Já se imaginou no papel Presidente da República?Não
(risos) . Tenho-me imaginado no papel de candidato a Presidente...
Já sabe o que precisa de fazer para derrotar Cavaco Silva?Bem, já fiz uma campanha contra Cavaco Silva, em condições muito difíceis, durante pouco mais de dois meses, sem o apoio de nenhum partido. Tinha Cavaco Silva de um lado e mais três candidatos do outro, todos contra mim, e fiquei a 29 mil votos da segunda volta. É possível derrotar Cavaco Silva. É difícil. Mas já nessa altura, lembro-me, quando me candidatei, tinha 7% nas sondagens e o actual Presidente aparecia com quase 80 por cento. Depois, acabámos assim... Foram circunstâncias diferentes: é claro que, teoricamente, o Presidente que se recandidata acaba por ter vantagem, mas só teoricamente.
Porquê só teoricamente?Nós temos uma situação muito complicada no País, e o Presidente é Cavaco Silva. Ainda por cima, ele usou muito o argumento de ser um economista, um professor de Finanças.
Acha que Cavaco Silva cometeu um erro ao apresentar-se como alguém que podia fazer parte da solução dos problemas?Sempre discordei do conceito da «cooperação estratégica». Aliás, no primeiro debate que tivemos, eu questionei esse conceito, que não é a mesma coisa que cooperação institucional, e tem implícita uma partilha das linhas de definição do Governo. Isso tem a ver com o perfil do actual Presidente, que é mais o de primeiro-ministro, o de governante. O que, aliás, se vê nas suas intervenções - do que ele gosta de falar é das opções do Governo, sobretudo quando elas têm a ver com as questões da economia e das finanças públicas. O problema é que ele não governa. O facto de termos, na Presidência, um ilustre professor de Finanças, não impediu que Portugal se encontre numa grave crise financeira e económica.
Essa pode ser uma das linhas da sua campanha? Imputar a Cavaco Silva essa incapacidade da cooperação estratégica?Gostava de dizer que, no plano pessoal, tenho muita consideração pela figura de Cavaco Silva, e pelo Presidente. Não tenho nenhuma razão de queixa. Nem isto é uma questão pessoal. É apenas uma visão política diferente do cargo de Presidente da República. E também de outras questões de natureza política. Como foi dito no Congresso do PSD, a reeleição do actual Presidente é essencial para o regresso da direita ao poder. O que está em causa nas próximas eleições não é só a escolha de um Presidente, é a escolha entre um projecto conservador e um projecto de mudança e renovação da vida democrática.
Como agiria Manuel Alegre, Presidente, nas actuais circunstâncias?Teria uma visão mais política e mais crítica, em relação à crise financeira mundial, em relação à situação europeia e à maneira como isso se repercute em Portugal. O Presidente não tem de substituir-se ao Governo. Não tem de ser um primeiro-ministro número dois.
Sentiu aquela ida do primeiro-ministro a Bruxelas, para anunciar novos cortes na despesa e mais impostos, como uma abdicação de soberania?A situação na Europa, e no mundo, com esta deriva financeira, leva a essa situação: uma perda considerável da autonomia de decisão. Não é uma perda total de soberania mas, se um país entrar em bancarrota, a soberania torna-se uma palavra sem conteúdo. Há uma supremacia dos mercados sobre a vida económica e política que retira muita autonomia e soberania às nações. Sem dúvida alguma. Em Portugal, discute-se muito pouco este problema. Creio que nem mesmo a Espanha, nenhum país sozinho, está em condições de resolver este problema.
Defende uma política social europeia?Sim, de coordenação das políticas económicas e fiscais. Tudo está a ser feito à pressa e sobre pressão do ataque especulativo ao euro. Qual é o projecto civilizacional que distingue a Europa? É o Estado social. Sem isso, a Europa tem pouco sentido. Somos um pequeno país, mas um país com História, com relações com o outro lado, com o Atlântico... Temos de fazer ouvir a nossa voz e a nossa discordância. Aquilo que me preocupa, neste momento, é mesmo o Estado social.
Enquanto Presidente da República, crê que o seu papel deve ser o de congregar esforços para repensar as coisas?O País precisa de uma grande mobilização. Não podemos viver sem esperança. E a esperança não pode ser apenas uma palavra. Esse é o papel do Presidente, o de ser alguém radicado no País, nos seus valores, na sua cultura, na sua identidade, e ter capacidade de mobilização. As crises também servem para aprender, para corrigir o que está mal, e para os povos se superarem a si mesmos.
