"Amália, mais do que ela, é todos nós"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao DN e TSF:
“Não é com a liberalização dos despedimentos que a crise se resolve”
01-05-2011 DN e TSF, programa "Gente que conta"
Entrevista conduzida por João Marcelino

"Não é com a liberalização dos despedimentos que a crise se resolve. É com outra organização, sem destruir a contratação colectiva", afirmou Manuel Alegre em entrevista ao Diário de Notícias e TSF, divulgada no Dia do Trabalhador e num momento em que decorrem as negociações com a troika para o pacote de estabilização financeira do país. Manuel Alegre abordou as raízes da crise e as alternativas políticas em presença, considerando que "o arco do governo são todos os que estão representados na AR". Defensor de uma "cultura de negociação" e da abertura dos partidos à sociedade, Alegre entende que "é conveniente" o próximo governo ter apoio parlamentar maioritário, mas isso não pode ser imposto pelo Presidente, nem significa obrigatóriamente um governo de coligação. Quanto aos resultados eleitorais de 5 de Junho, Alegre, preocupado com o Estado social, considera que "tudo é possível", mas que não se deve "falsificar nem fazer batota" já que as diferenças entre o PS e o PSD são "substanciais".
Veja a entrevista na íntegra no desenvolvimento da notícia.
Veja um resumo em video AQUI

Como olha para esta crise política, financeira, económica e até social em que Portugal está mergulhado, com o pedido de assistência financeira à troika do FMI, do Banco Central Europeu (BCE) e da Comissão Europeia (CE)? E para o momento, apesar de tudo, de divergências entre os principais partidos?
Olho com muita preocupação. Nós temos de saber quais são as raízes desta crise. Quando Portugal aderiu ao euro, fez uma política monetária expansionista, com orçamentos expansionistas. Depois houve também uma política de crédito expansionista: subiram os consumos, aumentaram os salários, os bancos fizeram aquele assédio às pessoas que se conhece…

Acha que Portugal tem bons salários?
Não, mas houve um grande aumento naquela altura. De qualquer maneira a nossa economia não correspondeu, não aumentou a competitividade, e passámos a ter de recorrer ao crédito externo, a endividar-nos para financiar o consumo público e o consumo privado.

E esse estado de coisas é culpa de quem?
Esse estado de coisas é culpa de um conjunto de circunstâncias. Não podemos desligar esta crise também da situação internacional. Mas temos culpas próprias. A falta de competitividade…

“Se não sabemos quem fomos, não podemos saber quem somos”

Culpas próprias do PS, que está no Governo há seis anos? Do PSD, que esteve antes?
De todos os que lá estiveram, de todos! E, inclusivamente, do período em que esteve o actual Presidente (como primeiro-ministro) que fez obras importantes nas infra-estruturas, mas em que se desperdiçaram muito os fundos estruturais. Mas agora o que é preciso é tentar perceber isto e como é que vamos sair daqui.
Acho que temos um problema de soberania. Estamos a perder soberania no exercício interno, nacional, e também no quadro europeu. Temos um problema e um desafio culturais, porque há um défice cultural na política e nos actuais dirigentes políticos. Se não sabemos quem fomos, não podemos saber quem somos. Temos de saber melhor a nossa história, conhecer melhor a nossa capacidade, os nossos recursos, o nosso território. E aproveitar melhor a nossa geografia, o mar, a terra, as cidades, tudo o que temos de bom, inclusivamente o sol e o vento!
Temos um problema ideológico, que é um problema mais geral, porque estamos no meio de uma guerra: os neoconservadoers americanos desencadearam uma ofensiva contra o Obama, cortaram 4,3 triliões de dólares nas políticas sociais e isentaram 2% dos mais ricos de impostos, o que também representa uma quebra nas receitas de quatro vírgula qualquer coisa de biliões de dólares. Há uma guerra entre a moeda chinesa, o yuan, o dólar e o euro. Os conservadores, os republicanos, a que estão ligadas as agências de rating, querem acabar também com o euro, querem fazer implodir o euro e estão a seguir uma táctica de salame: foi a Grécia, foi a Irlanda. A seguir é a Espanha, para chegarem à Bélgica, à Itália e sabe-se lá se à França, para fazerem implodir o euro. E nós fomos apanhados.

