Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista à RTP informação:
"Ou este governo é travado ou tem de ser demitido"
14-11-2012 RTP informação

"Estamos a caminhar para um abismo, este governo tem de ser travado. E se não for travado tem de ser demitido" afirmou Manuel Alegre em entrevista à RTP informação. Manuel Alegre disse ainda que a violência em frente à Assembleia da República, no dia da greve geral, teve como consêquência abafar o impacto da greve geral.
Veja um excerto da entrevista AQUI
Veja a entrevista integral AQUI

Transcrição dos principais momentos da entrevista

A coragem de quem fez a greve geral
Manuel Alegre começou por afirmar que a greve geral foi um sucesso, comentando que os distúrbios em frente ao Parlamento foram provocados por um número de pessoas reduzido e que a polícia agiu com contenção e disciplina. Lembrou que aliás as polícias também se têm manifestado. Mas afirmou a dada altura: “Pergunto-me porquê e quem é que fez estes distúrbios. Eu fico sempre desconfiado, porque estive no Maio de 68, assisti a muitas coisas, muitas vezes há provocadores infiltrados nestas manifestações” e a consequência é que isso “abafa” o impacto da greve geral. Alegre comentou, aliás, que tem “havido sempre duas manifestações”, numa referência às pessoas que aparecem no fim para os incidentes.

Mais do que dos distúrbios, no entanto, “o que importa é falar da greve”, disse Manuel Alegre, que quis saudar “os que tiveram a coragem de a fazer” – ao contrário do primeiro ministro, que saudou a coragem de quem não a fez. Quanto às declarações do Presidente da República, o ex-candidato considerou que “ele não foi muito feliz” e que “acabou por coincidir com o que disse o primeiro ministro.”

Lembrando que quem fez greve perde um dia de salário, Alegre sublinhou a importância política de uma greve geral realizada no mesmo dia em Portugal, Espanha, Itália e outros países. A internacionalização da acção de defesa dos direitos sociais é, para Manuel Alegre, muito importante, porque “estas políticas estão a agravar os problemas sociais em toda a Europa”. Manuel Alegre considerou que os conservadores estão a aproveitar a crise para ajustar contas com a esquerda, citando Angela Merkel, que afirmou “estar tudo a correr bem porque os custos de trabalho estão a ser reduzidos”.

Numa análise à evolução da posição da Alemanha e citando um recente artigo de Teresa de Sousa, Manuel Alegre lembrou que na Alemanha houve dois caminhos: o de uma Alemanha europeia, com Willy Brandt e Helmut Schmidt, mais tarde com Kohl, e o de uma Alemanha “germânica”, que é o caminho do isolamento actual. “É preciso uma grande reviravolta na Europa”, concluiu.

“Os números estão todos errados, mas há uma fé religiosa na receita ditada pela Alemanha”
Em Portugal, Alegre afirmou que este governo tem uma obediência cega em relação à política europeia e um grande seguidismo em relação à Alemanha. “Não se trata de rasgar o memorando; trata-se de constatar uma fé, quase religiosa, na receita que a Alemanha está a ditar”, disse. Lembrando os números do desemprego, do défice e da contracção do PIB, afirmou: “Os números estão todos errados. Isto não está a dar resultado mas há uma fé cega nesta política”, criticou. “Desde o princípio critiquei a política de austeridade”, lembrou, mas aqueles que chumbaram o PEC IV (do governo Sócrates) deviam agora pôr a mão na consciência”, rematou.

Para Manuel Alegre, há uma questão ideológica que põe em causa o Estado social. “A refundação do Estado, perdoem-me a expressão, é uma treta”, disse Manuel Alegre, contrapondo que “o que é preciso refundar é a política do governo”. A pretendida “refundação do Estado”, para Manuel Alegre, não é senão a liquidação do Estado social.

Há outra coisa que Manuel Alegre considera "intolerável" na política do governo: que ponha os credores acima das obrigações perante o país. À pergunta sobre se “quem empresta, manda?”, respondeu que a Europa é um projecto de solidariedade entre Estados iguais. E responsabilizou directamente a srª Merkel por ter deixado chegar a Grécia onde chegou. “Se isto não muda, não vai acabar bem”, concluiu.

“Este governo tem de ser travado, se não, tem de ser demitido”
“Estamos a caminhar para o abismo”, disse ainda, considerando que “o governo está a fazer a política que convém aos credores”. “Este governo tem de ser travado, se não, tem de ser demitido”, disse com toda a clareza. E explicou o que pensa da posição do PS: “Para o PS talvez fosse melhor esperar por 2015, mas os partidos existem para servir o país e não os seus interesses”.