Porque disse não ser «neutro» em relação à Constituição?Como afirmou Jorge Miranda, não há nenhuma razão de fundo para se rever a Constituição, que é democrática e consagra não só os direitos políticos, mas também os direitos sociais, como direitos humanos fundamentais. O que alguns pretendem é, precisamente, pôr em causa os direitos sociais. Eu não serei neutro.
No seu discurso de candidatura, criticou os silêncios de Cavaco Silva. Não os compreende, de todo?Compreendo alguns. Mas há silêncios do Presidente que são intervenções políticas. E também há algumas intervenções em que talvez fosse preferível que o Presidente tivesse falado menos...
Quer dar algum exemplo?A questão dos investimentos públicos. Foi uma insistência excessiva, antes, durante e depois das eleições. É uma matéria da competência do Governo. O Presidente tem direito à sua opinião. Eu reconheço-lhe, perante estas questões, ditas fracturantes, o direito a discordar, de ter a sua opinião. Já será mais complicado se puser em causa o que foi, legitimamente, aprovado na Assembleia da República.
Como encarou a comunicação ao País sobre a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo?O Presidente expôs as suas convicções, que merecem respeito, e invocou a «ética da responsabilidade» para promulgar direitos de que discorda mas que, no meu entender, colocam Portugal na vanguarda dos países que legislaram contra a discriminação.
No seu caso, teria recebido o grupo de ex-ministros das Finanças que foram criticar a política do Governo? (Silêncio) Acho que o Presidente deve receber quem lhe solicita ser recebido. Tem um significado político. Não somos ingénuos, nem eu nem o Presidente. Não é por acaso que eles lá foram neste momento. Preocupações com o País todos temos: ninguém possui o monopólio do patriotismo. Têm, com certeza, legítimas preocupações e, muitos deles, terão porventura razão. Mas aquela ida a Belém tem um significado político. Compreendo que seria difícil ao Presidente não os receber. Mas há muitas maneiras de fazer as coisas...
Revela alguma compreensão relativamente a este novo pacote de austeridade. É mais brando agora do que em relação à primeira versão do PEC...Em relação ao PEC mantenho tudo o que disse. Repito-o, aliás, agora. Mas a situação alterou-se. Para aceder ao pacote de estabilidade financeira alguma coisa teria de ser feita. Haveria alternativa? Poderia ser de outra maneira? A interrogação tem de ser posta.
Quanto ao aumento do IVA, por exemplo?Sim, sim, como a outras medidas do lado da despesa: há aí institutos que não servem para nada e podiam ser eliminados. E também em relação à ausência de medidas para os mais desfavorecidos. Mas não é possível ver isto fora do quadro europeu - e se o Governo nada fizesse? E a Espanha, que adoptou medidas mais duras?
O que está a dizer é que, fosse qual fosse o Governo em funções, não variariam muito as medidas? Acredita nisto? (Silêncio) Em Espanha, a banca paga mais imposto que a generalidade das empresas e, nos próprios Estados Unidos, Obama lançou um imposto especial sobre a banca, e eu penso que em Portugal também se poderia ir por aí. Mas nunca se vai... Qualquer Governo teria de aprovar um plano de redução do défice. Mas só isso não chega. É preciso um plano de crescimento. Não podemos ficar presos a este ciclo de austeridade, repressão, mais desemprego. Um país como o nosso não aguenta viver sem Estado social, sem o Serviço Nacional de Saúde, sem Segurança Social. Mas, também, se as medidas que se tomam estão correctas, e as pessoas acreditam nelas, não é preciso vir pedir desculpas.
Está a falar de Pedro Passos Coelho?Isso desagradou-me profundamente. Não ponho em causa que tenha tido uma preocupação com o País. Mas gostava que tivesse havido um debate mais alargado. Isto não é só PS e PSD. Há PCP, há BE, há CDS. E há, sobretudo, os parceiros sociais e, fundamentalmente, os sindicatos.
O primeiro-ministro anuncia medidas em Bruxelas, reúne-se, directamente, com o líder do PSD, dispensando o Parlamento... Não estamos a viver um curto-circuito institucional? O Parlamento não está a ser menorizado? (Silêncio) Uma vez critiquei uma revisão constitucional decidida a dois, entre Vítor Constâncio e Cavaco Silva. Hoje, a situação é diferente. Estamos perante uma emergência. Admito que deve ter havido uma razão muito forte e, porventura, a iminência de uma ruptura, para que isto tivesse acontecido. Algo de grave aconteceu, ou estava em vias de acontecer. Mas o Parlamento não pode ser menorizado, nem o diálogo se deve cingir aos dois maiores partidos, nem a um bloco central informal. Isso não é salutar para a democracia, nem é bom para ninguém. As pessoas têm de reaprender a dialogar. Agora falo não como candidato mas como homem de esquerda: é preciso retomar o diálogo à esquerda, quebrar esse tabu.