É uma guerra do dólar contra o euro?
É uma guerra do dólar e do yuan contra o euro, mas é também uma guerra ideológica dos ultraconservadores contra o neokeynesianismo de Obama, com a conivência dos ultraconservadores europeus.

“A querela entre o PS e o PSD enfraquece a posição negocial de Portugal”

Isso está tudo muito certo, mas dizê-lo a propósito da realidade que vivemos em Portugal pode soar um pouco a desculpa.
Não, não acho.

Como é que acha que, perante essa realidade, os portugueses devem olhar para os jogos políticos que o PS e o PSD, sobretudo, continuam a fazer?
Neste momento era preciso que houvesse um entendimento. Agora, nestas negociações.

Não pode deixar de haver entendimento…
Mas não está a haver e isso enfraquece a capacidade negocial do País. Agora!

Mas como todos nós sabemos que vai ter de haver, isto não é uma encenação sem sentido?
Pois, está bem, já houve aquela iniciativa do Presidente, que aliás é louvável, de juntar os quatro presidentes, que são pessoas preocupadas com o País… Fizeram um apelo a um compromisso. Esta querela entre o PS e o PSD enfraquece a posição negocial de Portugal. Quando o PSD diz agora que vai negociar directamente com a troika , isso enfraquece a nossa posição negocial, significa que eles podem adoptar um pacote convencional, como alertava a Drª Maria João Rodrigues, que será muito mais gravoso para o nosso país.

Como um homem de esquerda, como vê a posição do Partido Comunista (PCP) e do Bloco de Esquerda (BE) que, pura e simplesmente, não quiseram conversar com a troika?
Não gosto de dar lições a ninguém, mas acho que eles deviam lá ter ido dizer aquilo que pensam. E conheço gente do Bloco de Esquerda e comunistas que também gostariam de se sentir representados. Eles não tinham de ir negociar, tinham de ir dizer a sua posição. Teria sido útil para o País, porque é preciso haver quem proteste, quem resista, é preciso haver inconformismo, mas a irredutibilidade pela irredutibilidade não leva a lado nenhum. Estamos numa situação em que é muito difícil mudar esta lógica, não há condições históricas para mudar esta lógica. Portanto, se eles não podem fazer a revolução ou se não há condições para fazerem uma revolução, ao menos que introduzam correcções nesta lógica e que haja um contributo positivo para soluções. Esta posição, em meu entender, é uma posição de contrapoder pelo contrapoder.

“Acho que falta uma cultura de compromisso, de negociação”

Quais são os seus maiores receios em relação às medidas que podem vir a ser impostas a Portugal?
Que vão atingir gravemente determinados aspectos do Estado social. E atingir…

As leis laborais?
Essa é uma velha questão. Mas nós já fizemos uma reforma do código laboral, contra a qual, aliás, eu votei.

E que hoje defende?
Que hoje defendo, quer dizer… acho que tem virtualidades que ainda não foram exploradas. Porque, citando mais uma vez a Drª Maria João Rodrigues, o problema não está nas leis dos despedimentos nem na degradação do mercado de trabalho. Acho que devia haver uma relação mais forte entre o rendimento do trabalho e a compensação do trabalho. Devia ser premiado o mérito, quem produz mais, quem tem mais criatividade. Não é com a liberalização dos despedimentos que a crise se resolve. É com outra organização, sem destruir a contratação colectiva. Há leis lá fora que são mais rígidas do que a nossa lei laboral e ninguém exige à França que mude as leis laborais!

