"Corri riscos, estive com pessoas que pertencem à História. Tudo isso fez de mim aquilo que sou."
Manuel Alegre
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Intervenção na 8ª Jornada Pastoral de Cultura
Novidade e actualidade da mensagem de João XXIII
22-06-2012

Quando foi publicada a encíclica Pacem in Terris (Paz na Terra) de João XXIII, eu estava na prisão. A razão fundamental para ter sido preso foi a minha oposição à Ditadura e a minha participação num movimento militar que tinha em vista encontrar uma solução para o fim da guerra colonial, que conheci como combatente e me deixou memórias que jamais se apagarão.
Foi também em plena guerra, no Verão de 62, que vivi com extrema ansiedade a crise dos mísseis, em Cuba, que colocou o Mundo à beira de uma catástrofe nuclear.
Imaginam por isso a alegria que senti com a notícia da publicação desta Encíclica, que interpretei como um reforço da nossa esperança num futuro de liberdade, de justiça e de paz.

Pedi por isso a familiares e amigos que trouxessem o texto para ler, mas os carcereiros não permitiram a entrada da Encíclica na minha cela.
Não me tinha enganado quanto ao seu significado e sobre a forma como iria pôr em causa a desordem estabelecida.
Daí surgiu o poema:

PARA JOÃO XXIII

Porque não sei de Deus não trago preces.
Sou apenas um homem de boa vontade.
Creio nos homens que acreditam como tu nos homens
creio no teu sorriso fraternal
e no teu jeito de dizer
quase como quem semeia
as palavras que são
trigo da vida.
Creio na paz e na justiça
creio na liberdade
e creio nesse coração terreno e alto
com raízes no céu e em Sotto il Monte.

De Deus não sei. Mas quase creio

que Deus poisou nas mãos cheias de terra
de um jovem camponês de Sotto il Monte.

Por isso mando à Praça de S. Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana bênção
João XXIII: Avô do século.

Havia uma razão suplementar para pretender ler a encíclica, que tinha como subtítulo “Sobre a Paz de todos os Povos na base da Verdade, Justiça, Caridade e Liberdade”: ela era dirigida não apenas aos fiéis de todo o mundo, mas também “a todos os homens de boa vontade”, como eu próprio sempre me considerei.
João XXIII demonstrava acreditar nos homens, crentes ou não-crentes. Falava também da vocação do homem como sujeito criador de fraternidade e solidariedade. A encíclica é datada de 11 de Abril de 1963 e eu fui preso a 17.
João XXIII teve uma grande preocupação em enunciar e fundamentar um conjunto de direitos humanos em termos que marcaram as decisões posteriores do Concílio Vaticano II e, particularmente a Gaudium et Spes, a constituição pastoral Alegria e Esperança, que viria a definir a relação da Igreja com o mundo moderno, designado como “o mundo deste tempo”.

A Pacem in Terris marcou uma evolução do pensamento católico, que um homem de esquerda como eu, empenhado na luta pela democracia, não podia deixar de saudar. Tanto mais que sempre pertenci àquela esquerda para a qual a liberdade é um valor essencial e que considera os direitos sociais inseparáveis dos direitos políticos. Ora Pacem in Terris proclamava direitos humanos fundamentais, conjugando liberdades, direitos económicos, sociais e culturais. Ao mesmo tempo sublinhava o respeito pela consciência individual e valorizava, não apenas o direito de participação na vida pública, mas a própria democracia.
Entre os direitos humanos permitam-me que sublinhe o que se refere ao respeito pela consciência dos homens. João XXIII escreve: “52. Todo o ser humano possui o direito natural ao devido respeito pela sua pessoa, à boa reputação, à liberdade para procurar a verdade (…)”.
Não me cabe analisar a forma como João XXIII fundamenta teologicamente as suas conclusões, mas há ideias que se tornaram muito claras para crentes e não-crentes e contribuíram para reforçar a determinação, não apenas de um número crescente de católicos, mas de todos os homens de boa vontade empenhados na luta democrática.
Discorrendo sobre as relações entre os homens e os poderes públicos no seio das diferentes comunidades políticas, João XXIII conclui: “52.(…) a doutrina que acabamos de expor é plenamente conciliável com qualquer espécie de regime genuinamente democrático”.
Não admira que os meus carcereiros não me quisessem colocar nas mãos frases como estas da Pacem in Terris.

