"Nada está adquirido, tudo está a andar para trás muito depressa"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Livro- entrevista de Manuel Alegre a João Céu e Silva
"O Senghor foi um bom poeta e o D. Dinis também"
18-11-2010 João Céu e Silva, DN

Num livro-entrevista sobre a sua vida e obra, o poeta-político conta que ficou incomodado com o fim da amizade com Mário Soares, e que até lhe pediram que fosse ele a apresentar a candidatura do antigo camarada a Belém para ajudar a direcção do PS a resolver a situação, diz não saber se Fernando Nobre é de esquerda e esclarece que "não há nada que impeça o presidente de publicar um livro de poemas".

A certa altura do livro de João Céu e Silva Uma Longa Viagem com Manuel Alegre , o poeta-político admite ter "por aí poemas que davam para um ou dois livros". Questionado se apenas decidirá editar após as presidenciais, responde: "Pois... Conforme ela for, publicarei ou não..." E perante a dúvida suscitada - "quer dizer que se ganhar não publica, se ganhar publica?" - Alegre hesita: "Não vou responder a essa pergunta. Também não há nada que impeça o Presidente da República de publicar um livro de poemas. Seria um pouco singular e até uma originalidade."

Em Portugal só há o exemplo de D. Dinis, mas no estrangeiro existem Václav Havel ou Leopold Senghor. "E o Mao Tsé-Tung", acrescenta Alegre, "mas esse é mau exemplo, porque a poesia dele não era grande espingarda." O autor do livro (e jornalista do DN) provoca: "Parece que os governantes nunca são bons poetas." Alegre discorda. "Conforme, o Senghor foi um bom poeta e o D. Dinis também."

O livro mistura excertos autobiográficos retirados da obra do poeta com uma longa entrevista. Alegre evita a actualidade, mas acaba por se pronunciar sobre o fim da amizade com Soares. "Obviamente que me incomodou. Tivemos uma relação de grande cumplicidade e participámos juntos em combates estruturantes e fundadores da própria democracia portuguesa. Mas essa história está muito mal contada, porque o que se passou na altura foi que tanto José Sócrates como outros camaradas me contactaram para eu considerar a hipótese de ser o candidato à Presidência. Após os primeiros contactos, disse-lhes que não estava muito disposto a tal, mas houve insistências e, a partir de certa altura, comecei a reflectir. A um determinado momento, sou avisado por alguém de fora do PS de que se estava a preparar o lançamento da candidatura de Mário Soares. Fico muito surpreendido, tenho uma conversa com quem de direito e o que me é dito é que tinha sido o próprio Mário Soares - que em várias entrevistas tinha dito que estava disposto a apoiar-me se eu fosse o candidato do PS - a avançar e dizia que tinha de ser ele o candidato. Isso deixa-me muito surpreendido, pois, não sendo obrigado a dizer-me nada, é uma situação estranha que me leva a alterar a minha atitude e me deixa muito irritado."

Alegre acrescenta ainda que lhe foi pedido para ajudar a direcção do PS a resolver a questão - "e quase me é pedido para ser eu a fazer o anúncio da sua candidatura (...), mas não concordei com isso por ser uma situação muito pouco curial".

E, acerca da candidatura de Fernando Nobre, comenta: "É uma criação! Não se pode dizer que isto seja uma fractura da esquerda, porque não sei se (Fernando Nobre) é um homem de esquerda."

Dez minutos para escrever um discurso histórico

No I Congresso do PS, realizado em Dezembro de 1974, Mário Soares estava a ficar em minoria, arriscando-se a perder o partido para Manuel Serra, que "criou uma ligação ao Partido Comunista, ao Rosa Coutinho e àquela vanguarda militar vinculada ao Vasco Gonçalves". Nessa altura, "o Edmundo Pedro foi chamar-me - eu estava numa comissão a redigir um texto relativo à política externa - e aconteceu uma daquelas coisas que o poeta Yeates dizia, de poder fazer-se um discurso como quem faz um poema. 'Dêem-me dez minutos', foi o que pedi. Escrevi o discurso e ganhei o congresso. E isso muda a história do Partido Socialista, porque lhe garante a autonomia, e altera a história do Mário Soares".