Acha que o Estado social pode estar em perigo com o entendimento que Portugal necessariamente tem de fazer com o grande capital representado pela troika ?
Vamos ter eleições, tem havido grandes apelos a que haja um entendimento. Acho que há litigância a mais e falta, neste momento, uma cultura de compromisso, de negociação. E também há questões pessoais que inquinam as relações políticas. Pode-se ter divergências políticas e haver diálogo. Vivi aqui épocas como o PREC (1975) em que, apesar de tudo, as pessoas conversavam, dialogavam.

Mas hoje também dialogam. Passos Coelho esteve reunido várias horas com José Sócrates antes de ter votado contra o PREC IV…
Dialogam mal, deve haver uma cultura de compromisso. Mas, por outro lado, não podemos estar a condicionar nem a falsificar as eleições. Nas eleições vão estar em confronto, como projectos de governo, dois projectos que são diferentes. Há muito maiores diferenças do que se quer fazer crer entre o PSD e o PS.

O PSD tem uma posição ultraliberal em relação ao Estado Social

Mas o programa financeiro e económico de Portugal vai ser feito no exterior! Acha que pode haver grandes diferenças, objectivamente, nos próximos quatro anos, entre uma política económico-financeira levada a cabo pelo PS e pelo PSD?
O programa de governo não é só esse programa, porque há áreas em que isso não vai tocar. E de qualquer maneira não é indiferente que o próximo governo seja liderado pelo Dr. Passos Coelho ou pelo José Sócrates, pelo PS ou pelo PSD. O PSD tem uma posição muito mais ultraliberal em relação ao Estado social. Ainda há bocado li uma coisa do secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, dizendo que a filha do homem mais rico não pode pagar a mesma coisa que paga a filha do homem mais pobre no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Acho que ela tem o mesmo direito que tem a filha do homem mais pobre e dizer isto é pôr em causa a universalidade do SNS. O problema está nos impostos. O homem mais rico deve pagar muito mais impostos do que, porventura, já paga.

Em teoria, já paga.
Em teoria, já paga, mas se calhar tem de pagar mais. O financiamento do SNS, como de outros serviços sociais, é feito pelo imposto e pela progressividade dos impostos.

Compreendeu a estratégia do primeiro-ministro de negar até ao fim a necessidade de uma intervenção exterior e de dizer, inclusivamente, que não estava disponível para continuar a governar com o FMI?
Eu conversei bastantes vezes com ele, ouvi-o. Acho que havia nele uma grande determinação. Não estou no Governo, não conheço todos os pormenores, mas acho que ele estava convencido de que ia conseguir, tinha negociado aquele…

Que ia conseguir fazer chegar o País ao momento em que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira estaria mais flexibilizado?
Com maior flexibilidade e em condições que seriam mais favoráveis do que estas agora. E aí, o chumbo do PEC IV despoletou uma crise que criou condições para que agora as soluções venham a ser mais gravosas para o País. Isso é indiscutível.

"É preciso deixar o povo pronunciar-se"

Tem a certeza de que este próximo acto eleitoral pode ajudar a clarificar a situação partidária em Portugal? Ou podemos chegar ao fim e estarmos num quadro partidário mais ou menos igual ao que tivemos e, portanto, isso não fazer sentido?
Se há eleições em que é difícil fazer uma previsão são estas. Tudo pode acontecer. Mas pode ficar um quadro muito parecido. Agora, se se recorre ao povo, é preciso deixar o povo pronunciar-se. Não podemos estar a fabricar soluções antes de o povo se pronunciar. Tem de haver diálogo, tem de haver acordo sobre determinadas áreas, nomeadamente no que diz respeito à consolidação das contas públicas. Mas depois há políticas muito diferentes. O PS tem uma posição muito diferente em relação às questões do Estado social, SNS, Segurança social pública, leis do trabalho, escola pública, etc. Há diferenças substanciais. É preciso que o povo se pronuncie e diga aquilo que quer. Porque se estamos a falsificar e a fazer batota… Toda a gente já aposta num governo PS-PSD. Uma coisa é a negociação, é o entendimento, outra coisa é a coligação. Pode haver entendimento, haver acordos de incidência parlamentar, sem necessariamente haver coligação. E pode haver outras soluções.

