostraram que era possível passar da ditadura para a democracia sem cair numa nova ditadura de sinal contrário. Malraux falaria da desforra histórica dos mencheviques. Reuniões intermináveis, noites loucas, manifestações dia sim dia não. Nós próprios redigíamos, batíamos e distribuíamos os comunicados no carro do Cardia, do Edmundo Pedro ou do pai do Jaime Gama.

Outros tempos. E, também, outro PS. Estou a ver Cardia, na Constituinte, a criticar, contra a corrente, o sectarismo das nacionalizações. E, anos mais tarde, outra vez contra a corrente, a denunciar o sectarismo das privatizações. Estou a vê-lo em Coimbra, já ministro da Educação, a passear na Baixa, em atitude de desafio, no dia em que tinha mandado encerrar a Universidade. Como anos antes avançaria sozinho, contra os gorilas que carregavam sobre os estudantes em Lisboa. Ele era assim: desafiava o mundo desde que estivesse convencido da sua razão. A sua coragem era sobretudo moral. Era a força moral que comandava a coragem física.

Em certos momentos, Cardia esquecia-se do corpo. O dedo em riste de Cardia era capaz, pela sua superioridade moral, de fazer recuar polícias e gorilas. Ou de deixar um governo entalado, como quando se sublevou contra a lei de segurança interna do Bloco Central chefiado por Mário Soares. Ou quando perguntou, sempre de dedo espetado, ao então primeiro-ministro Cavaco Silva se condenava ou não a ditadura de Salazar.

Faz-me falta, o Cardia. Foi um dos meus maiores amigos pessoais e políticos. Faz-me falta, mesmo quando me acordava para perguntar se determinadas palavras se ajustavam ou não às frases, cada vez mais condensadas, da sua tese de doutoramento. A última vez que nos vimos foi na noite das eleições presidenciais, na sede da minha candidatura. E foi o nosso último abraço. Havia nele um excesso de lucidez, o que nunca lhe foi perdoado. Mas não sei se era tão absolutamente racionalista quanto se tem pretendido. Ele gostava de poesia e compreendia tudo. Mesmo o outro lado das coisas. Um dia, na Assembleia da República, disparou-me subitamente: - E se os mortos fôssemos nós?

Talvez agora ele já saiba.