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Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao JN:
“Não estou a combater nenhum governo, o meu combate é com Cavaco”
27-09-2010 JN (título e destaques nossos)

“Não estou a combater nenhum governo, o meu combate é com Cavaco” afirma Manuel Alegre hoje em entrevista ao JN, onde analisa a actual crise, reafirmando a defesa do Estado social e a necessidade de manter as decisões em mãos nacionais. Quanto a eventuais acordos entre PS e PSD, Manuel Alegre considera "desejável que haja estabilidade e um Orçamento que corresponda às necessidades do país", mas frisa que não é “padrinho do bloco central ou de qualquer outra coisa”.
Veja o video da entrevista AQUI

PSD e PS entraram em ruptura nas negociações para o Orçamento. A intervenção de Cavaco Silva será suficiente para resolver o impasse?
O presidente já devia ter chamado os partidos há muito tempo, uma vez que a solução passa por eles. Chamou-os tarde. É evidente que a situação do país é complicada devido à grande pressão especulativa. E ainda é agravada por declarações alarmistas de políticos portugueses, alguns próximos do presidente da República, apelando por exemplo à intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Que espera de um encontro entre Cavaco Silva e os partidos?
Espero que haja sentido de Estado e sejam capazes de encontrar soluções que permitam salvaguardar em mãos nacionais a decisão para resolução dos nossos problemas.

E se o orçamento não passar?
É desejável que haja estabilidade e um Orçamento que corresponda às necessidades do país.

E qual seria esse orçamento?
O país precisa de rigor nas finanças públicas, para a sustentabilidade do próprio Estado Social. Mas precisa de mais: de um aproveitamento dos recursos endógenos, de um plano de crescimento económico, de políticas de emprego, de um melhor aproveitamento do mar, mas também da terra. E, sobretudo, que os centros de decisão continuem em mãos nacionais. Tenho ouvido apelos de ex-ministros das Finanças, políticos e comentadores, para que a Alemanha e a senhora Merkel (chanceler) venham resolver os nossos problemas ou para a entrada do FMI. Sou da geração que sabe o que isso significa. Implica sacrifícios muito grandes sobretudo para os mais desfavorecidos. E não há situação que o justifique. É o próprio presidente do FMI que o diz. Há um aproveitamento das direitas europeias e nacional para colocar em causa conquistas civilizacionais e direitos sociais, e criar dificuldades aos governos de Esquerda que restam: Grécia, Espanha e Portugal.

Para que o Orçamento passe, aceita uma espécie de Bloco Central?
Não sou padrinho do Bloco Central, nem de outra coisa qualquer.

O PS falhou na procura de apoios à Esquerda ou foram os outros partidos que não cooperaram?
Sempre desejei que houvesse diálogo à Esquerda, mas não depende só do PS, nem só dos outros. Mas temos de ser realistas. Até agora, tem sido muito difícil. Espero que a aprendizagem dos factos ou as circunstâncias propiciem pelos menos uma redução das tensões.

A ruptura entre PS e PSD é mais um motivo para dialogar à esquerda?
As pessoas têm que ter em conta que o país está numa situação muito difícil. Há uma pressão brutal. Querem destruir o Estado Social e baixar os custos de produção à custa da baixa do trabalho. O Serviço Nacional de Saúde, a segurança social e escola públicas, e a justa causa, são coisas de que os portugueses não podem prescindir. Aquilo que foi apresentado é um projecto estratégico contra o Estado Social. Haja ou não revisão constitucional.

É claramente contra essa proposta?
É aquilo que, neste momento, me diferencia de Cavaco Silva, porque pronuncio-me sobre isso.

A que questões deveria responder?
O que fará se alguém puser em causa o SNS? Concorda que se elimine o conceito de justa causa e se liberalizem os despedimentos? Deve ter opinião. Sei que a revisão constitucional respeita aos deputados mas todos sabem que aquele projecto, tal como está, não passa porque precisa de dois terços.

O país deve abandonar alguns projectos, como sugeriu Cavaco?
Alguns, se calhar, devem ser abandonados temporariamente. Mas é uma decisão do Governo. Há outra diferença entre mim e Cavaco. Não me candidato para governar. Sempre critiquei a cooperação estratégica, tem implícita uma partilha das decisões. Não há dois primeiro-ministro. A Constituição fala de cooperação institucional, que implica lealdade, mas não elimina o direito à opinião. O presidente deve saber usá-la, não gerir o silêncio. Pode ser mais activo e interventivo, mas noutros termos.

Como por exemplo?
Promulga leis importantes que depois desvaloriza. Na lei do casamento entre pessoas do mesmo género, no fundo, gostaria de vetar...

Admite dissolver a Assembleia?
Com certeza, mas em circunstâncias excepcionais, de grande instabilidade, em que uma maioria parlamentar já não corresponda ao sentimento geral da população.

Cavaco também é responsável pela crise económica?
Criou a ilusão de que, por ser um professor de finanças, ia resolver os problemas. Não resolveu porque não governa. Mas poderia ter sido mais interventivo em relação a pessoas da sua área política que estão a fazer os apelos para a entrada do FMI. Tal como o poderia ter sido face às pressões de fora. Um presidente tem a representação nacional e essa posição de garantir a soberania do país.

Concorda com as medidas de austeridade do Governo?
Está a ser feita uma pressão que lhe deixa muito pouca margem de manobra. É difícil um país sozinho resistir. Gostaria que o presidente ajudasse a essa resistência. Também é um padrinho das políticas de austeridade, eu não sou.