Também é sua opinião que não pode haver, nos próximos anos, um governo que não seja de maioria no Parlamento?
É conveniente que haja um apoio parlamentar. Mas pode haver um governo que, não sendo de maioria, tenha um acordo parlamentar maioritário. Isso é também possível.

O arco do governo são todos os que estão representados na AR

Acha que o Presidente da República (PR) poderia dar posse a um governo que não fosse maioritário?
Às vezes pede-se ao Presidente coisas que ele não pode fazer. O PR pode exercer a sua magistratura de influência. Mas se não houver acordo na Assembleia entre os partidos para fazer um governo de coligação, o PR o que faz? Dissolve outra vez a Assembleia? Passamos a estar numa dissolução permanente, em eleição permanente? Não é possível. Ele não pode impor. Pode tentar convencer, mas ninguém pode impor soluções aos partidos no quadro da Assembleia da República. É evidente que a pressão da opinião pública e o próprio bom senso dos políticos têm de ajudar a encontrar uma solução. Mas também acho que – li num artigo do Vital Moreira, com quem nem sempre estou de acordo, mas agora estou – não se deve excluir ninguém à partida. Quando oiço falar do arco do Governo… Para mim, o arco do Governo são todos os que estão representados na Assembleia da República. Todos. Todos podem ser governo, alguns podem é auto-excluir-se.

Gostaria que o PCP e o BE estivessem disponíveis para soluções de governo?
Gostaria, mas infelizmente parece que não estão neste quadro. Se ganhassem as eleições ou se tivessem a maioria, se calhar já estavam. Mas seria bom que num momento desta natureza eles dessem um contributo positivo, que houvesse possibilidades de haver entendimentos entre o PS e os outros partidos da esquerda, sem capitulação nem desonra da parte de ninguém. Penso que da parte do PCP e do BE há uma preocupação em serem ideologicamente, quimicamente, puros. Isso não contribui para a resolução dos problemas do País. Não podem querer fazer do PS a bengala de políticas que não são as suas, ou a bengala agora do PSD. Por que é que se quer o PS neste Governo? Porque se tem medo que, se o PS não estiver no Governo, e se houver um governo liderado pelo PSD sem o PS, a contestação vá aumentar e que o PS venha a juntar-se na rua ao Bloco ou ao PCP. Mas essa não é a função do PS.

Pedro Passos Coelho diz que a ideia de fabricar em Portugal uma espécie de união nacional é uma perversão. Como é que comenta esta afirmação, sendo que foi proferida depois daqueles apoios de que há pouco falava, dos “quatro presidentes”?
Se houvesse o objectivo de criar uma união nacional, ele teria razão naquilo que diz. Eu acho que os presidentes fizeram um apelo bem intencionado. São pessoas com uma grande experiência política que estão preocupadas com a situação do País. Acho que o apelo é mais um apelo ao diálogo, à tal cultura de negociação e à cultura de compromisso, não a uma união nacional. A união nacional era a abolição da democracia, todos eles são democratas e com uma larga experiência democrática. Mas acho que há também alguma ilusão nisso, porque a democracia é aquilo que é e o confronto político-partidário também. Isso não se muda de um dia para o outro. Portanto vamos ter uma campanha eleitoral em que se vai disputar o poder, sobretudo entre o PS e o PSD, e vai disputar-se duramente o poder.

E está confiante em que o PS pode ganhar essas eleições?
Pode ganhar as eleições, pode perder. Convém nestas coisas nunca deitar foguetes antes da festa.

Os partidos não se podem representar a si mesmos, têm de representar a sociedade

No congresso do PS recentemente organizado em Matosinhos, deu um mediático abraço a Almeida Santos. Foi o gesto simbólico de reconciliação com o PS depois de dois ou três anos, pré-eleições presidenciais, em que muitas vezes esteve contra algumas das atitudes e decisões do seu partido?
Estive muitas vezes contra. Estou no PS há 35, 36 ou 37 anos.

