Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
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Manuel Alegre sobre "A crise da esquerda europeia", de Alfredo Barroso:
"Um livro de combate"
10-04-2012

"Um livro de combate é o título do prefácio de Manuel Alegre ao livro "A crise da esquerda europeia", de Alfredo Barroso, que é lançado no dia 12 de Abril. "Para derrotar a direita, é preciso começar por pôr em causa a sua hegemonia ideológica e cultural. Eis o apelo essencial deste livro", escreve Manuel Alegre.
Leia o prefácio no desenvolvimento da notícia

Um livro de combate

Mais do que uma dissertação académica, Alfredo Barroso escreveu sobretudo um livro de combate, que é, em si mesmo, um acto ideológico, político e militante. Em primeiro lugar, a pergunta que muitos trazemos dentro de nós: como é possível que, num contexto histórico como este, a esquerda perca eleições e a direita as ganhe com a ideologia e as receitas que estiveram na origem da crise. Por um lado, a incapacidade dos partidos da Internacional Socialista para gerar uma alternativa ao neoliberalismo, por outro, a hegemonia ideológica e cultural alcançada pela direita, de tal modo que se chegou a uma espécie de consenso social sobre a inevitabilidade das políticas neoliberais e a impossibilidade de formular e pôr em pratica outras políticas. Segundo o autor, a partir de meados da década de 1990 a maioria dos partidos da IS foi-se tornando “uma variante social-democrata do neoliberalismo”. O socialismo democrático capitulou e deixou-se colonizar. A chamada “esquerda moderna” claudicou perante a hegemonia ideológica da “nova direita” e tornou-se cada vez menos diferente dela. Não só na prática política, mas nos conceitos e na própria linguagem.

Outros autores situam este processo um pouco mais atrás. Jean Pierre Chevénement, por exemplo, mas não só, lembram a viragem de François Mitterrand em 1983,quando adoptou a política do rigor e abandonou a grande esperança que tinha começado a ser concretizada depois da sua eleição em 1981, até posteriormente se associar a Kohl para consumar em Maastricht o triunfo da Europa neoliberal. Miguel Torga e Natália Correia, com o dom de vidência que certos poetas têm, falariam de suicídio do socialismo perante o triunfo do Capitalismo Financeiro. O certo é que a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética não trouxeram a hora do socialismo democrático, mas sim a globalização, “uma mundialização precipitada e demasiado rápida”, nas palavras de Alfredo Barroso, que descreve muito bem o que se seguiu: “desvalorização, fragmentação e precarização do trabalho; diminuição acentuada e constante do poder de compra dos salários; fusões e concentrações, cujo único critério é o aumento da rentabilidade através da diminuição dos encargos sociais; a par do desmantelamento dos serviços púbicos e da dilapidação do Estado.” Ou por outras palavras: diabolização de tudo o que é público, divinização do mercado. Ou ainda, como previa o economista americano Thorstein Veblen citado pelo autor, o capital financeiro a sobrepôr-se ao capital industrial, a comandar a economia real e a ditar as leis ao mercado, à política e aos Estados. Até chegarmos à crise actual e à ditadura dos mercados e dos especuladores, em que poderes invisíveis, não sufragados, se sobrepõem ao poder legítimo dos Estados e à própria democracia. É minha convicção que ou as democracias regulam os mercados ou estes acabam com a democracia. Os governos nacionais perdem autonomia, os países transformam-se em protectorados. É muito penoso, para não dizer intolerável, assistir à vinda periódica de três funcionários de pasta na mão para dizer a este velho país o que tem de fazer. Sempre que os vejo, dou graças por não ter sido eleito Presidente, porque não suportaria tamanha humilhação… Enfim, segundo Alfredo Barroso, citando o economista e banqueiro Jean Peyrelevade, estamos na hora do “capitalismo total”, que tende a fazer da democracia uma espécie de placebo.