O PCP criticou-o por ter sido excluído dos encontros à esquerda a que se associou...Isso não é verdade. Mas posso fazer uma autocrítica, como o PCP gosta. Aquilo não foi uma reunião interpartidária. Nem eu representava o PS, nem alguém ali representava qualquer outro partido. O PCP é muito formal nisso, mas se eu pudesse voltar atrás, teria uma conversa com Jerónimo de Sousa, para evitar que as coisas se passassem assim. A ideia era quebrar o tabu da incomunicabilidade da esquerda. A direita, sempre que pode, une-se. A esquerda está coxa, porque não há diálogo. Evidentemente que considero o PCP um parceiro político indispensável.
E para o desfecho das presidenciais também?Isso com certeza. Mas compete ao PCP e aos seus órgãos próprios. Quando digo que não se perdem as presidenciais por culpa do PCP, não estou a dizer que conto com o seu apoio. O PCP, entre um candidato da esquerda e um candidato da direita, optará sempre pelo candidato da esquerda. É o que demonstra a experiência.
Está à espera que o PCP apresente um candidato? O PCP apresenta sempre um candidato, e até é útil que o faça. Fixa o seu próprio eleitorado e é um contributo para o debate político.
Como vê a moção de censura apresentada pelo PCP?É um direito constitucional do PCP...
Ainda está à espera do apoio do PS...Eu não sou refém de ninguém, mas também não quero que ninguém seja meu refém. É uma decisão que o PS tomará com toda a autonomia...
Já tem apoios organizados de estruturas do PS...Tenho apoios fortíssimos. Ainda há pouco recebi a notícia de que há mais secções que me vão apoiar. E não só: presidentes de federações, eminentíssimos dirigentes. Mas isto é uma decisão pessoal. Tomei-a, sem negociar com ninguém. Sou membro do PS, o PS é o meu partido. Agradar-me-ia muito ter o seu apoio para uma vitória. Eu não sou candidato ao segundo lugar. Vou lá pelo primeiro. Eu quero vencer.
Tem falado com José Sócrates?Não falo há algum tempo. Falámos na viagem a Moçambique e, depois disso, falámos ao telefone, mas não por causa das presidenciais. Não quero que haja a ideia de que estou a pressionar o PS. Tenho a convicção profunda de que tenho o apoio de uma grande maioria do PS, do partido real. Mas também de muitos independentes, pessoas de direita, e até monárquicos. Uma campanha não se faz apenas com o apoio dos partidos. Essa é talvez a razão principal da minha candidatura. A quem é que nós vamos passar o testemunho? Não acredito na regeneração da democracia sem mobilizar a juventude sem paternalismo. Dar-lhe a palavra.
Tem reparado na coincidência de pontos de vista entre Fernando Nobre e a sua campanha de 2006?Fernando Nobre tenta - assim o disse, o que acho extraordinário - que eu fique em terceiro lugar. Ele resigna-se com o segundo lugar. Eu não estou nesse campeonato. Respeito todos os candidatos. Nunca tive nenhuma questão com Fernando Nobre. Ele não tem sido muito simpático... Lançou a sua candidatura no mesmo dia e à mesma hora em que eu fiz um comício em Coimbra. Entrou em competição comigo, não sei porquê... Há ali qualquer coisa.
Tem alguma explicação para isso?Tenho... Mas não é o meu campeonato. A minha candidatura nasceu da rede de cidadania que foi criada em 2006. Há muita gente que quer participar e não tem onde, nem como. Há muitos cidadãos que não se reconhecem, a juventude não se reconhece...
Reparou nas críticas que lhe fizeram por estar, implicitamente, a censurar a opção pela deserção que muitos tomaram, nos anos sessenta, ao publicar a sua folha militar?Não! A deserção era perfeitamente legítima. Não pretendi condenar. Simplesmente, eu não desertei. É uma situação de facto. A deserção era uma das formas de luta contra o regime. Só que eu não a utilizei.
Na altura, pensou em desertar?Não. Discuti esse problema, mas por razões pessoais nunca pensei desertar. Mas anda aí uma campanha, numa grande impunidade, porque a internet permite a calúnia e a maldade, já não sou eu o visado, é a resistência antifascista. Querem ilegitimar a resistência, a voz da liberdade. Era o que faltava!