E nunca lhe passou pela cabeça sair?
Sair do PS? Não, nunca me passou pela cabeça sair do PS. Sou um dos homens que ajudou a fundar o PS e que teve, segundo disse o Dr. Mário Soares em várias ocasiões, um papel determinante no primeiro congresso, que é decisivo, que garante a autonomia do PS perante aqueles que o queriam satelizar e atrelar a um projecto que nada tinha que ver com o curso democrático do 25 de Abril.

Mas está finalmente em paz, a 100%, com o PS?
Em paz nunca se está. O PS é um partido plural, em que há liberdade de opinião para quem a quer exercer. Há muitas pessoas que se autocensuram. Eu nunca me autocensurei e também nunca fui castigado por isso.

Nos últimos dois congressos tem parecido, de fora, que tem havido muita autocensura, porque a unanimidade ou o unanimismo à volta do secretário-geral tem sido a tónica…
Isso está a existir em todos os partidos. Na minha geração fazia-se muito a criticado modelo estalinista, do culto da personalidade…O partido, se calhar, em que hoje isso existe menos é o PCP, passou mais para os outros partidos. Eu acho que o Jorge Sampaio disse isso há tempos e eu estou de acordo: os partidos estão fechados, há pouco debate de ideias, vive-se muito à volta do líder. Mas isso passa-se em todos. Esse é outro dos desafios desta crise: tem de haver um desafio democrático de abertura. Os partidos têm de se abrir, tem de se conjugar a democracia representativa com a democracia participativa.

Acha possível fazer essas mudanças de dentro para fora?
Também têm de vir de fora para dentro, com a pressão da opinião pública, destes movimentos que estão a surgir. Veja-se a juventude, que esteve muito tempo divorciada da política, tem o futuro bloqueado e, portanto, está a compreender que tem de intervir e de maneiras diferentes. Disse isso no congresso. Os partidos políticos não se podem representar a si mesmos, têm de representar a sociedade e têm de estar atentos a esses novos fenómenos que surgem na vida portuguesa.

Devia ter havido uma palavra de maior consideração para Teixeira dos Santos

Como é que interpreta as ausências dos ainda ministros Teixeira dos Santos e Luís Amado da lista de deputados do PS?
O Luís Amado não está porque não quer, não é?

Tem a certeza disso?
Tenho, tenho a certeza. Estou convencido disso. Pelo menos ele disse-o muitas vezes, que estava farto e não queria. Mas eu não acompanhei a elaboração das listas. Tenho muita consideração pelo Teixeira dos Santos. Aliás mandei-lhe uma mensagem de solidariedade. Divergindo muitas vezes das soluções que vieram e de uma visão por vezes excessivamente tecnocrática, ele foi o rosto, foi o homem do esforço, da dedicação. Fez um trabalho considerável pelo Governo e pelo País, portanto, é merecedor do reconhecimento do PS e não só. O que se passou em relação a ele ser deputado ou não, não sei. Mas fiquei um pouco chocado com a explicação que foi publicamente dada, nomeadamente pelo meu camarada que está encarregado da elaboração das listas. Foi uma explicação que não era explicação. Devia ter havido uma palavra de maior consideração, de maior reconhecimento e de louvor pessoal.

Está a falar de Vieira da Silva, que também é ministro?
Exactamente.

Ferro Rodrigues, embaixador na OCDE desde 2005, que regressa para ser o cabeça de lista por Lisboa, é o “pai” do rendimento social de inserção. Parece-me que esta escolha tem a ver com sinais que o PS quer dar para a sua esquerda. Não se arrisca a ser um acto falhado, como foi também um pouco Vital Moreira nas últimas eleições europeias?
Não, são pessoas diferentes. São pessoas muito diferentes.

E gostou de o ver regressar ao PS?
Com certeza que sim, ele foi secretário-geral do PS, travou uma grande batalha eleitoral nessa altura. É bom que o PS recupere as suas figuras de referência, mas são casos diferentes. O Vital Moreira não é membro do PS, nunca foi. Tem estado muito perto, mas nunca foi.