Nessa altura, admite que havia muitos socialistas (além de si, figuras como Sottomayor Cardia, António Reis ou Lopes Cardoso) que entendiam estarem reunidas as "condições únicas para se fazer o que chamávamos a via original portuguesa para o socialismo", essa "coisa nunca feita" que era "conciliar o socialismo e a liberdade".

Evocar Cunhal e Otelo

Até à invasão da Checoslováquia, em 1968, quando entra em ruptura com o PCP, Manuel Alegre foi do Partido Comunista e até viveu um mês com Álvaro Cunhal. "Eu era novo e, como trabalhávamos até tarde - tínhamos a rádio, fazíamos jornais, respondíamos à correspondência dos militantes à rádio, redigíamos boletins em francês e em inglês para distribuir -, e éramos poucos, eu dormia um pouco mais do que ele. Normalmente, ainda estava a dormir quando o Cunhal vinha trazer-me o pequeno-almoço numa bandeja, com um pano no braço, dizendo: 'Vossa excelência é servida?' Fazia aquilo com ironia, mas eu ficava sempre com remorsos e muito envergonhado."

Ao longo do livro há referências a imensos vultos da cultura e da política. E episódios como o facto de ter escrito um pequeno texto para Otelo ler - "e é a partir daí que ele se projecta". "De facto", explica, "ele lê aquela coisa antes, declama impecavelmente o comunicado e, depois, ainda me pediu para escrever mais dois ou três do género."

Conversar com Che é sensação de filme

"Argel era, naquela altura, uma capital da utopia", onde se encontravam "os portugueses, os angolanos, os da África do Sul, o Oliver Tambo, que era o presidente do ANC enquanto o Mandela estava preso, os da SWAPO da Namíbia, do PAIGC, do MPLA e da FRELIMO", e também "os do Quebec Livre, os Panteras Negras, o Eldridge Cleaver, que eu conheci lá, o Carmichael, que era casado com a cantora Miriam Makeba". Foi ali que conversou com Che.

"É uma sensação quase fílmica, pois já naquela altura o Guevara era um mito e uma grande figura. (...) Não era muito falador, era até um pouco melancólico e metido consigo mesmo, talvez por causa do período de tensão que atravessava. Lembro-me de ele me ter dito: 'Mira, chico, no te vayas en Europa, que Europa esta podrida'; e de termos tido uma conversa em que eu defendia que, provavelmente, a primeira revolução na Europa seria em Portugal por causa da questão colonial."

Manuel Alegre também chegou a Paris nas vésperas do Maio de 68 e ficou instalado numa casa que era uma "varanda sobre os acontecimentos".

A adesão ao PS foi noticiada numa campanha na rádio

"Quem primeiro me diz para entrar no PS são velhos amigos - o António Arnaut, o meu cunhado António Portugal e o Mário Sottomayor Cardia -, mas, quando deixei de ser membro do Partido Comunista, havia jurado a mim mesmo que nunca mais entrava num partido. Porém, o 28 de Setembro (golpe imputado à direita), a ocupação da Emissora (Nacional) e o que eu vira de reacção recordaram-me o golpe do Chile e como Allende, tendo sido eleito pelo povo, morreu no seu posto a defender o voto popular."

Após o 28 de Setembro, "falando com o Edmundo Pedro, com o Piteira Santos, com o Nuno Bragança (com quem fundara os Centros Populares 25 de Abril, que eram uma coisa inspirada nos centros republicanos) e com outros camaradas chego à conclusão de que ou há um partido socialista que defenda uma via democrática ou a revolução iria acabar mal, com tanto folclore ultra-revolucionário esquerdista. O processo democrático não resistiria a uma golpada a sério da direita.

E é nessa altura que vou falar com o Mário Soares e tomo a decisão de aderir ao PS". E disse ao líder socialista: "Tenho muitas dúvidas sobre o PS. É preciso um Partido Socialista muito mais forte, com uma dinâmica popular muito grande e capaz de ser uma força que mobilize a opinião pública, que começa a ser afastada da base social do 25 de Abril."

Então, os socialistas "fizeram uma grande campanha na rádio" a noticiar a sua adesão.