"Na televisão, os comentadores de futebol substituíram grandes figuras da literatura portuguesa"
Manuel Alegre
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Entrevista à revista SIM
"O outro lado" de Manuel Alegre, candidato à Presidência da República
07-11-2010 Revista SIM, nº 72

Natural de Águeda, Manuel Alegre começou a sua vida política ainda no tempo de estudante em Coimbra, e desde logo ficou “marcado” pela PIDE. O serviço militar e consequente chamada para a Guerra Colonial foram tentativas do regime de calar a sua revolta, mas nem durante esse período Manuel Alegre se conteve. Foi preso, fugiu e regressou a Portugal para se tornar num dos rostos do pós-25 de Abril. Ao fim de mais de 30 anos, candidatou-se à Presidência da República, sem apoios partidários e fazendo uma corrida “pelo lado de fora”. Conseguiu, contudo, angariar mais votos que Mário Soares, na batalha com Cavaco Silva. Voltou a candidatar-se este ano, desta vez com apoio partidário e logo de dois partidos (PS e BE) e espera contribuir para recuperar o país. O “político-poeta” (não lha fez confusão ser chamado assim) apresenta-se em entrevista à revista SIM.

É natural de Águeda, Distrito de Aveiro. Que recordações guarda da sua infância?
Águeda nessa altura era quase uma aldeia, havia campos, havia o rio. Tenho a nostalgia desse período, de grande deslumbramento e de aprendizagem da liberdade. Por um lado eu era um menino da terra, mas ao mesmo tempo um garoto da rua, porque tinha habilidade para jogar futebol, para nadar (fui campeão de natação), gostava da caça, da pesca, de andar com os ciganos, do ambiente do circo. Havia em Águeda esse clima de gente que passava e isso foi importante para a minha formação: essa participação no jogo, na pancada, na rua, aprender a defender-me pelas minhas próprias mãos, as brincadeiras proibidas, os jogos perigosos. Era também uma terra marcada por grandes diferenças sociais. Eu pertencia a uma família privilegiada, éramos dos poucos que usavam sapatos… essa diferença marcou-me sempre. Nessa altura os garotos da rua andavam descalços e vestiam fato de cotim. No inverno andavam com frieiras nas mãos e nos pés. Levavam para a escola um naco de broa e um pedaço de sardinha. Isso sempre me revoltou porque eram os meus companheiros de jogo. Essa diferença social, essa injustiça básica, acabaram depois por fazer de mim um homem de esquerda.

Também recordo a minha rua e os ofícios que nela havia, a arte de moldar a madeira, os sapatos, de amassar o pão – tudo isso que me ensinou a apreciar a importância da busca da forma para chegar à substância das coisas. E também a fala de Águeda, os ritmos da fala de Águeda, os cegos que passavam na rua a cantar aquelas histórias e aqueles “rimances” antigos, e as histórias que eu ouvia também na própria casa, do meu pai e da minha mãe. Talvez isso tenha a ver com o ritmo, com uma certa toada musical e com a estrutura musical que ficou na minha escrita e nos poemas.

Mais tarde chega a Coimbra, para estudar Direito. Qual a razão da sua escolha? Foi influência paternal? Durante a sua estadia em Coimbra, foi atleta, fundou o CITAC (Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra)... Considera que foi um jovem com “sangue na guelra”?
Fui para Coimbra por razões familiares relacionadas com a actividade profissional do meu pai. Eu era jovem, tinha uma vida intensa de desporto, de boémia, de teatro. Coimbra era mais do que o estudo e o curso de Direito. Havia, apesar de tudo, um ambiente de festa e de plenitude próprio da juventude.

Apoiar Humberto Delgado não foi uma opção de risco. Por que o fez?
Assisti à chegada de Humberto Delgado a Coimbra e ao Porto em 1958. Foi um verdadeiro levantamento nacional, popular e pacífico, era impossível perder, mas as eleições foram roubadas. Isso provocou uma grande viragem na minha consciência cívica e política. Percebi que aquele regime não podia ser derrubado nem com eleições nem por via legal. Isso criou em mim uma grande revolta. Estava disposto a tudo: pegar em armas, passar à clandestinidade.