Mas foi assim que foi lido por fora: um sinal que o PS naquela altura quis dar à esquerda. A escolha de Ferro Rodrigues tem uma intenção semelhante?
O Ferro Rodrigues é um homem do PS e é um homem que ajuda a mobilizar o núcleo fundamental do PS.

E ajuda o PS a falar para a esquerda?
É um homem de políticas sociais. Tem uma perspectiva de esquerda, socialista, social-democrata, como quiser, das políticas sociais. Mas, por exemplo, ele defendeu uma coligação PS-PSD, o que não é propriamente uma posição muito curial para outras pessoas de esquerda do PS.

Jaime Gama renunciou a continuar deputado. Acredita que é um abandono definitivo da política ou que pode dar ao PS mais uma opção para as próximas presidenciais?
Conheço muito bem o Jaime Gama. Aliás, participámos juntos nas batalhas decisivas de 1974-1975. É uma pessoa de grande inteligência política, com muitas provas dadas, quer como ministro dos Negócios Estrangeiros quer também agora como Presidente da Assembleia da República. Não sei o que é que ele pretende fazer, a decisão creio que é de carácter pessoal. Muitas vezes tomam-se essas decisões sem projectos imediatos, não creio que seja uma atitude calculista. Agora, ele é sempre um candidato àquilo que quiser.

Em entrevista à TVI, José Sócrates admitiu que era possível e desejável um entendimento pós-eleitoral com o PSD, apesar de Passos Coelho já ter dito que não estaria disposto a acordos com José Sócrates…
É muito mau que se venha dizer que não se negoceia com este ou com aquele. Quem escolhe os líderes partidários são os militantes dos partidos. Já ouvi da parte de vários dirigentes do PSD, e não só, de vários comentadores e pessoas até fora dos partidos, dizendo que com José Sócrates, nada. O José Sócrates, goste-se ou não, foi escolhido e foi escolhido por uma larguíssima maioria do PS. Portanto, quem quiser entender-se com o PS tem de se entender com este PS liderado por este secretário-geral.

Depois do que se passou nos últimos anos, não é pouco credível esta afirmação do primeiro-ministro, de abertura ao diálogo? Se havia alguém que em Portugal não gostava de fazer acordos e negociações não era ele mesmo?
Mas ele diz, e tem repetido várias vezes, que quando foi da votação do PEC IV, ou depois das últimas eleições, quis negociar e fazer acordos com todos os partidos.

Em eleições tudo é possível

Formalmente isso é verdade, mas nunca se viu grande vontade política…
Temos de julgar os actos políticos e não as intenções. Toda a gente sabe que José Sócrates prefere ter uma maioria dele do que estar a negociar, mas José Sócrates também é um homem que tem experiência política, inteligente, determinado mas inteligente, também percebe que a situação é diferente. Quando penso numa maioria, penso que ele está a pedir uma maioria para o PS, que é aquilo que deve fazer um líder político. É normal em eleições, embora isso seja pouco previsível. Mas nunca se sabe. Em eleições tudo é possível, desde a maioria que não se espera à derrota estrondosa com que não se conta.

Como é que tem visto esta aproximação paulatina do PS ao PSD nas sondagens? Acha que se deve a quê?
Deve-se a vários factores. Houve uma socióloga que disse que quem pedisse, ou quem reconhecesse, que era necessária a ajuda externa ia tirar benefício disso. Deve-se ao efeito do congresso do PS e a alguns erros cometidos pela liderança do PSD. A alguns erros, à falta de programa, a atitudes muito erráticas… Aquele problema da escolha do presidente da Assembleia da República, que não é eleito…

