"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Manuel Alegre no jantar de apoiantes em Viseu:
“A grande arma de um Presidente é a palavra transparente e clara”
05-11-2010

Quero desfazer alguns estereótipos que andam na comunicação a respeito do meu combate: não, não estou desaparecido, estou reaparecido em combate para disputar a vitória. E todos os combates da minha vida foram sempre difíceis.
Veja o discurso no Youtube AQUI

Vivemos um momento muito complexo no mundo, na Europa e em Portugal. A direita quer aproveitar esta crise para pôr em causa direitos sociais, querem rasgar o pacto social nascido no pós-guerra. O projecto de revisão constitucional do PSD é um programa estratégico contra o conteúdo social da nossa democracia. Até hoje o Presidente da República não se pronunciou. Mas agora é candidato, apoiado pelo PSD, autor deste projecto e por outro partido que também partilha deste projecto. Terá que dizer o que fará se for eleito e se porventura um governo da direita quiser pôr em causa os direitos sociais consagrados na Constituição.

Pela minha parte repito o que já disse: vetarei qualquer lei contra o Serviço Nacional de Saúde, contra a segurança social pública, contra a escola pública, contra o conceito de justa causa nos despedimentos. Porque se se destroem os direitos sociais, enfraquecem-se os direitos políticos. Uma democracia moderna sem direitos sociais é uma democracia mutilada. O que está em causa na próxima eleição presidencial não é só uma personalidade, mas um modelo de sociedade e o conteúdo social da democracia.

A minha geração viveu períodos difíceis, contra a ditadura e contra a guerra. Mas tínhamos uma perspectiva de futuro. Tínhamos a convicção de que mudando de regime nós resolveríamos os nossos problemas. Mas esta geração não tem a segurança que nós tínhamos em relação ao nosso próprio futuro individual. Não podemos dizer-lhes que não vão chegar onde chegaram os pais. Temos obrigação de criar um futuro de confiança e de esperança e de abrir uma perspectiva de futuro, de dar um sentido aos nossos jovens.

Por isso digo aos jovens: façam um pacto de insubmissão, revoltem-se. Se eu for eleito Presidente, estarei convosco em combate para que mude o paradigma, para que mude a vida e para que vocês tenham direito ao sol na vossa vida e na nossa democracia.

O Parlamento aprovou na generalidade um Orçamento de Estado com medidas muito duras. E que tem dois objectivos: em primeiro lugar resolver o problema das contas públicas, reduzir o défice; e amansar, acalmar os mercados financeiros. Só que os mercados financeiros não estão a acalmar. Os juros da dívida pública estão a aumentar. Os especuladores pairam como abutres sobre a nossa economia e sobre o nosso povo.

Por várias razões. Em primeiro lugar porque medidas de austeridade têm sempre um risco de recessão. Em segundo lugar porque há dúvidas sobre a estabilidade política e sobre a própria execução do orçamento. Mas sobretudo porque o novo eixo França-Alemanha, a senhora Merkel e o presidente Sarkozy, querem impor no Tratado uma nova exigência: isto é, os países que tiverem de recorrer ao Fundo de Estabilização Financeira serão obrigados e reestruturar a sua dívida. E isso faz com que os especuladores vão elevar os juros sobre os países periféricos que se encontram na situação em que se encontra Portugal. Isto é algo de intolerável e é uma ameaça à nossa soberania e à nossa autonomia de decisão.

A nossa economia não pode estar dependente dos humores voláteis dos mercados financeiros. Não podemos viver sob a ameaça de ciclos sucessivos de recessão e austeridade.

Há um combate a travar à escala europeia. A nossa diplomacia tem de ser mais activa. O Presidente da República não pode continuar calado. O Presidente tem que tomar iniciativas diplomáticas à escala europeia. Tem obrigação de fazer ouvir a sua voz em defesa do interesse nacional. Para acabar com esta lógica de submissão em submissão, de recessão em recessão, de austeridade em austeridade. Substituir esta lógica pela lógica com que foi criada a União Europeia e que é a lógica da coesão, a lógica de uma prosperidade partilhada, a lógica da solidariedade europeia. Essa é a obrigação do Presidente da República.

O Presidente está calado. Ainda não disse uma palavra. Ouvi o Primeiro Ministro dizer que ninguém nos poria de joelhos. Mas se os juros da dívida continuarem a subir, podem forçar Portugal a capitular, a abrir as portas ao FMI. Esta é uma ameaça gravíssima sobre a nossa economia. E eu não ouvi uma palavra do Presidente.
Porque o Presidente não existe apenas para gerir silêncios ou para uma diplomacia tão discreta, tão discreta, que não se dá por ela e cujos resultados não se conhecem.

Vi que o Presidente agora fala da repartição de sacrifícios. Suponho que talvez estivesse a falar daqueles accionistas que receberam dividendos fabulosos da PT e que com certeza não se vão eximir ao pagamento de impostos para não serem apenas os pobres a custear a dívida.