Acha que foi um “rebelde” com causa? Sentiu a pressão do Estado Novo?
Eu estava em Coimbra quando veio a guerra e com ela a consciência de que ia ter que fazer uma opção: ou ir para a guerra, ir matar e morrer numa guerra que para nós era absurda, ou então ter que sair do país sem saber quando regressar. Nunca mais esquecerei o momento em que vi Salazar na televisão, de óculos na ponta do nariz e de dedo apontado, dizendo “Para Angola e em força”. Aquele dedo era apontado a cada um de nós e eu senti-o apontado a mim mesmo. A guerra criou a sensação do irremediável. Ia mudar por completo as nossas vidas.

A PIDE entendeu que a melhor maneira de o “calar” era enviá-lo para a Guerra Colonial. Nunca pensou fugir para o estrangeiro, à imagem do que sucedeu com outros políticos?
Não desertei porque nessa altura houve uma reunião de gente organizada clandestinamente, comunistas e não comunistas. Entendeu-se que a melhor orientação era fazer o serviço militar e ir, porque a juventude ia, o povo ia, nós devíamos ir também, até para ter autoridade moral para criticar e, eventualmente, organizar o próprio combate ao regime dentro das Forças Armadas. Por isso eu fui à guerra.

Fui chamado em 61, para Mafra. Em Dezembro de 61, já oficial, fiz em Coimbra o que terá sido porventura o primeiro discurso público contra a guerra, numa reunião das três academias. Toda a gente julgou que eu ia ser preso, mas não fui. Três dias depois, fui enviado para os Açores. Aí conheci Melo Antunes. Tentámos fazer uma revolução e tomar conta da ilha. Acabei por ser mobilizado para Angola em 62. Em Angola organizei e participei numa primeira tentativa de levantamento militar. Não resultou, fui denunciado e fui preso em Abril de 63. Aí conheci a prisão, uma prova importante na vida de um homem. Foram presos vários oficiais, mas eu fui o único entregue à PIDE, preso pela Polícia Militar e colocado na prisão da PIDE em S. Paulo de Luanda onde se encontravam três escritores angolanos - o Luandino Vieira, o António Jacinto e o António Cardoso - que depois me deram uma grande ajuda. Aí passei maus bocados, mas recordo duas coisas: primeiro, o estado da desgraça absoluta, que é ser entregue à PIDE numa situação daquelas, com vinte e poucos anos, acusado de uma tentativa de golpe de Estado em Angola. Pensei que me iam matar. Depois, o ter passado as provas, ter resistido, não ter traído, não ter denunciado ninguém durante os interrogatórios. Foi um dos momentos mais extraordinários da minha vida. Escrevi mentalmente alguns dos primeiros poemas da “Praça da Canção”. Estive seis meses completamente isolado. A ajuda que tive foi um bilhete, assinado pelo Luandino, que me foi entregue numa caixa de fósforos por um guarda negro africano onde estava gravado “tu não estás só”.

Ao fim de oito meses ou era julgado ou tinham que libertar-me. Para me julgarem tinham que julgar outros oficiais e isso ia destruir o mito da indefectível unidade das Forças Armadas. Em 1963 o Chefe do Estado Maior da Região Militar de Angola ordenou o meu regresso a Lisboa, na situação de disponibilidade mas sob prisão. Parti no "Vera Cruz" e cheguei em Dezembro de 1963. A PIDE fixou-me termo de identidade e residência em Coimbra. Em Maio de 1964 sou avisado de que corro o risco de ser outra vez preso. Refugiei-me em Lisboa e depois fui para a casa de Rui Feijó, na Senhora da Aparecida, em Lousada. Daí parti em Julho de 1964 para o exílio, atravessei clandestinamente a fronteira numa quinta, perto de Chaves. Encontrava-me então na situação de disponibilidade e com o serviço militar cumprido, incluindo situações de combate no norte de Angola, em Nambuangongo, onde vi morrer alguns companheiros.

A sua acção política continuou em Angola, onde dirigiu uma tentativa de revolta militar e foi preso pela PIDE. No entanto, há pessoas que o acusam de ter ajudado os rebeldes angolanos e que nunca prestou serviço militar. Isso é verdade?
Não tenho nada a esconder. A PIDE e alguns dos que sempre apoiaram a ditadura e a guerra colonial nunca me perdoaram a minha biografia e a minha obra. São os mesmos que agora voltam ao ataque com calúnias e difamações.