Interpelado pela jornalista sobre o que faria se fosse Presidente da República, Manuel Alegre recordou: “Eu não sou Presidente ad República, perdi as eleições, mas o Presidente tem uma pesada responsabilidade”, recordando ainda que “por muito menos, o Presidente Jorge Sampaio demitiu o Governo.” Por isso, insistiu, “ou o Governo muda de política ou deve ser demitido, mesmo que isso não convenha aos interesses da oposição ou do PS.”

Para Manuel Alegre, este governo já fez muito mal ao país, pois “liquidou a simbiose entre o Estado e os cidadãos”. “Vivi a ditadura, a guerra colonial, mas havia uma esperança”, recordou, comentando que agora “as pessoas estão deprimidas, não têm esperança”. “Já viu, perguntou, uma juventude a sair do seu país porque não há um horizonte? Ou retirar aos reformados o que eles descontaram toda a vida?”

“Eu sei que um país resgatado perde parte da sua soberania, mas não perde a dignidade nem a voz”, disse ainda. E se o poder não o representa, “o povo tem de auto-representar”, que é “o que se faz em eleições, mas também na rua”, nas manifestações.

Sobre a ideia de “governo de salvação nacional”, Alegre discordou, alertando para o facto de isso já ter sido experimentado e os resultados, mesmo na Itália, não serem o que se diz.
Quanto ao CDS-PP, para Manuel Alegre, “vai ter de se explicar”. O “partido dos contribuintes” , como gostava de ser apresentar, “foi tratado como se não existisse”, “há maneiras mais dignas de tratar um parceiro de coligação”. “Este governo ignorou o PS”, a quem só quis “como muleta para cortar no Estado”, mas também o CDS-PP, considerou Manuel Alegre. Quanto a Paulo Portas, Manuel Alegre afirmou não saber o que ele anda a fazer, “porque não temos política externa, não é só fazer negócios”.

O nosso pacto de regime é a Constituição
Interpelado sobre os pactos de regime, Manuel Alegre afirmou que são “grandes frases” que alguns dizem, mas que “o nosso pacto de regime é a Constituição.” Quanto às chamadas reformas estruturais, afirmou: “Eu tenho assistido é a contra-reformas, à desconstrução do mais bonito que fizemos desde o 25 de Abril”. E interrogou-se: “Destruir tudo isso para quê? Entregar a privados em nome de quê?”

Quanto ao pretendido diálogo do governo com o PS sobre as funções do Estado, Manuel Alegre disse que “o PS tem de estar dentro de tudo o que diga respeito aos problemas do Estado” e não se recusa a discuti-los, mas “o que se passa agora é uma armadilha”, de que António José Seguro se livrou.

Sobre a hipótese de eleições antecipadas, Manuel Alegre voltou a afirmar que “este governo tem de ser travado” e que o PS tem de estar sempre preparado, considerando que António José Seguro tem agido segundo uma linha de rumo coerente, embora considere que “há uma grande campanha mediática para responsabilizar o PS, mas o PS já foi julgado em eleições.”

Sobre o memorando, Alegre reiterou que “não é uma bíblia sagrada, não é um dogma” e que “o que é preciso é mais tempo e mais investimento”, como o PS tem defendido e agora até também o próprio CDS-PP.

“Eu não quero o meu país de joelhos”
“Eu não quero o meu país de joelhos”, disse Manuel Alegre, que confessou sentir “uma grande mágoa, mas ao mesmo tempo indignação, revolta e vontade de reagir” ao actual estado de coisas. “A visita da srª Merkel foi uma vergonha, Lisboa parecia uma cidade ocupada”, disse ainda, explicando: “Fiquei muito incomodado quando vi o Primeiro Ministro a falar, parecia um colegial perante um professor”.

No final da entrevista, interrogado sobre se voltaria a candidatar-se a Belém, Manuel Alegre recusou peremptoriamente, sem deixar de defender que “é preciso preservar o Presidente da República e a função presidencial”. “Posso fazer críticas, acrescentou, mas em horas difíceis ele deve ter força para tomar as posições que tem de tomar.” Quanto ao envio do Orçamento de Estado ao Tribunal Constitucional, Manuel Alegre afirmou que “o Presidente agiria com prudência se fizesse isso”, salvaguardando no entanto que “ele tem pareceres, a última palavra compete ao Presidente.”

A entrevista terminou com uma referência a Mário Soares, a pedido da jornalista: “Estou de acordo com muitas coisas de que ele tem falado” e agora “trata-se de olhar para a frente”. “Estivemos juntos em grandes combates, contra a ditadura, na construção da democracia – isso é o que vai ficar.”