É eleito pelos deputados.
É eleito pelos deputados. Eu lembro-me de um episódio com o meu amigo Barbosa de Melo, que foi presidente da Assembleia da República e é uma pessoa de experiência e de grande categoria. Por razões internas do PSD, ele foi eleito à segunda ou à terceira vez e foi com os votos do PS e suponho até que de outros partidos da esquerda. Se isso acontece a uma pessoa como o Dr. Barbosa de Melo, o que é que não fará… O comportamento do Dr. Fernando Nobre não me surpreende, ele deu lições de moral a toda a gente, eu não lhe dou lição moral nenhuma. Ele é livre de escolher ou não escolher. O que me preocupa é que da parte de um candidato a primeiro-ministro e líder de um partido com as responsabilidades do PSD se tenha feito aquela escolha, prometendo-lhe aquele lugar.

E isso é um erro político?
É um erro político grave que, provavelmente custou caro e custou uma descida substancial das sondagens dentro do próprio PSD e dentro do próprio eleitorado do PSD. Porque há no PSD figuras: está lá o Dr. Mota Amaral, que foi presidente da Assembleia da República; o António Capucho, quer toda a gente sabia que queria ser presidente da Assembleia da República e também tinha perfil para isso; e outros, o Dr. Marques Mendes não sei se queria ou não queria. O PSD tem gente com perfil para ser presidente da Assembleia que é natural que se sinta desconsiderada.

Apesar desta aparente unanimidade em volta de José Sócrates, o PS tem neste momento nomes capazes de substituir o actual secretário-geral quando isso vier a ser preciso, sobretudo se for proximamente?
Com certeza que tem nomes, mas neste momento quem é o líder é José Sócrates. Ele vai bater-se para ser primeiro-ministro, para ganhar as eleições. Espero que ganhe, eu estarei com o Partido Socialista neste combate. Agora, nada é definitivo em política. Nem o Salazar foi definitivo. Há mudanças. E há gente, há o António José Seguro, o António Costa, o Francisco Assis, o próprio Ferro Rodrigues, que agora regressou, o Jaime Gama, há nomes que podem, se quiserem. Mas sobre isso não quero fazer prognósticos, porque isso depende também da vontade e da capacidade. O próximo líder do PS, quando isso vier a acontecer, tem de resultar da vontade dos militantes e da capacidade de quem se candidatar.

Fui candidato numa situação de crise, não sei se o apoio dos partidos me favoreceu ou desfavoreceu

As eleições presidenciais foram há quatro meses. Tem mantido silêncio sobre as contingências dessas eleições que perdeu. Teve menos de 20% de votos, apesar do apoio oficial de dois partidos, PS e BE. Foi difícil a digestão da derrota?
É sempre difícil a digestão, mas é preciso ver que estas eleições…

Estava à espera de mais, com certeza?
Sim, estava à espera de mais. Mas é preciso ver que eu fui candidato numa situação de crise, não sei se o apoio dos partidos me favoreceu ou desfavoreceu.

Há quem diga que desfavoreceu, claramente…
Se calhar, desfavoreceu. Mas não sei.

Quer dizer que se voltasse atrás gostaria de ser candidato independente?
Não, não. Custa-me estar a falar nisso, porque o que está feito, está feito. Mas eu não negociei a minha candidatura, eu declarei a minha disponibilidade. Depois nos Açores, a 4 de Maio, formalizei a candidatura e o PS só depois é que deu o apoio. O BE fê-lo antes, mas eu oficialmente não fui candidato de nenhum partido, fui um candidato independente apoiado por dois partidos. Simplesmente, quando eu declarei a minha disponibilidade, a situação era uma; quando as eleições se realizaram, era outra, estávamos numa crise muito aguda. E a campanha presidencial não estava na agenda, não estava na cabeça das pessoas.

Esteve ali alguns dias a pensar na derrota ou nem por isso?
Eu tenho uma experiência grande disto. Achei que era possível ir à segunda volta e houve um momento em que as sondagens indicavam isso. Se os votos brancos e nulos contassem, como contam nas legislativas, mesmo com aquele resultado, que é praticamente 20%, eu teria ido à segunda volta. Mas não fui, está feito. Não enjeito essa experiência.