Como foi a sua vida no exílio de Argel?
Primeiro cheguei a Paris, onde contactei com outros exilados que já lá estavam. Paris era a segunda cidade portuguesa pela imigração económica e política. A Frente Patriótica nessa altura reagrupava as forças antifascistas, ainda com o general Delgado em Argel. Eu tinha a experiência do teatro, tinha uma voz de que as pessoas gostavam, havia uma rádio em Argel, “A Voz da Liberdade”, e fui convidado para a terceira conferência da Frente Patriótica e para trabalhar na rádio. Fiquei. Estávamos em Outubro de 64. Aí foi uma vida intensa, uma vida de paixão, de grande risco, com o seu lado aventuroso, romântico, de grande exaltação. Naquela altura nós tínhamos a ideia de que íamos mudar o mundo, de que a História estava a passar por nós. Foi um período de muitos acontecimentos, um processo de acontecer histórico permanente e contínuo. Naquela altura, tudo quanto andava a fazer a revolução no mundo, estava em Argel. Lá conheci Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, Eduardo Mondlane, Che Guevara.

Regressa a Portugal e faz todo o percurso no PS, sendo deputado por Coimbra e Lisboa. O que o move na política?
Todo o exílio é sem remédio. Há uma parte de nós que nunca chega a partir, há outra parte de nós que nunca mais voltará. Depois do “25 de Abril”, vivemos um período muito agitado, com coisas boas e outras mais dolorosas, confronto das ilusões com as realidades. Depois veio o período da institucionalização democrática, que também teve as suas exaltações, mas era diferente. Não se pode dizer que a política do dia a dia seja inspiradora. Aí está-se outra vez contra. É outra forma de resistência. É um drama que eu tenho vivido: talvez eu tenha um sentido exagerado da responsabilidade cívica, mas é muito difícil para um indivíduo como eu cortar absolutamente com a actividade política, porque isso pareceria uma deserção. E quando o país defronta de novo uma grave crise, que já não é apenas financeira mas económica e social, com consequências gravíssimas para a maioria dos portugueses e para o nosso futuro colectivo, senti-me no dever de dizer que estou disponível para mais um combate: um combate pelo conteúdo social da nossa democracia, pelo primado da política e da solidariedade sobre os egoísmos e os grandes interesses, por uma nova esperança para Portugal.

É conhecido como político-poeta. Incomoda-o essa designação?
Sou um poeta emprestado à política. Um poeta “com biografia a mais”, como disse uma vez a Clara Ferreira Alves, por pura provocação, contra a teoria então em voga de que o texto é tudo e o autor nada. Porque não é verdade que os grandes poetas não tenham biografia. Todos a têm. A ocultação da biografia é uma outra forma de biografia. O melhor exemplo é Pessoa: não se contentou com a dele, inventou a dos heterónimos, não viveu só uma, viveu a dele e as outras, vá lá saber-se qual a mais autêntica. Todas elas são a sua biografia ou, se se preferir, o seu destino.

Nas eleições de 2005, teve o apoio necessário, candidatando-se como independente? Como explica que tenha obtido mais votos (6%) que o candidato apoiado pelo partido, Mário Soares? Por que é que nunca foi uma personalidade consensual?
Ninguém esperava que nas eleições presidenciais de 2006 aparecesse um intruso. Tudo estava mediática e politicamente preparado para um confronto entre Cavaco Silva e Mário Soares. As tristes peripécias em torno da escolha de Mário Soares provocaram a indignação de muitos cidadãos, cansados de serem chamados a votar sobre escolhas já feitas pelo estreito círculo dos directórios partidários. Começaram por se indignar e acabaram por se auto-organizar à volta da candidatura de um intruso que, por acaso ou talvez não, fui eu. Neste caso, é difícil dizer, com precisão, qual foi o clique que fez emergir um movimento de cidadania de certo modo pré-existente à decisão de me candidatar. Ele já estava na sociedade e chegava até mim através de mensagens e apelos individuais com um denominador comum: o desencanto com os aparelhos partidários e o afunilamento da vida política, a vontade de participar e não ter como nem onde, o desejo de um reencontro com a intervenção cívica para vencer a descrença e renovar a confiança na política e na democracia. Não fui eu quem criou esse movimento de cidadania, foi ele que me obrigou a candidatar-me.