Há dois dias fui recebido por D. Manuel Clemente, Bispo do Porto. É uma grande figura, não só da Igreja mas da Cultura. Estivemos a falar das nossas dificuldades e ele disse: Nós somos um país muito antigo, este povo já passou muitas provas e vai sair desta. Deixou uma palavra de esperança e de confiança, de difícil esperança e difícil confiança.

Precisamos de soluções concretas. Estão a repetir-se as receitas que estiveram na origem da crise e as mesmas causas produzirão os mesmos efeitos. Bem sei que hoje não há modelos. Mas há um modelo que não serve, que é este. Temos obrigação de refazer o nosso tecido produtivo, de contar com os nosso recursos endógenos, de redescobrir o mar e a terra, de voltar a produzir, voltar a criar, ser auto-sustentável. Isso não se faz de um dia para o outro, mas é nossa obrigação procurar esse caminho.

O senhor Presidente está muito preocupado com novas soluções económicas. Espero que não sejam aquelas defendidas pelas empresas de rating que eu nunca o ouvi criticar.
Vi também que na inauguração da sua sede deu a palavra ao professor Freitas do Amaral, que fez o meu elogio como poeta e depois disse que eu vivia na lua. Se viver na lua é ter lutado pela liberdade, como sempre lutei, se viver na lua é ter ajudado a construir a nossa democracia, eu vivi na lua. Se viver na lua é querer ajudar a combater as desigualdades, a eliminar a pobreza estrutural que existe no nosso povo, a criar políticas de emprego e ajudar a desenvolver o nosso país, construir uma democracia com mais solidariedade e mais justiça social, então eu vivo na lua.

Mas também digo aos jovens, como disse um grande filósofo do século XX – peçam a lua, porque o direito dos jovens é pedirem o impossível.

O Presidente também falou das ilusões e da utopia. Mas se acabar com a precariedade é uma utopia, então vamos lá realizar essa utopia. Se acabar com a pobreza é uma utopia, então vamos lá realizar essa utopia. Se criar um país mais justo, mais solidário e mais fraterno é uma utopia, vamos realizar essa utopia.

O que não é possível é termos a desigualdade que temos na nossa sociedade, é termos o desequilíbrio entre um interior cada vez mais desertificado e um litoral cada vez mais sobrelotado. O flagelo da desertificação é um dos grandes combates do nosso país.

O Presidente da República não se candidata para governar, por isso critiquei o conceito de cooperação estratégica. Mas o que houve não foi cooperação institucional entre órgãos de soberania, só foi cooperação estratégica com o principal partido da oposição - quando se falava em asfixia democrática, surgiu o problema das escutas.

O Presidente da República deve ser um moderador, um árbitro, mas também um inspirador, que promova grandes debates sobre as grandes linhas estratégicas do futuro do país.

Eu sei que o Presidente prefere os silêncios. Mas a grande arma de um Presidente é a palavra. A palavra clara, a palavra transparente, a palavra democrática.

Já citei muitas vezes a resposta de Obama a Hilary, quando lhe disse: As palavras inspiram. As palavras ajudam a mudar a vida, ajudam a criar confiança e esperança, essa é uma arma da minha vida. A palavra escrita e a palavra falada claramente, olhos nos olhos perante os portugueses.

Eu não me calei quando era proibido falar. Eu falo claramente. Falo em português e em português claro, falo de um português que sabe quantos cantos tem Os Lusíadas e que uma nação não é só um manual de finanças, uma nação não é só economia, uma nação é a sua história, a sua cultura, a sua língua, a alma do seu povo.

É disso que Portugal precisa. De alguém que olhe para o país com outros olhos, de alguém que saiba projectar no mundo outra imagem de Portugal.

E não basta termos agora uma ideia ilusória sobre a Europa. Eu sou um europeísta mas nós temos que ter uma palavra portuguesa, afirmativa e crítica na Europa, porque a Europa precisa de decisões colegiais e não de decisões cozinhadas a dois por dois países que neste momento constituem um novo eixo no centro contra os países da periferia.

Temos que defender a nossa dimensão euro-atlântica. Além da Espanha, foram países africanos, da América Latina, da Ásia, das partes do mundo por onde andámos que nos deram o voto no Conselho de Segurança. Temos que defender essa dimensão da portugalidade de que falava Miguel Torga e que é a dimensão universal da nossa história e da nossa língua.

É preciso criar uma nova janela de esperança. Lanço daqui um alerta a todos os portugueses que prezam a democracia tal como ela existe, um alerta aos membros do meu partido, a todos os socialistas – acordem, despertem, porque este combate é decisivo para o futuro da democracia. Apelo a todos os membros do Bloco de Esquerda, aos comunistas, aos sociais-democratas e aos democratas cristãos que querem para Portugal um projecto humanista, solidário, uma democracia onde os direitos sociais sejam respeitados. Convoco todos para este combate, que é um combate pela democracia e por Portugal.

Viva a República.
Viva Portugal.