Não invejo a situação do Presidente

Se tivesse ganho as eleições, estaria a ter um presente difícil.
Provavelmente. Não invejo a situação do Presidente.

Na última entrevista que lhe fiz, dizia que o Presidente da República tinha sido sobretudo um gestor de silêncios. Acha que ele, actualmente, tem estado melhor em relação a essas críticas que fez no passado?
Eu já fiz as críticas que tinha a fazer ao Presidente e desejo que o Presidente seja bem sucedido, porque isso é bom para Portugal e é bom para a democracia. Afirmei coisas que aconteceram: a crise política, o discurso de ruptura… mas não sei como é que o Presidente gere a crise. Ele prefere o silêncio.

Há pouco disse que gostou daquela iniciativa de ter juntado Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes…
Gostei, não percebo é por que é que a Assembleia não comemorou o 25 de Abril. Até agora não ouvi uma explicação que me convencesse. Não havia razão nenhuma, podiam ter comemorado o 25 de Abril. Uma vez que a comissão permanente se reuniu, podiam ter convocado o plenário para uma sessão extraordinária. Uma vez que isso não se fez, acho que foi uma boa ideia do Presidente. Isso acontece muitas vezes nos Estados Unidos. Os presidentes aparecem juntos, o actual e os “ex”, em momentos de grande significado nacional. É um bom exemplo. Quanto ao apelo que fizeram, é bem intencionado, mas as coisas são mais complicadas.

Fernando Nobre deve ser motivo de reflexão para as pessoas de esquerda, nomeadamente do PS, que votaram nele

Disse várias vezes que a candidatura de Fernando Nobre às eleições parecia mobilizada sobretudo contra si. O ex-candidato abandonou esse estatuto de independente, é agora candidato a deputado nas listas do PSD. Ficou surpreendido com esta decisão de Fernando Nobre, de voltar a disponibilizar-se para o combate político e agora num partido?
Não, não fiquei. Mas eu não gosto de fazer juízos morais sobre as pessoas, ele é que andou a fazer. Agora que a candidatura dele tinha um objectivo, que era combater a minha candidatura, isso é evidente.

Só?
Ele disse uma vez que me ia pôr em terceiro lugar. Não pôs, não conseguiu. Acho que o resultado das eleições e agora este comportamento dele devem ser motivo de reflexão para aquelas pessoas de esquerda, nomeadamente do PS, que foram votar nele.

E também para aqueles que o estimularam, eventualmente…
E para aqueles que o estimularam.

Há poucos dias acusou Pedro Passos Coelho de desrespeitar o Parlamento com a escolha de Fernando Nobre. Porquê? Parece-me normal que um partido possa convidar qualquer cidadão…
Não, não. Eu referia-me ao facto de o ter convidado previamente para presidente da Assembleia. Que ele o tenha convidado para deputado está no seu direito legítimo, acho isso perfeitamente normal. Mas acho como já disse que foi um erro político, com que desconsiderou elementos preponderantes do seu próprio partido que tinham essa aspiração e que acho que têm mais condições para serem presidentes do Parlamento.

Com a experiência parlamentar que tem, acha que é fácil eleger – mesmo que o PSD ganhe eleições – Fernando Nobre presidente da Assembleia da República?
Depende da maioria que ali houver. Mas vai ser muito difícil, na minha opinião.

Por aquilo que já disse o CDS, o Bloco de Esquerda…
Sinto que vai ser muito difícil. E o próprio PSD… O voto é secreto, não é?

Vai escrever sobre as duas vezes que se candidatou à Presidência?
Não, por enquanto não. Foram experiências diferentes. A primeira foi uma experiência pioneira em que tive muito mais votos do que teve agora o Dr. Fernando Nobre. Desta vez tive menos votos que da primeira vez. Todos tiveram menos, porque houve 54% de abstenção.

Contaria factos interessantes?
Se escrever, veremos. Não vale a pena escrever se não houver factos para contar.