"Não gosto de engenharias sociais ou artificiais messiânicas"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em jantar de apoiantes em Braga:
"Se a nossa economia não cresce, vamos de recessão em recessão e nenhum povo pode viver assim"
07-10-2010

Amigos, companheiros e camaradas

Saúdo todos os presentes, saúdo na pessoa do meu mandatário e dos oradores que me precederam aqueles que me apoiam, cidadãos independentes dos movimentos cívicos e redes que estiveram na origem da minha candidatura, saúdo o Partido Socialista, saúdo o Bloco de Esquerda, saúdo todas os portugueses e portuguesas que estão com a minha candidatura e que querem fazer um movimento social capaz de impor a mudança de que Portugal precisa.

Há cerca de um ano, a 3 de Dezembro, disse aqui num jantar em Braga que havia um combate que chamava por nós. Estamos agora nesse combate, numa situação difícil no mundo, na Europa e em Portugal. Quero dizer daqui que o meu pensamento, o meu coração, a minha força, estão com os que sofrem as duras medidas de austeridade. Com os funcionários públicos, com os pensionistas, com o mais desfavorecidos atingidos por estas medidas. Não são as pessoas que são obrigadas a compreender os políticos, são os políticos que em momentos destes têm de estar próximo das pessoas, dar-lhes uma palavra que dê sentido ao seu dia-a-dia e aos sacrifícios por que estão a passar.

Disse há um ano, em 3 de Dezembro, que o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a OCDE estavam a aplicar as receitas que tinham estado na origem do grande colapso financeiro mundial – e eles aí estão, em toda a Europa.

Entrámos na Europa para ter uma Europa de coesão social, uma Europa de prosperidade partilhada, não uma Europa de austeridade, em que a recessão se soma à recessão e a depressão à depressão. Não uma Europa onde o país mais poderoso e o BCE ditam as leis aos países mais frágeis e a todos os países europeus.

Este é um momento de reflexão e viragem, não um momento de conformismo, nem de dizer, como diz às vezes o Presidente, que temos de aceitar as pressões que vêm de fora. Aquilo que dizem as empresas de rating e os que se enganaram redondamente na crise de 2007 ao condecorar o Presidente do Banco Central Europeu.

Sabemos que sozinhos não podemos mudar o mundo, mas já houve uma vez na história em que sozinhos iniciámos uma nova etapa; já houve uma vez, há trinta e tal anos, em que nós, com o 25 de Abril, iniciámos uma nova vaga democrática.

Podemos ser pioneiros outra vez. Não no sentido de soluções milagreiras, mas de não aceitarmos passivamente aquilo que nos é ditado de fora. Não aceitar a ditadura dos mercados financeiros. Não aceitar que se destruam as grandes transformações sociais: o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social Pública, a Escola Pública e o conceito de justa causa. Não aceitar que de Bruxelas venham agora dizer que é preciso flexibilizar, que é preciso liberalizar os despedimentos.

Como candidato à Presidência da República, em nome dos valores que defendo e em nome daqueles que me apoiam eu digo: Não! Nós vamos defender o conceito de justa causa, nós não vamos permitir a flexibilização dos despedimentos.

Temos de reflectir também nos nossos problemas. Há um velho problema português, o problema do endividamento. Mas isso não se resolve com congelamento de salários. Não se resolve com congelamento de pensões. Não se resolve com medidas que levam quase inevitavelmente, como hoje anunciou o Banco de Portugal, à recessão.

Não há só um problema de saúde pública, não há só um problema financeiro – há um problema da nossa economia. É preciso uma estratégia de crescimento económico, uma estratégia que tenha políticas de emprego, integrada, e investimentos públicos que sejam um estímulo para a nossa economia. Porque se a nossa economia não cresce, nós vamos de recessão em recessão, de dívida em dívida, caímos num círculo vicioso em que daqui a um ano estarão a anunciar novos sacrifícios. E nenhum povo pode viver assim.