Que alternativa? Para o autor a resposta está na libertação da social democracia dos seus constrangimentos actuais e no regresso aos seus valores e à sua autonomia ideológica e política, embora reconheça que essa reviravolta é muito difícil num só país. A verdade é que à hegemonia da direita tem correspondido a regressão da esquerda em geral. Os partidos socialistas, antes de terem sido derrotados nas urnas, já tinham perdido a batalha das ideias, muitas vezes dentro de si mesmos, com as correntes ditas modernizadoras a imporem a vitória da terceira via ou de outras variantes do blairismo, todas com as mesmas características: aproximação às políticas económicas do neoliberalismo dominante, abdicação do socialismo democrático como projecto autónomo de melhoria e transformação da sociedade. Por outro lado, os partidos comunistas, com excepção do português, ou sofreram uma metamorfose que os levou à irrelevância, como na Itália, ou têm vindo a ser reduzidos a uma quase marginalidade, como o francês que, não há muitos anos, era ainda o maior partido da esquerda francesa. Algo em que os socialistas europeus deveriam reflectir. A emergência de novos movimentos mostra que muitos cidadãos, sobretudo jovens, já não se reconhecem nos partidos e procuram novos espaços de intervenção. Na esquerda radical, surgiram organizações com dinâmicas inovadoras, como o Die Linke, na Alemanha, o Front de Gauche, na França e o Bloco de Esquerda, em Portugal. Mas depois dos primeiros entusiasmos têm vindo a cristalizar, centrando excessivamente as suas críticas nos socialistas e alimentando esperanças de cisões que possibilitariam o aparecimento de uma nova esquerda. Tal não tem acontecido e também não está claro qual o projecto subjacente a tal estratégia. Nada, aliás, está claro nas esquerdas. Há também um debate de ideias e, se necessário, um confronto ideológico a fazer nesta área para clarificar o que pretende cada uma das componentes da esquerda.

Uma esquerda que, em Portugal, está ainda muito marcada pela sua própria História. O PCP foi a principal força de resistência à Ditadura e a única verdadeiramente organizada, o que explica não só o seu enraizamento, mas também o facto de, ainda hoje, parte do seu papel na resistência fazer parte de um certo imaginário colectivo. Depois do 25 de Abril, no período agudo da revolução, o grande confronto foi entre esquerda e esquerda. De um lado, sob a liderança estratégica do PCP, as forças políticas e militares que, à semelhança das Teses de Abril, de Lenine, pretendiam transformar uma revolução democrática em revolução socialista com a instauração de um regime decalcado do modelo soviético; do outro, sob a liderança do Partido Socialista e dos militares do Grupo dos Nove, os que pretendiam concretizar o programa do MFA: democratizar, descolonizar, desenvolver, ou seja uma democracia avançada e socialisante, com a preservação do valor essencial da liberdade política. Foi este o projecto que venceu e que, no essencial, foi consagrado na Constituição. Tal não teria sido possível sem a vitória, no I Congresso do PS na legalidade, da linha política que defendia a autonomia do PS contra qualquer tentativa de o colocar a reboque de um projecto que não era o seu. Foi em Dezembro de 1974, na Aula Magna. Alfredo Barroso e eu estivemos lá. Do mesmo lado. Segundo Mário Soares, em múltiplas intervenções, com excepção do seu último livro em que parecer ter-se esquecido, o discurso que então proferi teve uma influência decisiva no desfecho que consagrou a sua estratégia e a sua liderança. De qualquer modo, foi com essa linha política e sob a liderança de Mário Soares que o PS venceu, nas ruas e nas urnas, num combate pioneiro que mostrou ser possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair numa nova ditadura. O que viria a ter importantes consequências para a transição democrática noutros países, nomeadamente na Espanha e na Grécia. Mas o confronto deixou marcas que ainda hoje perduram. Para uma parte da esquerda comunista e bloquista, o PS continua a ser o inimigo. Do mesmo modo que há socialistas que preferem aliar-se com a direita do que com a restante esquerda. Há nas nossas esquerdas um sectarismo que, até hoje, só tem favorecido a direita.

Também no interior do PS tem havido, com conhecidos protagonistas e diversos graus de intensidade, debate e confronto entre ala esquerda e ala direita, históricos e tecnocratas, partidários da terceira vida, desde a versão Rocard até à de Tony Blair, e defensores da fidelidade do PS aos valores essenciais da esquerda. Essa diversidade faz parte da natureza plural do socialismo democrático. Vem de longe. De certo modo, desde o início, quando em 1904, em Londres, no Congresso do Partido Social Democrata Russo, Martov confrontou o centralismo democrático proposto por Lenine, ou quando, no Congresso de Tours, Léon Blum, num discurso formidável, recusou, em nome dos valores democráticos do socialismo, as condições impostas pela Internacional Comunista.

É certo que, desde os anos oitenta, a terceira via foi ganhando terreno no PS português, como, aliás, em quase todos os partidos europeus da IS. Alfredo Barroso sublinha que é tempo de virar a página. Creio que este seu livro é um importante contributo para a urgência do debate de ideias na esquerda, como condição fundamental para a mudança. Para derrotar a direita, é preciso começar por pôr em causa a sua hegemonia ideológica e cultural. Eis o apelo essencial deste livro. A esquerda vai ter uma nova arma para o debate de ideias.

Lisboa, 6 de Março de 2012
Manuel Alegre