Crê que devia fazer-se mais do lado da despesa?
Quando se fala do lado da despesa, está a pensar-se em cortar os salários dos funcionários públicos, o financiamento do SNS...

E o subsídio de Natal?
Espero que não se chegue aí. E que não entre o FMI. Se não conseguirmos resolver os problemas mantendo os centros de decisão nas nossas mãos podemos chegar a uma situação perto da bancarrota e então tudo será pior. Mas não sou membro do Governo. E quem está em Belém neste momento é Cavaco Silva. Se alguém é padrinho de um Orçamento de austeridade ou do entendimento a todo o custo e não se pronuncia, não sou eu que o vou fazer.

Acredita que se chegará a acordo?
Não seria bom para o país que não houvesse Orçamento. E que houvesse um mau Orçamento ou que não correspondesse às necessidades do país. Mas também acho muito difícil que, com as actuais pressões, possa haver um orçamento que satisfaça toda a gente. Espero é que os sacrifícios sejam equitativamente distribuídos e sejam compensados socialmente.

Enquanto defensor da regionalização, concorda com regiões-piloto?
Isso implica uma revisão constitucional. E, além do Algarve, temos agora o Porto a querer ser região-piloto. Isso não ajuda.

Deve haver novo referendo?
Sim.

Logo após as presidenciais?
Deve discutir-se e não criar as dissensões que houve da primeira vez. Mas a sua concretização não está na ordem do dia.

"Passei a barreira do som. Isto está a bipolarizar"

Defensor Moura acusa a sua candidatura de ter sido capturada pela extrema-esquerda, deixando livre o centro-esquerda para ser conquistado pela direita. Quer comentar?
É uma justificação da sua própria candidatura. Candidatei-me por decisão pessoal, não negociei com nenhum partido, nem sequer com o meu. Anunciei a minha disponibilidade a 15 de Janeiro. Depois, houve um partido que decidiu apoiar-me. E, em seguida, o PS. É um apoio de que naturalmente gosto. É o meu partido, a quem dei muitos anos da minha vida e que ajudei a enraizar na sociedade. A origem da minha candidatura é um movimento de intervenção e cidadania. São redes de cidadãos espalhados pelo país. Em 2006, quando não tinha o apoio do meu partido, fiquei a menos de 30 mil votos da segunda volta.

E agora qual é sua expectativa?
O presidente que está em funções está numa situação de vantagem. Pode fazer campanha como presidente. E tem facilidades que os outros não têm. Portanto, é um combate desigual. Mas há grandes hipóteses de haver uma segunda volta. Pode ser derrotado à primeira. Mas gosto de ser realista e não alimentar falsas expectativas. Portanto, a expectativa mais realista é haver uma segunda volta e Cavaco ser derrotado. Será uma luta dura e renhida, já está sê-lo. Passei a “barreira de som”, que é a dos 30%. Isto está a bipolarizar.

As candidaturas de Defensor Moura, Fernando Nobre e Francisco Lopes contribuem ou não para forçar uma segunda volta?
Em 2006, havia quatro candidaturas e, como disse, não fui à segunda volta por muito pouco. Será possível se o objectivo de cada uma dessas candidaturas for derrotar Cavaco Silva. A candidatura comunista é útil, porque ninguém mobiliza melhor o eleitorado do PCP do que o próprio PCP. Sobre Fernando Nobre e Defensor Moura não quero pronunciar-me. E até tenho pena que não haja uma outra candidatura à Direita. Têm medo que eu ganhe. A esquerda neste aspecto é mais ousada.

Seria bem-vinda uma candidatura de Ribeiro e Castro?
Havendo uma parte do eleitorado da direita que está descontente com o presidente da República, seria normal que aparecesse.

Descontente por que razão?
Penso que uma delas é o facto de não ter vetado o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Defensor Moura diz que é com resignação que o PS o apoia.
Isso não posso aceitar. O problema é que vir a uma eleição presidencial dar a cara e defrontar um presidente que está lá não é fácil. A verdade é que ninguém se chegou à frente. Não impedi ninguém de o fazer. Houve muito nomes de que se falou e ninguém se chegou à frente. Depois houve uma sondagem sobre o melhor candidato para defrontar Cavaco. Em primeiro lugar, muito destacado: Manuel Alegre. Se calhar os dirigentes do PS viram essa sondagem. E não impedi nenhum dos outros candidatos de que se falou de se apresentarem.

Por que não o fizeram?
Isso é o que pergunto. Na política, há valores essenciais, como a coragem de ir ao combate, de correr riscos. Era muito mais cómodo ter ficado em casa, não tenho nada a provar. Já fui candidato e derrotei o candidato oficial do partido. E não era um candidato qualquer.

E a posição de líderes distritais, como o do Porto, antes da decisão oficial, contra o apoio do PS?
É o direito deles.

Mas sabe que há vários socialistas que discordam desse apoio...
Mas tenho muito mais que concordam. Socialistas e não socialistas.

O seu percurso fica marcado por um ciclo de críticas ao Governo de Sócrates e a outros do PS. Esse seu lado mais crítico desapareceu por causa da eleição presidencial?
Não sou deputado. Não estou a combater nenhum Governo. O meu combate é com Cavaco. Não tenho de apoiar nem a oposição nem o Executivo. Não estou a candidatar-me contra Sócrates, que é meu apoiante. Mas se tiver alguma discordância com ele, algo que tenha a ver com o país, com o exercício da Presidência da República, com certeza que a manifestarei.

Entrevista por Carla Soares