Nós não podemos dizer que este ano é mau, para o ano é pior e daqui a dois anos pior ainda. Nós temos que dar às pessoas uma esperança. Nós temos que dar aos nossos filhos a esperança e a alegria de viver neste país, quando muitos deles já não atingem sequer uma situação idêntica à dos pais. Não podemos aceitar que a nossa juventude viva na precariedade. Não podemos permitir que as pessoas que consagraram a sua vida ao trabalho, pensando na reforma, pensando num futuro para os seus filhos, olhem agora para a frente e não vejam nada senão dificuldades e sacrifícios.

Não foi para isso que nós fizemos a resistência anti-fascista. Não foi para isso que se fez o 25 de Abril. Não foi para isso que se construiu a nossa democracia. Não foi para isso que nós construímos o nosso Estado social.

Eu quero ser neste momento a voz da esperança, a voz daqueles que não têm voz, a voz daqueles que estão a sofrer. Não tenho uma estratégia de cálculo, não tenho uma estratégia de silêncio. A minha candidatura é uma candidatura livre e independente, autónoma. Sou um republicano, sou um socialista, sou um patriota. Mas sou um homem que tem a responsabilidade de dizer aos portugueses que não vamos resignar-nos, não vamos aceitar que destruam o conteúdo social da nossa democracia.

A próxima eleição é uma eleição decisiva para o futuro político do nosso país. É preciso ter na Presidência da República alguém com uma outra visão de Portugal, alguém com uma visão aberta, com uma visão da liberdade e das liberdades, alguém que não tenha preconceitos em relação às discriminações, sejam elas quais forem. Alguém que quando promulgue uma lei não venha a seguir desvalorizá-la. E que quando tiver que vetar uma lei vete a lei. E que quando tiver que falar aos portugueses, fale claro aos portugueses. Que não seja um gestor de cálculos nem um gestor de silêncios. Alguém que tenha uma visão diferente, uma visão cultural do nosso país. Alguém para quem a Nação não seja só um manual de economia nem só números.

Nós não precisamos apenas da frieza técnica. Precisamos de uma visão cultural do nosso país, de uma visão histórica do nosso país, precisamos de sensibilidade social.

Precisamos de ter na Presidência da República alguém que ponha as pessoas antes dos números, das estatísticas e do manual de finanças. Precisamos de ter na Presidência da República alguém que garanta a estabilidade social como condição da própria estabilidade política e da estabilidade democrática do nosso país.

É por isso que estou neste combate. Para dizer aos portugueses que não se resignem, que não se conformem, que é possível, em volta desta candidatura, criar um grande movimento social, um grande movimento de esperança, um movimento que impulsione pela sua própria dinâmica uma mudança e um futuro novo para o nosso país.

Estou convencido que desta vez vai ser possível a segunda volta. Estou convencido que desta vez vai ser possível a vitória. E não é só porque há forças políticas e partidos políticos, inclusivamente o meu, que me apoiam, mas porque é uma necessidade nacional, uma necessidade de mudança, uma necessidade de haver esperança para Portugal. E porque os portugueses me conhecem e sabem o que tem sido o meu combate em defesa dos direitos políticos e em defesa dos direitos sociais.

Por isso, meus caros amigos, se há cinco anos ficámos a menos de 30.000 votos da segunda volta, vamos recuperar esses 30.000 votos, multiplicá-los por muitos mais, por muito mais cidadãs e cidadãos, do norte ao sul de Portugal, das regiões autónomas da Madeira e dos Açores, de todos os sítios onde houver comunidades portuguesas, porque onde há um português emigrado está Portugal.

Com todos os portugueses e portuguesas, nós vamos fazer renascer o espírito da República, o espírito do 25 de Abril, o espírito de democracia, com uma nova esperança, com uma nova confiança no futuro da nossa república e do nosso país.

Viva a República!

Viva Portugal!