João XXIII soube também ler os sinais dos tempos.
Cito apenas alguns desses sinais que hoje, em tempos de negação de direitos humanos duramente conquistados e de involução democrática, nos interpelam para agir e resistir: “40. Antes de mais, notamos que as classes trabalhadoras avançaram gradualmente, tanto no campo económico, como no campo social (…) está bem viva nos trabalhadores a exigência de não serem nunca tratados pelos outros arbitrariamente, como objectos que carecem de razão e de liberdade, mas sim como homens em todos os sectores da sociedade humana, ou seja, nos sectores económico-sociais, no da vida pública e no da cultura (…)”. “41. Vem em segundo lugar, um facto conhecido por todos: o do ingresso da mulher na vida pública (…).
Clara era também a posição anticolonial.
Cito: “43. Os homens de todos os países, ou são cidadãos de um Estado autónomo e independente, ou estão para sê-lo. A ninguém agrada sentir-se súbdito de poderes políticos exteriores à própria comunidade ou ao seu grupo étnico (…)”.
Estas palavras de João XXIII inspiraram a minha geração, fazem parte da vida de muitos de nós e estão ligadas à minha própria experiência histórica. Pacem in Terris, até pelas circunstâncias históricas em que foi publicada e dela tomei conhecimento, foi a Encíclica que mais me marcou. Mas não se pode esquecer a Gaudium et Spes, segundo o bispo Carlos Azevedo, “o documento mais inovador e mais amplo de horizontes do II Concílio do Vaticano…A novidade está no género, no tema, na estrutura, no estilo e até nos destinatários”.

A Gaudium et Spes dirige-se a todos os homens e não apenas aos cristãos: o estilo representa uma nova atitude da Igreja Católica perante o mundo contemporâneo.
A forma como começa é bem significativa:
Cito: ”1. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração (…) é por isso que a comunidade dos cristãos se reconhece real e intimamente solidária do género humano e da sua história”.
A análise da condição humana no mundo de hoje é marcada pelo método da Pacem In Terris, a leitura dos sinais dos tempos, mas avança com novas abordagens, sublinhando, nomeadamente, em termos de reflexão, uma nova atitude mais desenvolta dos cristãos. Para além dos princípios que lhe subjazem, impressiona ainda hoje a alegria e a esperança que brotam das suas páginas e o optimismo com que se encara o devir do mundo contemporâneo.

Vivemos hoje uma crise sem precedentes. Uma globalização desregulada, um capitalismo sem ética nem regras, em que o poder financeiro e especulativo domina o próprio poder político, além do mediático. A economia virtual tomou o lugar da economia real. Forças e poderes invisíveis, denominados mercados, sobrepõem-se ao poder legítimo dos Estados e dos órgãos democráticos de cada país, retirando-lhes a própria soberania. Crise moral, num mundo dominado pelo culto do bezerro de oiro, pela ganância e pela corrupção, pelo lucro pelo lucro e pelo poder pelo poder. A cultura do número substituiu o pensamento. A própria palavra do homem está pervertida e a linguagem ocupada por aquilo a que Sophia de Mello Breyner chamou “ o capitalismo das palavras.” É preciso descontaminar e libertar a palavra. Porque pela palavra se muda a vida. Assim o disse um poeta, assim o pensava, creio eu, João XXIII. Como disse o poeta Octávio Paz, Prémio Nobel de Literatura, as grandes crises são sempre crises de civilização. Ora uma crise de civilização não pode ser resolvida por receitas economicistas e tecnocráticas, as mesmas, aliás, que estiveram na origem da crise actual. Há outra dimensão da vida e o Mundo precisa de valores espirituais, da busca de um outro sentido, de um pouco mais de sonho e de um pouco mais de poesia. Talvez por isso alguém disse que esta é de novo a hora dos pensadores, dos filósofos e dos poetas. Eu diria que esta é também a hora de reler e reencontrar as palavras de alegria e esperança do Papa João XXIII.

Há cinquenta anos, João XXIII assinalou o contraste entre “a perfeita ordem universal" e a desordem que reina entre indivíduos e povos. Hoje, ainda que sob outras formas, esse contraste ameaça de novo a paz e a justiça. Dizia-nos também que era necessário tratar da ordem que deve vigorar entre os homens. E dizia-o em palavras simples, claras, universais e intemporais: “...é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão possui em si mesmo direitos e deveres que emanam directa e simultaneamente de sua própria natureza. Trata-se, por conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis e inalienáveis.” Estas palavras da Encíclica Pacem in Terris constituíram na altura uma verdadeira revolução moral e cultural. E são-no outra vez neste tempo em que os poderes que comandam o mundo esquecem que os seres humanos são pessoas e não mercados.

Não posso deixar de lembrar também aquilo que João XXIII disse numa época de sectarismo e intolerância e que, neste nosso tempo marcado pelo pensamento único, é de uma profunda actualidade: “Ninguém tem a verdade toda.”
Creio que nestes nossos dias crispados e sem horizonte, é preciso de novo uma mensagem de alegria e de esperança. E por isso devemos reviver as palavras de João XXIII como um guia para a acção, porque não podemos adiar para um amanhã incerto a construção de um Mundo mais livre, mais justo e mais fraterno.

Manuel Alegre, 8ª Jornada Pastoral de Cultura, Fátima