Por que se candidatou à Presidência da República?
Recuso a vida vidinha, recuso o conformismo e a resignação, recuso o desalento e o desencanto, recuso uma visão política que se resuma à gestão do poder e ao círculo vicioso do combate ao défice. Havia e há outros défices: o défice social, o défice da esperança, o défice do sonho e do ideal sem os quais a política não tem sentido. Essa era a palavra que eu podia levar aos portugueses. Não conseguia deixar de pensar que, em era de globalização, não sendo Portugal um país com poder económico nem militar, era necessário um Presidente que desse ao exercício do seu cargo uma outra dimensão, renovando os valores permanentes da nossa singularidade, a História, a cultura, a experiência multissecular de relacionamento com povos de outros continentes e, sobretudo, a nossa riqueza principal: a língua portuguesa. O desafio mantém-se. E eu não sou neutro, como tenho dito e repetido. Não me conformo, não me calo, não me refugio, não calculo. Não sou refém de nada nem de ninguém. É como sou, independente e livre, que me candidato. É também por isso que não posso ser “consensual”, mas sim clarificador. E é de clarificação que o país precisa.

Se tiver que destituir um Governo, fá-lo-á?
Nos termos da Constituição, o Presidente só pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas. Pode é dissolver a Assembleia da República, uma decisão de última instância que só deve ser tomada se concluir que é aos eleitores que cabe a decisão final. Não me candidato, no entanto, para demitir este ou outro governo. O Presidente da República não é um primeiro-ministro nº 2 nem o chefe da oposição. O Presidente é o representante da unidade nacional, o garante do regular funcionamento das instituições. Tem poderes de moderação e inspiração. Deve animar e mobilizar o país para cumprir o projecto inscrito na Constituição: uma República moderna, com liberdades e garantias individuais, com direitos sociais inseparáveis dos direitos políticos. Deve tentar ser, acima de tudo, o Presidente de todos os portugueses.

Mas a política é um exercício ético. Os portugueses esperam que o Presidente fale com clareza nos momentos difíceis. Que não se esconda por detrás de formalismos, ambiguidades e silêncios geradores de equívocos. Se tiver algum desacordo ou reserva em relação a uma lei, falarei antes, não depois. E, se promulgar, não virei a seguir desvalorizar a lei que foi promulgada. E se tiver que vetar, vetarei, sem me esconder atrás de falsos pretextos e álibis.

Qual a sua opinião sobre os outros candidatos?
Sem desprezar ninguém, acho que a candidatura de Francisco Lopes, do PCP, é natural. Até pode ser útil que vá às urnas. Sobre Fernando Nobre não me pronuncio porque não sei o que é que ele representa, como se define politicamente. O confronto vai ser entre o actual Presidente e a minha candidatura.

O Minho recebe regularmente a sua visita. Está a apostar forte no eleitorado da região?
Portugal é uma velha Nação que depois da descolonização voltou às suas fronteiras históricas. O meu apelo dirige-se a todos os portugueses, de Norte a Sul, dos Açores à Madeira, até às comunidades que residem no estrangeiro. Esta região, profundamente afectada pelo desemprego e pela precariedade, mas onde existe muita iniciativa, muita capacidade de inovação e muita gente jovem desesperançada, é com certeza crucial para a mudança que a minha candidatura quer desencadear e para a dinâmica social de que precisamos para levantar o país.

Curtas:

Um filme: “O Leopardo” de Visconti

Um livro: “Odisseia” de Homero

Uma viagem: A eterna e permanente procura do outro lado, do outro mar, da ilha que não há. Como Rafael, marinheiro português de Utopia, procurando Nusquama.

Um local onde se sinta bem: Os grandes espaços: o deserto, o Atlântico, o Alentejo. E sítios. Certas cidades: Coimbra, Paris, Roma, Veneza, Lisboa. Certos lugares: o Largo do Botaréu, em Águeda, o rio, a ria (de Aveiro), Barra, Costa Nova; Foz do Arelho, Barragem de Santa Clara.

Religião: Quem? Um grande ponto de interrogação. Toda a minha vida procurei o seu sentido ou a sua ausência.

Clube de futebol: O meu Pai jogou na Académica, eu fui campeão nacional e atleta internacional da Académica na modalidade de natação, os meus filhos vestiram a camisola negra da equipa de râguebi e com ela foram campeões nacionais e chamados à selecção. A Académica está em nós e nós somos da Académica como quem respira. No exílio, a par da Académica, o Benfica passou a ser também o meu clube, por razões que sou capaz de racionalizar e explicar. Embora eu esteja convencido de que tudo tenha começado muito antes, talvez pela cor, talvez pela palavra.

Lema de vida: Como D. Pedro, no alto de Penacova: “…mais do que poder o que é preciso / é outro modo de ser e outro país.”